Enquanto todos funcionam normalmente é comum que nem pensemos neles. Mas basta que um perca o ritmo ou deixe de atender às necessidades biológicas para que a rotina seja alterada. As atividades usuais incorporam cuidados constantes e o futuro é tomado pela incerteza de ser alcançado. Quem precisa de um novo órgão para sobreviver traça uma luta intensa pela dignidade, pela vida e pela espera por um gesto capaz de mudar o seu mundo.
Com avanços da medicina e investimentos governamentais, o Brasil se tornou o segundo país que mais realiza transplante de órgãos em número absoluto; superado apenas pelos Estados Unidos. Se considerarmos apenas a realização em sistema público de saúde, ele fica em primeiro lugar, com mais de 23 mil transplantes realizados em 2011.
Na região Norte, contudo, a situação ainda não atingiu o mesmo desenvolvimento. Se em São Paulo, no ano de 2010, 5.700 pessoas receberam uma nova córnea, no Pará, em comparação, a quantia não chegou a 150. Os dados são da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
No ano passado a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) no Estado registrou 54 recebimentos de rim e 200 de córnea, os únicos dois tipos efetivados atualmente. De janeiro a abril de 2012, foram realizados 82 transplantes de córnea e 19 procedimentos de rins, sendo 3 transplantes intervivos. Segundo André Rodrigues, coordenador da Central, apesar de não haver transplante de fígado no Pará, se ofertou mais de 60 órgãos a outras regiões. Já o coração continua sem credenciamento para o transplante no Estado. Até 2007, quando foi realizada a última cirurgia do gênero, a equipe paraense contabilizou 23 transplantes. Ou seja, pacientes que têm problemas em quaisquer outros órgãos precisam realizar o procedimento em outra região.
Mas diferente do que se costuma pensar, o maior problema da doação de órgãos não está na recusa da família do possível doador. “30% dos transplantes não realizados no Pará foram motivados pela recusa familiar. O que as famílias mais temem é velar um corpo retalhado, mas isso é imaginação. A própria lei nos obriga a entregar o corpo do doador esteticamente apresentável, sem sinais grosseiros das cirurgias”, diz André.
O entrave maior estaria então numa troca de responsabilidade, entre governo e hospitais. “Ainda recebemos poucas notificações dos hospitais. Ao analisar os falecimentos no Estado percebemos que apenas 10% dos casos de possíveis doações de órgãos são detectados”, afirma. Incomodada com a afirmação, a coordenadora da Comissão Intra Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do HPS Mário Pinotti, Andrea Albuquerque, diz que todos os casos em que há possibilidade de doação são notificados. “As notificações variam de períodos. Quanto melhor é a assistência do hospital, mais chances temos de conseguir doadores. Tudo começa no atendimento do paciente. Se a família não se sentir satisfeita, nem cogita a ideia de doação”, diz.
Por isso, ela admite que algumas condições atrapalham a expansão do serviço. “Temos dificuldade em manter estes pacientes na UTI porque o próprio hospital conta com um número reduzido de leitos e profissionais qualificados para esses quadros clínicos. A carência de hospitais no estado também é um problema para a doação”, garante.
Para João Paulo, técnico da Comissão Intra Hospitalar no Hospital Metropolitano, em Ananindeua, o percentual de 10% de notificações é mal compreendido. “É uma referência que considera todos os municípios, inclusive os que não contam com hospitais estruturados. Aqui no Metropolitano todos os casos detectados são imediatamente notificados à central de transplantes”, garante. Ele informa ainda que as notificações têm aumentado. “Em 2011 mandaram 17 doadores e somente em dezembro do mesmo ano abriram 10 protocolos de morte cerebral”.
O técnico ratifica que os principais doadores em potencial são aqueles que tiveram Acidente Vascular Cerebral ou Traumatismo Craniano Encefálico, em decorrência de acidentes de moto ou baleamento. Muitos dos casos, concorda, são encaminhados aos hospitais públicos, mas ratifica que não são todos. “Os hospitais particulares também devem colaborar com notificações porque registram muitas situações de AVC clínico e hemorrágico”, afirma.
Vice-presidente do Sindicato dos Hospitais do Pará, Breno Albuquerque, entra na briga por quem se exime mais da responsabilidade pelo avanço lento dos transplantes no Estado. “O governo deveria ir atrás dos pacientes, fazer busca ativa e não cobrar que o hospital faça isso. Não é nos hospitais particulares que estão a maioria dos doadores, e sim nos prontos-socorros. O problema não é a falta de notificação, é a má gestão governamental”, rebate. Segundo ele, menos de 15% dos doadores em potencial estão nas unidades particulares, porque uma parcela ainda pequena da população usufrui de plano de saúde.
Os novos desafios do coração
Com a interrupção do transplante de coração, muitos doentes cardíacos sentiram-se abandonados pelo governo estadual. A fim de retomar esse serviço, associações e instituições civis têm organizado encontros para discutir o tema, uma delas é a Sociedade Paraense de Cardiologia (SPC). “No último congresso que ocorreu em outubro em Belém trouxemos médicos que realizam transplantes coronários em fortaleza (CE) e têm registrado um número cada vez maior de cirurgias para nos mostrarem o que há de mais moderno nos procedimentos”, informa Antonio Travessa, um dos diretores da SPC.
A idéia é levar o transplante de coração para o Hospital de Clínicas, referência na área no Estado, sob a coordenação do médico Marcondes Tavares Junior. “Acredito que no segundo semestre tenhamos a verba necessária para adquirir a infraestrutura exigida para o credenciamento perante o ministério da saúde”.
Sobre a justificativa de que a lista de espera para transplante de coração era muito pequena, aproximadamente 10 pessoas na época, e por isso não haveria problemas em interromper o procedimento, Travessa levantou dúvidas. “Acho que estavam levando em conta apenas a demanda de Belém, porque o Pará tem mais de 7 milhões de habitantes e doenças epidêmicas como a Chagas, que pode destruir o coração a ponto de só um transplante salvar”, disse.
Além disso, lembrou que o Pará é referência para outros estados da região nos serviços de saúde. “A SPC está fazendo de tudo para que se consiga reativar o transplante de coração porque muita gente tem morrido na espera”, diz.
CAMPANHAS
Um aspecto não pode ser tirado de foco: as campanhas informativas. “No Pará, as campanhas são muito pontuais, ocorrem somente uma vez por ano, enquanto que em cidades do interior de São Paulo, por exemplo, são permanentes, com mídias exclusivas para esse tipo de informação”, diz Andréa Albuquerque, do Mário Pinotti. Por isso, André Rodrigues afirma que o governo também procura investir em materiais de campanha, assim como realizar eventos que aproximem o público do assunto, num ambiente fora de hospitais.
METAS
Além da propagação de informação outra meta é ampliar o número e tipos de transplantes realizados no Pará, “Quanto mais transplantes conseguirmos fazer melhor, mas a princípio deveremos começar com o de fígado, com prioridade aos procedimentos inter-vivos, seguido posteriormente do de pâncreas e retomar o transplante de coração”, diz André.
(Diário do Pará)
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