Ainda é madrugada e o chão já está repleto de frutas e verduras, a maioria em paneiros e caixas, prontos para serem transportados. Ao mesmo tempo, é grande o risco de se tropeçar ou pisar em restos de comida no Centro Estadual de Abastecimento Pará (Ceasa). Desde as primeiras horas da manhã, produtores de frutas e hortaliças dividem o espaço de distribuição de alimentos para expor os produtos aos compradores. Caminhões encostam para descarregar as mercadorias e, em menos de duas horas, o chão está repleto de tomates, couve-flor, laranjas, mamões, abacates amassados, espalhados por todo o centro. Os cuidados com o manuseio das frutas e verduras são quase inexistentes. A cultura do desperdício impera.
Dezenas de caminhões enfileiram-se. Estão abarrotados de alimentos. Em um deles, dois carregadores sobem e pisam nos tomates e nas folhas de couve para esvaziar a carroceria. A couve é o retrato mais fiel desse descaso. Para ser vendida, ela é espalhada pelo chão, nem parece que está ali para consumo. “Não tem outro jeito”, diz um feirante.
Estudos feitos sobre a cultura do desperdício já apontaram que, no mínimo, 10% de tudo o que chega para ser comercializado no local é desperdiçado. Cerca de 270 mil toneladas de alimentos são descarregadas anualmente no Ceasa, ou seja, pelo menos 27 mil toneladas de alimentos são desperdiçadas a cada ano, sem considerar o que é desperdiçado nas feiras livres e supermercados de Belém. Quem acaba pagando a conta é o consumidor final.
O País tem um índice de 10 milhões a 40 milhões de famintos, dependendo de quem faça a estimativa. Estudos realizados há alguns anos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já mostraram que o brasileiro joga fora mais do que aquilo que come. Em hortaliças, o total anual de desperdício chegaria a quase 37 quilos por habitante. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que, nas dez maiores capitais do Brasil, cada pessoa consome em média 35 quilos de alimentos ao ano, ou seja, menos do que o que joga fora. O mesmo IBGE já havia detectado que o Brasil se dá ao luxo de desperdiçar cerca de 40% de tudo aquilo que produz. E a fome continua sendo um fantasma a ser exorcizado.
Há dez anos dona Maria Junqueira, 66 anos, cumpre o mesmo ritual. Acorda cedo, no bairro da Pedreira, apanha uma Kombi, quando tem dinheiro, e por volta de 4h já está no Ceasa. Traz cerca de quatro sacolas. Caminha devagar, de um lado a outro. Vez em quando para e começa a fazer a ‘feira’. Ela cata comida próximo aos lixeiros. Frutas, verduras e alguns temperos que servirão para ajudar na alimentação da família: um filho deficiente e três netos, deixados por uma mulher que seria sua nora. “Ela foi embora e deixou as crianças”, diz Maria. A coleta feita diariamente compensa a dificuldade de sobreviver com um salário mínimo. Ela diz que consegue produtos ainda em boa qualidade. “Tem tanta gente precisando e eles preferem jogar fora a comida que não irão usar”, diz.
Do bairro da Sacramenta sai Inês de Souza, 50 anos. Ela chega geralmente às cinco horas; às sete, já está voltando para casa, com cinco sacolas cheias de frutas e verduras. “Não estou empregada, nem meu marido, que é eletricista. Em casa, somos seis pessoas, incluindo meus três netos. O que consigo aqui ajuda a alimentar todo mundo. Faço saladas, vitaminas, sopas. No começo, eu ficava envergonhada, mas tem coisa pior que passar fo
PRODUTIVIDADE
Enquanto em determinados locais a cultura do desperdício impera; em outros, há a fartura do que a terra proporciona. Diversas famíliasm às margens da BR-316, em Santa Izabel, em pequenos espaços, têm uma produtividade invejável. Agricultores familiares plantam legumes e verduras que irão abastecer uma grande cadeia de supermercados de Belém.
“Começou há uns 40 anos”, diz Benedito Gomes, o Bené, 73 anos, enquanto vai aprumando o espaço na terra para novas mudas. Como quase sempre ocorre na área dos agricultáveis, foi um japonês que iniciou tudo. Bené trabalhava como empregado, mas soube captar a essência da coisa e decidiu fazer por conta própria.
Aos poucos, com os primeiros bons resultados, o resto da família e os vizinhos também passaram a investir capital e esforços na empreitada. Começaram a vender e o negócio se expandiu. “Cada um ajuda o outro. Quando todo mundo tem ‘boa emoção’, ninguém prejudica o parceiro”, diz.
Apesar do empreendimento, não passa pela cabeça de ninguém do Areia Branca, localidade de Santa Izabel onde as plantações familiares se proliferam, criar cooperativas. Todos se ajudam, mas cada um é responsável pela própria venda e pelo próprio espaço, que vem se tornando pequeno. “A terra precisa se renovar, daqui a pouco esgota”, avalia o agricultor.
Mesmo com pouco estudo, Benedito Gomes é preciso na avaliação dos problemas ambientais da Amazônia. “Aqui tem muito desmatamento pra soja e pasto pro gado. O gado não é o sustento da nação, nem a soja. Tem que ter mais é comida na mesa. E é a plantação que faz isso”, diz.
(Diário do Pará)
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