Um ouriço de castanha-do-Pará costuma ser vendido pelos extrativistas por R$ 0,80. O litro do óleo da castanha, um produto já industrializado, custa algo em torno de R$ 40,00. A renda gerada pelo produto florestal é grande, mas pouco se sabia até então a respeito de qual era o valor pelo menos aproximado disso. É o que pretende mostrar o estudo “Cadeias de Comercialização de Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM)”, desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp), com a parceria do Instituto de Desenvolvimento Florestal do estado do Pará (Ideflor) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Oriental, além de fundamento metodológico do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA).
O estudo considera análises socioeconômicas das cadeias de comercialização dos PFNM para as Regiões de Integração do Baixo Amazonas, Guamá, Rio Caeté, Xingu e Marajó. “Os diagnósticos dos PFNM descortinam uma economia invisível até então, demonstrando que no seu entorno existe uma grande movimentação de mão-de-obra e geração de renda contribuindo para a valorização dos ativos florestais como alternativa sustentável ao desenvolvimento da região” analisa Cassiano Ribeiro, diretor de pesquisas socioeconômicas e análise conjuntural do Idesp.
O trabalho mostra que os produtos florestais geram mais renda do que seria previsível supor e podem servir de guia para iniciativas do próprio governo estadual para valorização da floresta em pé. Os estudos identificaram, por exemplo, que na Região de Integração do Baixo Amazonas, o produto de destaque é a castanha-do-pará, que gerou uma renda bruta de R$ 71 milhões, sendo que 67% desse valor circulou fora do Estado. Na Região de Integração do Guamá, o destaque ficou com o açaí, com 85% da renda bruta de R$ 88 milhões circulando dentro do Pará. O produto também se sobressaiu nas Regiões de Integração do Marajó e no Rio Caeté, gerando R$ 690 milhões com 52% circulando na região e 16 milhões com 27% circulando fora do Estado respectivamente. No Xingu, o cacau amêndoa é o principal produto, gerando R$ 1,54 bilhão com 52% circulados fora do Pará.
Região de Integração é a forma com que o governo paraense dividiu o estado para melhor fazer estudos e análises. Os relatórios permitem identificar possibilidades produtivas locais e regionais, entraves tecnológicos, necessidades de investimentos (curto e longo prazo), regularização e especialização dos agentes locais/regionais, além de apontar produtos que não constam das estatísticas oficiais ou que são subestimados e dar recomendações para melhorar a cadeia produtiva e ampliar a geração de renda. “Esses estudos têm uma função que é a de tirar da invisibilidade o que produzem o que chamamos de povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares”, diz Edson Barbosa, gerente de promoção da economia do Ideflor. “São povos que sobrevivem da floresta há muito tempo, mas sempre se diz que a floresta não tem preço. Buscamos saber então qual o valor dela”, diz.
Na pesquisa, feita em campo pelo IDESP, buscou-se a cadeia de comercialização dos produtos. A pergunta básica era: ‘pra quem tu vendes? De quem tu compras?”. Com base nas respostas os pesquisadores iam atrás das duas pontas da cadeia produtiva. “É uma informação preciosa”, diz Barbosa. “Um exemplo é o açaí do Marajó. Ele vai para diversas regiões. Em Castanhal ele é processado e exportado para outros estados. Só nesse âmbito, ele chega a gerar uma renda de quase R$ 700 milhões. Bate a estatística do IBGE que estima para todo o estado uma renda de R$ 200 milhões”. Segundo Ribeiro, o diagnóstico permite ainda uma análise regionalizada sobre a importância dos produtos florestais. Alguns produtos apresentam importância somente em escala local, como os fitoterápicos, artesanatos e óleos. São produtos que geralmente tem como principal canal de escoamento as feiras interioranas nos municípios. Já produtos como o açaí e a castanha adquirem expressão estadual, nacional e até mesmo internacional e exigem canais mais sofisticados de transformação e comercialização.
Os resultados obtidos vão subsidiar o Ideflor em ações que visam o fortalecimento das cadeias desses produtos. “Dentro da estratégia do Ideflor de recuperação de áreas alteradas e reflorestamento pautado em Sistemas Agroflorestais – SAF, o estudo de não madeireiros dá embasamento para que possamos discutir junto aos comunitários quais serão as espécies com fins comerciais que poderão ser inseridas nas ações”, diz Barbosa.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar