Se dá certo ou não, não nos cabe julgar. O fato é que o tradicional banho de cheiro de São João é um dos poucos costumes populares que ainda conseguem sobreviver à modernidade e ao crescimento acelerado do Estado. domingo (23), milhares de paraenses relembrarão o ato de São João Batista ao batizar Jesus no rio Jordão, se lavando com o banho cheiroso que promete felicidade, sorte, sucesso e até amor, para quem ainda não teve as graças atendidas por Santo Antônio.
Pataqueira, priprioca, manjericão, trevo de São João, Chega-te-a-mim, Catinga de mulata... Quem passa pelo final do Ver-o-Peso é convidado pelo perfume do lugar a descobrir os mistérios guardados nas cerca de 80 barraquinhas tradicionais. As ervas, cipós, raízes e cascas exalam um cheiro forte cuja utilidade é logo explicada pelos vendedores que se esforçam para atrair os clientes.
“Todo ano as pessoas vem aqui procurar nossos banhos e realmente dá certo. Só traz coisa boa pela frente”, garante dona Cristina Mulata Cheirosa, 53 anos, que trabalha no Ver-o-Peso há mais de 30. “Essa é uma das poucas tradições que ainda está sendo mantida. É algo bem tradicional que precisa ser mais valorizado”, opina João Alexandre, que trabalha como vendedor de ervas há 27 anos.
Pendurados nas barraquinhas, expostos nos balcões, as garrafadas, de todos os tamanhos, oferecem soluções para quase todos os males e mazelas. Uma garrafinha com o banho de cheiro pronto custa, em média, R$ 15. Se for para a família inteira custa R$ 20. Para João, o preconceito contra as crendices populares precisa ser quebrado para a memória do costume, passado de geração em geração, não se perder. “Às vezes, a gente faz um negócio com tanta fé que acaba dando certo. Se não servir pra trazer sorte, pelo menos faz bem pra saúde, porque é muito bom pra gripe e constipação”, garante o vendedor.
Jane Lacerda, 42, assistente social, procurava os poderes medicinais da andiroba e da copaíba no Ver-o-Peso, quando lembrou do banho de cheiro. “Eu estou indo pra Conceição do Araguaia. Sou paraense com orgulho e acredito no poder das ervas”. Jane estava comprando os produtos na barraca de dona Beth Cheirosinha, uma das mais famosas erveiras do Ver-o-Peso.
“Essa é uma tradição de mais de 300 anos. Era um costume dos índios. Aqui não tinha quase nada, as pessoas começaram a encomendar ervas do interior e o negócio foi crescendo”, conta Beth. A erveira, que aprendeu o trabalho com avó e com a mãe, já está passando a tradição das ervas e dos banhos para a próxima geração.
Se depender dos vendedores do local, o São João do Pará, além dos cheiros da fogueira e do mingau de milho, terá sempre um perfume especial extraído direto da essência das espécies únicas que brotam na nossa terra.
(Diário do Pará)
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