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Ruas de Capanema foram tomadas por fiéis

Com os olhos cerrados em oração, Antônio Araújo não via a beleza sob seus pés. Foram vários minutos de uma conversa silenciosa com propósito definido. A conquista de uma graça especial que ainda não podia ser revelada. Ao final, um beijo no terço carregad

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Com os olhos cerrados em oração, Antônio Araújo não via a beleza sob seus pés. Foram vários minutos de uma conversa silenciosa com propósito definido. A conquista de uma graça especial que ainda não podia ser revelada. Ao final, um beijo no terço carregado na mão esquerda e um susto.

“Meu Deus, tô pisando no tapete e o Cristo nem passou ainda. É um pecado, mas como Ele é misericordioso, sei que vai me conceder o pedido”, disse, enquanto apressava-se em sair de cima do recém montado tapete de serragem e areia tingidos. Misturado a outros milhares de fieis, ele acompanhava a missa campal que antecedeu a procissão de Corpus Christi no município de Capanema, nordeste paraense, na manhã de ontem.

“Saí da cama às 5h30 pra apreciar essas paisagens montadas para o nosso Deus. É um verdadeiro cenário bíblico que muita gente só conhece através dessa arte. Eu sinto como se essa beleza nos chamasse atenção para vida que o Pai quer pra gente”, definiu a professora aposentada Luzia Queiroz, 75 anos, lamentando não poder acompanhar a procissão que, antes das 8h30, já partia da frente do auditório Frei Leônidas Vavassori. “A mocidade não me permite mais. É muito lindo”, justificou a senhora, que saiu de Belém para acompanhar a solenidade pela primeira vez e ouviu o badalar dos sinos com a queima de fogos marcarem o início da caminhada religiosa. Era a primeira das homenagens que viriam em quatro paradas oficiais para reflexão e benção.

CORPO DE CRISTO

Ao longo de 1.300 metros, o tapete estendido apontava a direção e abria caminho para o Corpo de Cristo representado pela Hóstia consagrada conduzida em um ostensório (espécie de cruz metálica) pelas mãos de Frei Manoel Raimundo dos Reis, vigário paroquial. “Essa é uma procissão que nos mostra Cristo presente. Ele percorre as ruas, não está somente lá em cima. Está no nosso Eu, no nosso meio. Por isso estamos todos em volta do altar para celebrar esse Cristo que é Vivo”, afirmou o frei.

Com 70 anos de idade e com a pele castigada por uma alergia que segundo ela, não era curada por médico nenhum, dona Francisca da Costa acompanhava o trajeto sob o forte sol. Muito emocionada e abraçada a um maço de velas, ela pagava uma promessa. “Me apareceu uma doença que me fez perder toda a pele.Ninguém dava jeito aí eu me peguei com o Corpo de Cristo e no outro dia já tava melhor. Ontem eu chorava de dor, hoje é de alegria. Não tem melhor que ele”, comemorou.

36ª EDIÇÃO

Na 36ª edição da solenidade, que se transformou em Patrimônio Histórico e Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará no ano passado, cerca de 400 pessoas organizadas em 32 grupos estiveram diretamente envolvidas na montagem do tapete que consumiu 4 toneladas de serragem e 6 toneladas de areia tingidas, além de 1,5 quilogramas de cal e outros materiais como tampinhas de refrigerante e casca de ovos. Uma beleza que encheu os olhos do prefeito de Ananindeua, Helder Barbalho, que fez questão de prestigiar o evento. “É uma bela expressão da comunidade católica. Além da procissão, marcada pela fé e devoção do povo, a arte simbolizando essa tradição católica destaca ainda mais a manifestação”, disse.

Conhecedor da festa de Corpus Christi de Capanema há anos, Dom Carlos Verzeletti, bispo da Diocese de Castanhal, por motivo de saúde não pode acompanhar a procissão de ontem, mas presidiu tanto a missa campal quanto a de encerramento da solenidade deste ano. Para ele, a manifestação no município encanta porque além de reunir as pessoas, as ensina a amar a Deus. “Aqui a gente vê o amor por Cristo passar de uma geração à outra de uma maneira que envolve a participação de todos. Agora, a lição que fica é a de continuarmos tecendo outros tapetes. O da solidariedade, da caridade, do amor e da obediência. Esses devem ter montagens diárias”, aconselhou o bispo. (Diário do Pará)

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