Juntos, os pés arrastavam e levavam consigo parte dos desenhos construídos ao longo dos 600 metros de pista. Sob os calçados dos cerca de cinco mil fiéis que participaram da procissão de Corpus Christi na manhã de ontem, o colorido da serragem e da areia, que ora construíam o formato de ostensórios, ora o de mãos que se unem em oração. Preparado diretamente por representantes de 68 paróquias da arquidiocese de Belém, o tapete foi o primeiro produzido na capital paraense para a procissão que celebra a presença viva do corpo de Cristo na Eucaristia.
Iniciada com uma missa presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Belém, Dom Alberto Taveira, na Praça Waldemar Henrique, a celebração seguiu pelo caminho enfeitado até a Igreja das Mercês. Acompanhando os fiéis, que lotaram a procissão, estava o Santíssimo Sacramento, ostensório que contém a hóstia consagrada que, segundo a tradição católica, é o próprio corpo e sangue de Cristo.
A poucos metros do carro que carregava o ostensório, o gestor público Arnaldo Costa mantinha sua concentração no corpo presente de Cristo. Para ele, que participou da procissão pela terceira vez, o gesto de caminhar em direção ao local que armazenava a hóstia representava sua maior intensão. “Estamos acompanhando Cristo na hóstia consagrada e isso emociona muito”, disse. “Nós católicos deveríamos dar mais valor a isso, a essas comemorações. Achamos que essa preparação que vemos aqui deveria acontecer em todos os anos”.
Focando suas orações na busca de saúde para o irmão doente, Maria dos Anjos não esquecia de agradecer aos que haviam preparado o tapete como novidade. “Esse tapete é um dom que Deus dá para as pessoas. Tudo isso é o dom que ele dá”, acredita. “Viemos aqui para que ele nos dê forças para chegar até ele”.
Aos 68 anos, a aposentada Conceição Reis, também, fazia questão de seguir por cima do caminho preparado por mais de seis horas, na madrugada do dia anterior. “É maravilhoso (o tapete de serragem). Isso aqui nada mais é do que uma demonstração de fé e de aceitação de Cristo”, disse. “Vim pedir, mas também agradecer por muitas graças. Jesus nunca me abandonou”.
A frente da multidão que acompanhava a celebração, o carro que levava o ostensório era o primeiro a ter contato com a serragem que adquiria diversas cores com o decorrer do percurso. Ao seu redor, o arcebispo emérito de Belém, Dom Vicente Zico, o arcebispo auxiliar Dom Teodoro Mendes, e o arcebispo Dom Alberto Taveira. “A Eucaristia é o bem mais precioso da Igreja e, quando pensamos em fazer esse tapete de serragem, encontramos uma acolhida impressionante das paróquias”, disse Dom Taveira, após a bênção solene que encerrou a celebração. “A procissão é uma homenagem à presença permanente de Jesus e foi uma procissão que encheu o coração de todos. O tapete é mais uma forma de demonstração de fé”.
Orgulho pela confecção do tapete
Uma das responsáveis por essa demonstração, a estudante Nina Rosa lembrava de cada detalhe construído por ela. Integrante da Paróquia de Santa Maria Goretti, ela ajudou a montar a primeira parte do tapete, iniciado na rua Municipalidade. “É muito emocionante saber que contribuí com a construção do primeiro tapete em Belém. Eu coloquei parte dessa serragem preta do manto, essa parte vermelha também”, orgulhava-se. “Não tenho nem palavras para explicar a emoção porque tudo é uma experiência nova. É a primeira vez que participo”.
Passada a caminhada, depois de tantos passos, a imagem de Santa Maria Goretti, construída por Nina e seus colegas de paróquia, se resumia apenas à serragem espalhada de um extremo a outro da via. Porém, nas mãos do técnico Robson Viana, o tapete ainda permaneceria por muito tempo. “Aproveitei pra deixar tudo registrado na máquina porque não sobra nada depois. É o primeiro tapete feito em Belém e foi um trabalho bem interessante que deveria ter sempre”. (Diário do Pará)
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