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Mal de Alzheimer afeta 10% dos idosos no mundo

Os olhos da aposentada Síria Sarquis, 84 anos, têm um brilho que procura iluminá-la por dentro. São pequenos faróis que tentam guiar suas ideias pelo tempo e pelos espaços, que remontam cacos de memória, que lutam para situar seus pensamentos. Às vezes, r

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Os olhos da aposentada Síria Sarquis, 84 anos, têm um brilho que procura iluminá-la por dentro. São pequenos faróis que tentam guiar suas ideias pelo tempo e pelos espaços, que remontam cacos de memória, que lutam para situar seus pensamentos. Às vezes, recuperam fragmentos de um passado que, de tão perto, quase se mistura com o presente. Diagnosticada com Alzheimer há 12 anos, dona Síria pinta, dança, conversa e sorri. Torcedora fanática do Remo, ela não abre mão de decorar a casa com motivos do clube. “Eu amo esse time de paixão”, revela.

O Alzheimer é uma doença neuro-degenerativa que provoca o declínio das funções intelectuais. É a principal causa de demência em pessoas com mais de 60 anos. Atualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma doença que afeta 10% da população mundial acima de 60 anos. O número de casos de demência deve triplicar até 2030, graças ao envelhecimento da população, atingindo cerca de 65,7 milhões de pessoas, de acordo com a OMS. O Alzheimer, mais comum em países em desenvolvimento, será responsável por 70% dos quadros.

A ciência ainda não descobriu o que causa a doença nem a sua cura. Porém, os familiares de pessoas portadoras de Alzheimer já descobriram o que precisam fazer: se unir. Apesar de ainda ser incurável, o Alzheimer tem tratamento e seu avanço pode ser retardado.
No caso de dona Síria, a grande responsável por ela ainda preservar parte da pessoa que um dia já foi é sua sobrinha, Maria do Rosário Charchar, 65 anos. Já os suportes de dona Rosário são os familiares e amigos do grupo de apoio da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer), instituição sem fins lucrativos e de portas abertas a qualquer um. Nas reuniões que acontecem todas às terças-feiras, há 14 anos, na sede da Abraz em Belém, cuidadores de portadores de Alzheimer discutem a doença, compartilham desabafos, estreitam laços e celebram juntos o amor que sentem pelas pessoas queridas, que lutam diariamente para se manter inteiras.

Perda de memória e confusão mental. O Alzheimer se manifesta e se desenvolve de formas diferentes dependendo da pessoa, mas os sintomas iniciais costumam ser os mesmos. “Quando ela (a tia) foi diagnosticada eu nem conhecia a doença, não sabia do que se tratava. Eu fiquei desesperada, senti um medo muito grande”, relembra dona Rosário. Assistente social aposentada, a sobrinha mais próxima abraçou a missão de cuidar da tia solteira. Logo que resolveu encarar o problema, ela foi procurar ajuda.

Desde então, dona Rosário participa regularmente das reuniões do grupo de apoio e se tornou voluntária da Abraz. Além disso, a “tia Síria”, como é conhecida por todos, participa semanalmente das atividades promovidas pela Associação. Graças ao estímulo das capacidades intelectuais, tia Síria consegue controlar o avanço da doença e manter, na medida do possível, sua qualidade de vida. “É muito bom. Lá todos falam a mesma língua. Às vezes, a gente tá cansada, estressada... Todos estão aprendendo, se fortalecendo e podem expressar o que estão sentindo”, conta dona Rosário. As reuniões do grupo de apoio costumam juntar entre 25 e 30 pessoas, mas os números variam. Para a cuidadora, além do interesse em tratar o paciente, zelo por parte da família é fundamental. “É muito importante ter carinho, afeto, cuidar amando e estar sempre estimulando a memorização”, orienta dona Rosário. Em uma palavra, a sobrinha justifica o que a motiva a lutar por sua tia: amor.

Graça Nascimento, 73 anos, presidente da Abraz, entrou na Associação há 12 anos por causa de sua mãe, portadora de Alzheimer, que faleceu há 7. “No grupo a gente partilha a dor e partilha a alegria. A gente termina a reunião sorrindo, se sentindo leve, provando que é possível sim conviver com Alzheimer”, comenta Graça. Para a presidente da Associação, o preconceito e a desinformação são os principais problemas que dificultam o tratamento da doença. “As pessoas já torcem o nariz para velho, para um velho com demência então... É preciso entender que é necessário tratar bem essa pessoa e oferecer qualidade de vida para ela até o fim”, fala Graça.

Papéis se invertem no seio da família
Uma guerreira solitária. Na casa de Vanderlucia de Carvalho, 52 anos, os papéis foram invertidos. “É como cuidar de um bebê. Eu dou banho diário nela, passo hidratante, visto, dou comida na boca... Ontem ela até me chamou de mamãe”, conta a comerciante, filha de dona Alda de Carvalho, 88 anos, diagnosticada com Alzeihmer há 10. Diferente de dona Síria, dona Alda já não anda, não fala e só come se receber ajuda. Sua personalidade se perdeu com a progressão da doença e agora pouca coisa pode ser feita para conter o processo. Mas Vanda, como é mais conhecida, faz muito. E faz só.

“Eu não confio em ninguém pra tomar conta dela. Se eu saio um pouquinho à tarde tem que ser só quando ela tá deitada e ninguém pode mexer. Mas eu nem gosto muito de sair de casa que é pra não deixar ela só”, conta Vanda. Ela ficou traumatizada quando, há seis anos, o enfermeiro que tomava conta de sua mãe não impediu que ela se machucasse. Certa vez, o fêmur e o nariz de dona Alda foram quebrados por conta de uma queda. “Eu só consigo suportar porque faço muito oração e peço pra Deus renovar minhas forças. Ele também me deu duas filhas maravilhosas”, fala Vanda.

De acordo com a presidente da Abraz, para que a doença não se torne um fardo para ninguém, o ideal é que se procure apoio. “A doença não atinge só o portador de Alzheimer, ela atinge toda a família. O ideal é que o cuidador não se sacrifique tanto e, além de ajudar, também busque ajuda, se não a pessoa adoece também”, ressalta Graça. Mais do que compaixão e boa vontade, é preciso uma dedicação paciente para manter dona Alda viva. “Não dá pra saber quando ela tá gritando de dor, de fome, de birra, porque ela não fala. Mas eu já aprendi a saber o que ela quer, o que ela tá sentindo pela expressão dela”, explica dona Vanda. Mesmo tendo praticamente perdido a mãe para a doença, as lembranças que fugiram da mente da senhora de aspecto frágil permanecem vivas na cabeça da filha. “Quando ela ainda andava, eu passeava muito com ela. Ia até Icoaraci, fazia ela pisar na areia. Ela ficava brincando que nem criança, todo mundo olhava. Mas eu não sentia vergonha”, relembra Vanda. Agora, sua mãe não pode mais fazer pegadas na areia, pois desaprendeu a andar. No entanto, dona Alda poderá contar até o fim com os braços da filha, sempre abertos para apoiá-la para seguir em frente.

Serviço
Busque ajuda:
Reunião do Grupo de Apoio da Abraz
3ª Feira - 15:00 às 17:00hs
Endereço: Avenida Governador José Malcher
n° 915 Sala 11

(Diário do Pará)

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