Até o ano de 2025, pelo menos 10 países do Oriente Médio estarão enfrentando uma forte escassez de água, e isso definirá uma nova geopolítica mundial na busca por esse recurso, que além de vital é estratégico. “A grande pergunta é: o que acontecerá aos continentes como a América do Sul, países como o Brasil e regiões como a Amazônia, onde ainda existe muita água neste século XXI? A falta de água será o problema mais grave que enfrentaremos neste século”.
Foi a partir desse questionamento que colombiano Mário Miguel Garcia Herreros, economista agrícola formado pela Universidade da Flórida (EUA), desenvolveu a sua palestra “A Água na Geopolítica Mundial do Século XXI” no início do segundo dia dos debates do Fórum Pará+Rio+20 e que mostrou quais os problemas que os países terão nos próximos anos decorrentes da falta de água. O evento, promovido pela RBATV e pelo DIÁRIO DO PARÁ, resultará num documento dos paraenses que será levado para a Conferência Rio+20, que começa hoje no Rio de Janeiro.
Países como os Estados Unidos e a China, as grandes potências mundiais atuais, também serão fortemente atingidos dentro de 10 anos pelo que Mário Miguel chama de “estresse hídrico”, provocando um forte abalo na produção de alimentos, atingindo principalmente os norte-americanos. A mesma situação se aplica ao México. “Aqui no Brasil, 50% dos municípios do Nordeste hoje estão com racionamento de água e o Sul brasileiro acabou de passar por uma forte seca que abalou a produção agrícola da região”, diz.
O colombiano diz que muito pouco tem se discutido nos últimos 15, 20 anos sobre a importância da água para a vida no planeta, bem como sobre as mudanças climáticas que atingem o planeta nas últimas décadas e que vêm mudando o ciclo hídrico de muitos países. “O caso da falta de água aqui no Brasil é localizado e está restrito a Estados como o Nordeste e o Sul, além da Amazônia, que enfrentou fortes secas em 2005 e 2010”.
As mudanças climáticas estão mudando o panorama das chuvas no mundo, o que pode ocasionar um grave problema na produção de alimentos. Esses entraves provocarão muito sofrimento em países como a África, que já é um país pobre, e que se arrastará para países miseráveis como a Somália e o Sudão. “Se isso continuar, será um desastre. Temos que ter políticas públicas e medidas drásticas para mudar esse rumo”.
O resultado imediato dessas mudanças climáticas é a seca cada vez maior nos leitos e cabeceiras dos rios e o degelo nas áreas glaciais, atingindo também os localizados nos Andes e em países como Equador, Peru e Bolívia. “Esses glaciais hoje detêm apenas 30% da neve que detinham 100 anos atrás. O Himalaia também está degelando. Então, as grandes fontes de águas glaciais estão rareando. Isso causará grande problema daqui a 30, 50 anos, já que, na medida que aumenta a temperatura, a oferta de água é reduzida”, comenta.
Aliada às mudanças climáticas, há a poluição do leito dos rios provocada pela população. O pesquisador recomenda que o governo brasileiro faça um trabalho conjunto com os países andinos, onde estão localizadas as cabeceiras do Rio Amazonas. “O rio não nasce no Brasil, mas no Peru. Por isso, o ideal era criar uma política própria de fornecimento de água nessas cabeceiras. A água se tornou hoje um problema geopolítico e isso pode causar inclusive guerras futuras”.
Ativismo ambiental: entrave?
O ativismo ambiental exacerbado pode prejudicar muitas medidas de desenvolvimento e de melhoria na qualidade de vida no Brasil. “Muitos desses ambientalistas são estrangeiros e não conhecem a nossa realidade. Vêm aqui ditar regras sem conhecer. Talvez por trás de tudo isso exista algum tipo de interesse internacional para que o nosso país não se desenvolva”. A afirmação é do professor Miguel Agostinho Imbiriba, doutor em Engenharia Hidráulica e diretor da Faculdade de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFPA, que palestrou sobre “A importância da água para o desenvolvimento sustentável”, ainda na manhã de ontem.
O professor é um ferrenho defensor do modelo hidrelétrico de geração de energia. Ele considera um “assassinato” o que ocorreu com a usina de Belo Monte. “Era uma usina que deveria gerar algo em torno de 10 mil megawatts e hoje vai ficar quatro meses no ano sem gerar energia. Tudo por conta desse ativismo ambiental desenfreado e irresponsável”, critica. Ele diz que o potencial hidrelétrico do Brasil é todo baseado em quedas d’água, como em Belo Monte. “A energia elétrica gera 10 vezes mais emprego do que a irrigação e, além disso, é a energia mais limpa que existe. A energia eólica prejudica a migração de pássaros e gera barulho. A energia solar se utiliza de baterias que duram dois anos, no máximo. Onde colocar todo esse lixo depois?”, questiona.
Ele desmonta também a tese de inundação de grandes áreas indígenas com a construção das barragens das hidrelétricas, afirmando que as populações indígenas vão, inclusive, ser beneficiadas com o projeto. “É evidente que os aspectos ambientais devem ser respeitados. No caso da hidrelétrica de Tucuruí, foi interrompida a piracema de algumas espécies de peixes e isso não pode ocorrer”.
(Diário do Pará)
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