“A Amazônia é uma região que requer um tratamento diferenciado”. Mais do que um diagnóstico, a frase da pesquisadora do Museu Goeldi, Ima Vieira soou como um desafio à sociedade civil amazônica no primeiro dia do Pará + Rio + 20, o Fórum de discussão dos paraenses sobre a Conferência Rio + 20, iniciativa protagonizada pelo jornal Diário do Pará e pela RBATV, que pretende oficializar um relatório final a ser levado à conferência no Rio de Janeiro. O tema do primeiro dia de seminários foi ‘A Educação e ciência para um futuro sustentável da Amazônia’. Além de Ima Vieira, o primeiro palestrante do dia foi o coordenador do programa Pobreza e Meio Ambiente (POEMA) Thomas Adalbert Mitschein que propôs uma educação ‘tropicalizada’ para a região.
“A Amazônia é uma região de superlativos”, disse Mitschein. “Possui grandes números relacionados a riquezas naturais, mas péssimos índices sociais, econômicos e humanos”, afirmou. É o que faz, segundo ele, que a região ainda seja vista como periférica não só em termos econômicos, mas também em referência à cultura e à política. Os dados apresentados por Mitschein mostram o gargalo amazônico. Na média nacional dos jovens que concluíram o ensino médio, enquanto o Sul tem 60% dos jovens nesse nível de educação, o Norte ostenta apenas a metade disso em termos de porcentagem. A média nacional é de 50%.
“Tudo isso é consequência da implantação de um modelo de desenvolvimento errado”, diz Mitschein. Segundo ele, em 2008, por exemplo, apenas dez dos 143 municípios responderam pela produção de quase 70% do PIB paraense, que foi de R$ 58 bilhões. “São ilhas de crescimento mineral, madeireiro e agropecuário”, disse.
A alternativa, segundo Mitschein, é implementar o que ele chama de ‘civilização moderna de biomassa’, capaz de revitalizar as áreas regionais pela elevação da produtividade primária. “É preciso estruturar cursos técnicos que formem sua clientela a partir da vocação produtiva de cada setor. E é necessário tropicalizar a ciência e a tecnologia”.
A ideia de criar na região um referencial para a educação, a ciência e a tecnologia é aprovada também por Ima Vieira: “Temos ainda uma baixa qualidade de ensino e escassez de instituições de Ciência e Tecnologia na Amazônia”.
Ima Vieira apresentou dados a respeito de desmatamento e ocupação do solo capazes de refrear otimismo. Segundo ela, houve uma exploração desordenada dos recursos naturais. A consequência é que a região já perdeu 750 mil km2, desmatados principalmente para se tornar pastagem de gado. O problema, segundo Ima Vieira, é que geralmente a ação do estado e das ONGs nesse sentido visa apenas onde já houve a degradação ambiental. “É preciso que se volte mais para onde não chegaram as frentes de colonização para que se possa pensar em desenvolvimento sustentável”, diz ela.
O diretor-presidente do Diário do Pará, Jader Filho, destacou que a Amazônia deve ser protagonista da própria história. “Para falar da Amazônia, ninguém melhor que nós mesmos, os amazônidas”, afirmou.
A construção de alianças é fundamental
Buscar conciliar a proteção da biodiversidade e o desenvolvimento econômico através da construção de alianças e soluções não conflituosas. É o que busca a The Natural Conservacy (TNC), maior organização não-governamental (ONG) conservacionista do mundo, fundada nos Estados Unidos em 1951 e presente em 35 países e em seis cidades brasileiras. Atualmente, a TNC possui um milhão de membros e 3,1 mil funcionários.
A TNC está presente no Brasil há 24 anos e em 1996 se tornou uma ONG efetivamente brasileira. Em Belém, a entidade mantém o Programa de Conservação da Amazônia. Edenise Garcia, coordenadora de Ciências da ONG, foi a segunda palestrante da tarde de ontem e tratou sobre a conservação da biodiversidade nas terras privadas, as mais afetadas pelos desmatamentos.
Segundo ela, existe a necessidade de se desenvolverem ações para que o Código Florestal seja aplicado nessas áreas no que se refere à Reserva Legal e áreas de preservação permanente. “Através de atividades econômicas produtivas sustentáveis, conseguimos minimizar os danos ao meio ambiente e conservar a biodiversidade. É essa solução que buscamos nas terras privadas”.
O trabalho é difícil, na medida que os proprietários particulares procuram reduzir seus custos e isso inclui a conservação, que na visão desse segmento não traz qualquer retorno econômico. “Nesse caso, temos que trabalhar com alternativas sustentáveis para aumentar a produção, com atividades simples”, diz.
Outra preocupação é a recuperação de áreas degradadas e a melhor área a ser cultivada. “A TNC possui estudos que mostram que determinadas áreas não são propícias para a produção, levando o produtor a perder o dinheiro. Procuramos mostrar ao produtor quais as áreas mais propícias e as vulneráveis. Através disso, balanceamos a produção e a sustentabilidade. Se não trabalharmos juntos, a tendência é que as coisas piorem”.
Ela reconhece que o trabalho é lento. “Tentamos estabelecer pontes de confiança já que os produtores, a princípio, nos veem com desconfiança. À medida que entendem que o que fazemos, vai beneficiar a sua produção, o trabalho começa a ser aceito”, diz.
(Diário do Pará)
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