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200 mil vivem com meio salário no Guamá e TF

O equivalente populacional a uma cidade europeia de porte médio vive tendo a fome como uma ameaça constante em dois bairros de Belém. No Guamá e na Terra Firme, cerca de 200 mil pessoas sobrevivem com uma renda média de meio salário mínimo por mês, segund

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O equivalente populacional a uma cidade europeia de porte médio vive tendo a fome como uma ameaça constante em dois bairros de Belém. No Guamá e na Terra Firme, cerca de 200 mil pessoas sobrevivem com uma renda média de meio salário mínimo por mês, segundo levantamento apontado pelo programa Pobreza e Meio Ambiente (Poema), organização ligada à Universidade Federal do Pará (UFPA).

“É um pesadelo para o povo que vive nesta situação e para a cidade como um todo”, avalia o coordenador do Poema, Thomas Mitschein. Um dos autores do livro “Crescimento, Pobreza e Violência em Belém”, que faz um recorte preciso entre a pobreza e os sinais de violência na cidade. Mitschein lamenta que uma iniciativa criada pelo Poema para tentar combater a fome nos dois bairros nunca tenha sido adotada nem por gestores municipais, nem por estaduais ou federais.

A ideia é relativamente simples. A adoção de cestas básicas regionalizadas a serem distribuídas aos moradores cadastrados nos dois bairros. Os alimentos das cestas seriam produzidos por comunidades ribeirinhas e tradicionais do Pará. A compra dos produtos seria feita ou por empresas privadas que comprassem a ideia ou pelo poder público em qualquer uma das três esferas. O resultado do projeto, três anos depois, ainda é nulo. Ninguém ‘comprou’ a ideia.

“Partindo do princípio de que a insegurança alimentar é um problema de segurança pública no Pará, o projeto sugere a construção de uma ponte de desenvolvimento entre campo e cidade, no sentido de aproveitar nas áreas urbanas a demanda por cestas básicas, por parte das populações socialmente vulneráveis e ao mesmo tempo consolidar cadeias produtivas no interior paraense, envolvendo comunidades rurais organizadas”, explica Mitschein. “Ajudaria as duas pontas da corda”, complementa.

De início, o projeto alcançaria 1.500 famílias dos dois bairros, cuja renda mensal não ultrapassasse o montante de R$ 72,00 por mês, ou seja, o público definido pelo Programa Fome Zero como em situação de vulnerabilidade social. “A insegurança alimentar é um problema grave no Brasil. Ela ocorre quando o direito ao acesso regular e permanente de alimentos com qualidade, em quantidade suficiente, é violado. Às vezes, a insegurança alimentar é gerada a partir do comprometimento da renda familiar em outros serviços, como a saúde”, diz o coordenador.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2004), 13,2% dos domicílios no Estado do Pará sofrem uma situação de insegurança alimentar grave. Este índice sobe para 54.3% se forem considerados, também, insegurança leve e moderada como indicadores de avaliação. No caso da zona rural do Pará, a insegurança alimentar alcança 66,1% dos domicílios.

“Partimos da ideia de que a oferta de cestas regionalizadas se torna insumo importante para políticas de desenvolvimento, na medida em que encarem o fornecimento dos ingredientes destas mesmas cestas como uma oportunidade para a consolidação e ampliação de cadeias produtivas regionais”, argumenta Mitschein.

BATALHA DIÁRIA
Famílias como a de Lílian Miriam Marques, 26 anos, teriam muito a comemorar caso o projeto fosse encampado por alguma empresa privada ou órgão público. Lilian mora na Passagem Vera Cruz, no bairro da Terra Firme. Mãe de Stephanie, 7 anos, e Ariane, dois anos, está no terceiro mês de gestação de mais um filho. O salário do marido mal chega ao mínimo. Eles ainda pagam aluguel. “A gente faz a compra do mês, mas nem sempre dá pra chegar. Tem dia que falta comida mesmo”, diz.

No cardápio caseiro, ovo, macarrão e calabresa são base para muitos dos almoços. Comprar fiado em um pequeno comércio próximo também é solução paliativa. Macarrão com picadinho era o que a família tinha para almoçar no dia da entrevista.

Stephanie é uma das crianças que estudam na escola criada por uma associação de moradores na Terra Firme. Vivenciar o cotidiano da escola é conhecer de perto as carências nutricionais de meninos e meninas pobres. “Muitas vezes o que eles têm para comer é o que damos aqui”, diz a professora Maria Joana. São 270 crianças. “Alguns chegam sem café da manhã. Os da tarde costumam vir sem almoçar”, diz ela. “É o que salva o dia delas”, complementa.

A comida é fornecida por intermédio de uma parceria com o Fundo Municipal de Assistência ao Estudante (FMAE). No cardápio, mingau, arroz, Nescau, pão, carne. Sopas e guisados fazem a festa das crianças.

“Nos bairros da periferia a situação da fome chega a ser pior do que no interior do estado, que possibilita outras formas de alimentação. Nos bairros periféricos das cidades grandes é mais complicado. A pessoa não têm condições de viver do extrativismo. Acabou isso”, diz Thomas Mitschein. “No interior não temos tanto a desnutrição aguda, por falta de comida, mas temos muita desnutrição por falta de quantidades suficientes de ingestão de alimentos específicos, que levam a carências específicas”, diz a nutricionista Ana Paula Pereira. “Somos campeões de anemia, por exemplo”, ressalta.

Na Vila Garibaldo, na Terra Firme, Keila da Silva Borges, 30 anos, já está no quarto filho. No pequeno espaço cheio de coisas atulhadas, sabe que cada dia é uma batalha para alimentar a família. “Tem dias que fico me perguntando sobre o futuro. Não quero que meus filhos passem pelo que eu já passei”, diz.
(Diário do Pará)

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