Das águas tranquilas da Baía do Guajará chegam os bois. Equilibrados em cima do barco enfeitado com flores e fitas, suas cores contrastam com o céu azul e marcam o início de mais uma jornada do Arraial do Pavulagem pelas ruas do centro de Belém no mês de junho.
Passando por uma espécie de portal enfeitado de folhas de açaizeiro e flores que os esperavam na saída do barco, os Bois Pavulagem e Malhadinho deram início ao primeiro cortejo do ano, manifestação que ainda deve se repetir por pelo menos mais três domingos.
Ao som abafado dos tambores e dos chocalhos que entoavam carimbós e músicas de boi, já estavam lá na concentração da escadinha da Estação das Docas, as tradicionais fitas coloridas que enfeitam os chapéus dos brincantes. Integrante do cenário, as fitas do chapéu da pequena Larissa, de cinco anos, seguiam trêmulas o sentido do vento. Do cangote do pai, o analista de sistema Cláudio Pereira, ela acompanhava de cima toda a movimentação dos adereços que ora incorporavam formas de estrelas e luas, ora de pequenos bois. “É maravilhoso. É a primeira vez que ela participa e está gostando muito”, destacava animado o pai.
Apesar de já conhecer o trabalho do Arraial do Pavulagem através dos sobrinhos que fazem parte do grupo, Cláudio ainda não havia acompanhado nenhum cortejo. Antes mesmo da saída do grupo, ele já aprovava a manifestação. “É muito bom. Só de ver eles aqui, como funciona tudo, já dá pra saber que vamos querer voltar. No próximo domingo estaremos aqui”.
O comprometimento da técnica de enfermagem Janete Ramos com o arrastão também foi traçada desde a primeira participação. Fisgada pela energia do grupo há dez anos, ela espera ansiosa pelo mês junino. “Eu participo das oficinas que começam em maio e junho. A gente aprende dança e percussão pra ficar tudo certo quando chegar o cortejo. Quando chega junho, o mês fica especial, fica diferente”, destaca ela, que conheceu a manifestação cultural por intermédio de um amigo. “Eu faço parte há dez anos. E cada vez vem mais gente”.
Na subida da avenida Presidente Vargas, a multidão que seguia atrás dos bois anunciava o tamanho da manifestação cultural. No ponto mais baixo da avenida, o olhar ao horizonte trazia a imagem do que mais parecia ser um mar de gente.
Apesar do número grande de seguidores, para Júnior Soares, um dos fundadores do Grupo Arraial do Pavulagem, mais importante não é a quantidade de pessoas. “A nossa expectativa é muito mais sociológica. Temos a expectativa de que as pessoas se apropriem dessa manifestação com responsabilidade ambiental e social”.
Além dos adereços que marcam cada “ala” do cortejo, o grupo também levanta, esse ano, a bandeira de uma brincadeira sem bebida alcoólica.
Preocupado em passar a tradição para as gerações mais novas, Júnior destaca a importância de manutenção da tradição. “Estamos com uma expectativa grande de não consumo de bebida alcoólica. É a bandeira que estamos levantando esse ano para a massa humana que arrastamos”, disse ao informar que o grupo também completa 25 anos em 2012. “Quando começamos não imaginávamos nem que nos tornaríamos um grupo musical, quanto mais que alcançaríamos essa proporção. Mas aos poucos as coisas foram se organizando e hoje arrastamos as pessoas”.
Arrastada pela primeira vez pelo cortejo aos 53 anos, a aposentada Vitória Freitas era uma das brincantes mais animadas. Entre os rodopios e os rebolados tradicionais do carimbó, a maranhense tentava passar às netas, Natália e Nicole, a herança cultural da música paraense. “O que eu tô gostando mais é do carimbó. Eu estava passeando com as minhas netas e resolvi seguir”, disse ao enxugar o suor causado pela dança. “É muita cultura!”.
(Diário do Pará)
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