“Pare Belo Monte”. A frase era formada por cerca de 300 pessoas representando letras. À luz do nascer do sol sobre as águas calmas do rio Xingu, os manifestantes lutavam para sangrar uma gigante. A partir de uma iniciativa indígena, com apoio de movimentos sociais, acadêmicos, estudantes e até da imprensa estrangeira, os manifestantes ocuparam na última sexta-feira, por volta das cinco horas da manhã, uma das áreas conhecidas como “ensecadeiras”, onde está sendo construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Contrários à política desenvolvimentista do governo federal, os manifestantes abriram com cerca de 50 picaretas, simbolicamente, uma passagem na barragem de terra que impedia o fluxo do rio, o primeiro passo para a construção de um dos reservatórios que secaria uma grande parte do Xingu e inundaria uma vasta área habitada no entorno de Altamira.
Numa das ensecadeiras do sítio Belo Monte, cerca de 500 mudas de açaí foram plantadas, simbolizando a recuperação, prevista por lei, das áreas desmatadas pelo consórcio Norte Energia nas margens do rio. Em seguida, 200 cruzes brancas foram cravadas ao longo da ensecadeira, representando a morte do rio para ribeirinhos, pescadores, agricultores e indígenas do Xingu.
XINGU+23
Todos os protestos acontecem dentro da programação da Xingu + 23, evento que ocorre paralelamente à Rio + 20 e que busca chamar atenção de autoridades mundiais para os problemas que a população nativa vem sofrendo desde o início da construção de Belo Monte, em meados do ano passado. Até o fechamento desta edição nenhum conflito havia sido registrado entra a polícia ou a segurança privada do consórcio e o ato era pacífico.
“Nós não queremos nada demais. Nós queremos os nossos direitos: uma terra pra gente trabalhar sossegado, mais nada”, fala Edmilson Tembé, 53 anos, que veio de Santa Maria para apoiar os indígenas e a população atingida pela usina. Edmilson estava presente em Altamira, há 23 anos, quando o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu impediu o barramento do rio. “Querem tirar os índios e colocar num lote de terra pequeno, perto da cidade, o índio não se habitua. Não tem caça, não tem pesca, nem espaço para plantar, vai viver do quê?”, indaga.
O movimento contrário a Belo Monte parece ser consenso entre a população carente de Altamira, que alega que a cidade está inchando sem planejamento urbano e que os postos de trabalho estão sendo ocupados por pessoas de fora. Ainda ontem, uma marcha de estudantes foi às ruas da cidade protestar contra os impactos sociais e ambientais causados pela usina. (Diário do Pará)
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