Durante três dias, de 6 a 8 deste mês, o Conselho Regional de Economia do Pará realizou, em Belém, o VI Encontro de Entidades de Economistas da Região Norte (Enam). O evento é promovido anualmente pelo Conselho Federal de Economia (Confecon) por meio de um dos seus Regionais. No ano passado, o encontro aconteceu em Manaus. Em 2012, Belém foi a cidade escolhida. Poderia ter sido apenas mais um desses encontros classistas, de realização periódica, maçantes e sem consequências práticas. Poderia, mas não foi o que aconteceu.
Como pano de fundo, havia um fato histórico a ser lembrado, e foi o que fez o Corecon/Pará, adotando como tema central do evento o título “1912-2012. Cem anos da crise da borracha. Do retrospecto ao prospecto”. Fica evidente, pelo próprio tema, que o Conselho Regional de Economia resolveu fazer um resgate histórico do ciclo da borracha – ou, mais apropriadamente, da fase áurea da borracha na Amazônia. O presidente do Conselho, Antônio Ximenes Barros, e o coordenador da comissão organizadora do Enam, João Tertuliano Lins, consideram que a escolha do tema foi uma decisão feliz e oportuna, já que se trata de um fato histórico com impactos profundos sobre a economia da Amazônia e do Brasil. “A nossa ideia é suscitar reflexões que nos permitam, no futuro, evitar a repetição de erros do passado”, afirmou Antônio Ximenes.
A abertura solene do VI Enam, realizada no auditório do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, na noite do dia 6, teve como destaque a presença do economista Armando Dias Mendes, autor da conferência magna sobre o tema central do encontro. Foi a despedida de Armando Mendes do Pará, ele que desde 1974 vivia em Brasília, e, coincidentemente, foi também sua última aparição em evento público. Apenas dez dias depois, numa sexta-feira (15), aos 88 anos, ele morreu em sua casa na capital federal, vítima de um mal-estar súbito, presumivelmente um ataque cardíaco. A conferência de Armando Mendes vai compor uma antologia de 15 artigos, a ser lançada em edição especial provavelmente no final deste ano.
FIM DO CICLO
Ao assinalar o fim do ciclo da borracha, o Conselho Regional de Economia do Pará está resgatando a história de um dos capítulos mais instigantes da nossa história, quase que totalmente ignorado pelas novas gerações, e propiciando a retomada de reflexões sobre um dos episódios que mais profundamente afetaram a nossa economia, contando do descobrimento até os dias atuais.
O economista João Tertuliano Lins ressalta que foi este um dos objetivos da escolha do tema do VI Enam. Não se buscou, disse ele, remoer, em clima de melancolia estéril, todos os erros e acertos vividos pela Amazônia no século passado. “Nem faria sentido um ato de reverência masoquista à data do desastre anunciado”, diz o economista, numa referência ao colapso que se seguiu ao ciclo da borracha. Para Tertuliano, o Enam se propôs a prospectar virtuais ameaças ao futuro da Amazônia, identificando os fatores de risco e o possível agravamento deles pelas intercorrências geopolíticas que se desenham no cenário atual, no Brasil e no mundo.
Quando Belém estava entre as cidades mais ricas do mundo
Em termos históricos, o ciclo da borracha se estendeu de 1839 a 1920. O seu fastígio, porém, compreende um período muito menor, que vai de 1890 a 1912. Foi uma época de fascínio, de formidável prosperidade econômica para a região, com uma intensidade tal que as gerações de hoje não são capazes sequer de imaginar. Belém, por exemplo, com sua população urbana repentinamente aumentada pelo fluxo de imigrantes nordestinos, começou a assumir ares de uma grande capital.
Foi nessa época que a cidade passou a ter suas ruas calçadas com paralelepípedos de granito, importados de Portugal. Também foi nesse período, final do século 19 e início do século 20, que surgiram os grandes edifícios públicos, os serviços telegráficos através de cabos submarinos, o sistema de iluminação a gás e outras obras marcantes que mudariam o visual urbano da outrora modesta capital paraense. Fez-se, naqueles tempos, a drenagem dos alagados do Reduto e se construiu o majestoso Teatro da Paz. A pujança econômica proporcionada pela borracha mudou radicalmente o panorama da cidade, com serviços e construções que, em grandeza e requinte, se constituíam em verdadeiras obras de arte.
Foi a chamada Belle Époque, em que Belém ganhou ares de cidade europeia, numa envolvente atmosfera de luxo e glamour. A capital paraense chegou a ser considerada, naquela época, a mais desenvolvida de todas as cidades brasileiras e uma das mais prósperas do mundo. A proximidade do mar e também da foz do Amazonas conferiam a ela um encanto especial, verdadeiramente único, tornando-a alvo de interesse de turistas e imigrantes europeus e atraindo para cá lojas famosas e importantes instituições financeiras, certamente seduzidas pela riqueza de abastados seringalistas.
Aventureiro inglês deu origem ao colapso
“Em 1913, a cidade de Manaus tinha em torno de 100 mil habitantes e era um dos lugares mais ostentosos do mundo. Seu consumo de diamante per capita era o maior do planeta. O sistema de bonde elétrico, o primeiro da América do Sul, deixava espantados até os visitantes europeus do raiar do século, com suas linhas de aço que percorriam toda a malha urbana e penetravam na floresta até os locais mais distantes. O custo de vida era quatro vezes maior que o de Londres e Paris. Toda essa fortuna foi construída com a riqueza gerada pelo boom da borracha”.
O parágrafo acima é parte do prefácio do livro “O ladrão no fim do mundo”, do jornalista e escritor norte-americano Joe Jackson, que narra em detalhes a saga do ciclo da borracha na Amazônia. O relato é ao mesmo tempo atraente, quando fala da extraordinária riqueza gerada pela borracha, e chocante quando descreve a derrocada que se seguiu a fase de bonança e prosperidade. Lançado no Brasil pela Objetiva, o livro faz uma citação altamente elogiosa ao advogado e historiador paraense Roberto Santos e deixa claro o fator determinante que levou a economia da Amazônia entrar em colapso.
A razão para a queda do preço da borracha, segundo o escritor norte-americano, estava diretamente relacionada ao crescimento das plantações inglesas. Em 1900, a região amazônica produzia 95% de toda a borracha comercializada no mundo. Apenas 28 anos depois, sua participação estava reduzida a 2,3%. As plantações inglesas, convém explicar, começaram com as sementes contrabandeadas da Amazônia em 1876 pelo aventureiro inglês Henry Wickham. As sementes que Wickham roubou foram transportadas com êxito para o famoso jardim botânico de Londres, o Kew Gardens.
De lá, os biólogos ingleses rapidamente as levaram para as colônias britânicas na Índia e na Nova Zelândia. Dentro de alguns anos, essas sementes deram origem às árvores que produziam a borracha que conquistaria o mundo, sendo usada em quase tudo – de trens e aviões a camisinhas e mamadeiras. Henry Wickham, o inglês responsável pela façanha, era o “ladrão no fim do mundo” que deu título ao livro. Na Inglaterra, ficou conhecido como “o pai da borracha”. E, no Brasil, como “o algoz da Amazônia”.
E não sem razão. Estudos posteriores sugerem que a borracha – não fosse o ato de pirataria do aventureiro inglês – poderia ter representado para a Região Norte do Brasil o que representou a cultura do café para os Estados de São Paulo e Paraná – em termos de prosperidade econômica, criação de infraestrutura e, acima de tudo, como elemento indutor ao processo de industrialização. (Diário do Pará)
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