Quando o médico se aproxima, já é possível perceber no semblante o pesar. Tudo fora feito. Mas o paciente não sobreviveu. Na cama, apenas os órgãos vitais permanecem ativos, sem possibilidades de reanimar o portador. Uma chance paralela surge, porém, com a insistência do coração a bater. E então sai o médico e vem a psicóloga. Ela explica à família a situação. É preciso ter calma. Ter sensibilidade. Telma Silva, da Central de Notificações de Captação e Doação de Órgãos (CNCDO) do Pará, ouve a dor, as histórias e lembranças. Espera o desabafo cessar e fala novamente. “Não adianta ter pressa ou induzir uma decisão. Nosso compromisso é em aceitar o que a família disser. Expomos todas as circunstâncias, mas a última palavra é deles”.
Os familiares se olham, analisam. Para a maioria, a ideia nunca passara pela cabeça. Nesse momento, Telma se prepara para apresentar todos os aspectos favoráveis, mas também sabe que é grande a chance de ouvir um não.
Enquanto a conversa acontece, a equipe médica já é acionada para iniciar os preparativos da possível operação. Quando há a permissão da família para o procedimento, a Central digita num sistema de controle nacional a disponibilidade do órgão e as características do doador. “O sistema indica o melhor receptor e ele é procurado. Infelizmente, nem todos são encontrados com facilidade, ou estão debilitados com outros problemas clínicos. Aí pulamos para o próximo da lista até que alguém, em condições, seja levado ao hospital”, explica Telma. O corpo do doador, após todos os exames que comprovam morte encefálica, é levado então ao Hospital Ophir Loyola, onde o receptor já aguarda em outra sala. E, assim, uma nova oportunidade de vida se abre.
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