A participação das mulheres nos legislativos brasileiros ainda é muito aquém do número delas na sociedade. Em um País onde o comando está nas mãos de uma mulher, a presidenta Dilma Roussef (PT), os partidos políticos brasileiros continuam sentindo dificuldades em compor a chapa de candidaturas com o percentual de 30%, que é a cota de gênero estabelecida pela legislação eleitoral.
A participação política das mulheres é inquestionavelmente grande no Brasil, mas quando se trata de concorrer a cargos eletivos os homens são mais ávidos à função. O presidente do diretório do PSDB em Belém, Fabrício Gama, admite a dificuldade do partido em preencher a cota de gênero. “Infelizmente ainda não é geral a concepção de que a mulher pode participar de tudo. Ainda é mais fácil fechar a chapa com candidaturas masculinas”, ressalta Gama. Ele explica que o PSDB, já implantou diretorias específicas para formação de lideranças femininas, onde as mulheres são estimuladas a se candidatar à cargos eletivos.
Da mesma forma, o presidente do diretório do PT em Belém, Apolônio Brasileiro, também informa que não está sendo fácil preencher as vagas femininas na chapa que vai concorrer à eleição municipal deste ano. “Estamos em uma força-tarefa para fechar a chapa completa”, explica.
Brasileiro admite que ainda há muito machismo na sociedade brasileira, que reflete no processo político, inclusive, partidário, que acaba desestimulando as mulheres a fazerem política. “O ambiente é realmente mais fácil para os homens”, acentua.
Integrante do PCdoB em Belém, Sandra Batista também confirma a dificuldade do partido em conseguir alcançar a cota de gênero para concorrer à eleição deste ano. “Diferente dos homens as mulheres ainda pensam duas vezes antes de enfrentar uma tarefa como esta. A lei de cotas veio para ajudar, mas ainda não consegue liberar a mulher para uma tarefa tão grandiosa como é a representação política no parlamento”, sustenta Sandra. “Tudo ainda é mais viável pros homens. A sociedade estimula os homens a tarefas fora de casa e às mulheres ainda cabem as tarefas domésticas praticamente sozinhas, isto reflete também no ambiente partidário, infelizmente”, enfatiza.
O Psol é um dos poucos partidos com menos dificuldades para cumprir a cota. Segundo a presidente do diretório municipal, Araceli Lemos, a maioria das lideranças do partido é de mulher. Mas, esta realidade de Belém, segundo Araceli Lemos, é diferente pelos interiores, onde o partido também sente dificuldades para formar as chapas cumprindo a cota de gênero.
No PMDB a situação de dificuldade para conseguir candidatas também é diferenciada em Belém, mas muito presente no interior ainda. “A batalha eleitoral é muito sangrenta, ainda. Psicologicamente acredito que os homens se sintam mais preparados”, considera a vereadora Vanessa Vasconcelos, única representante mulher do partido na Câmara de Belém. “Ainda é um processo desigual, infelizmente, e a mulher sai no prejuízo porque faz jornada tripla, ainda somos nós que cuidamos da família, filhos, marido”, especifica a vereadora.
Vanessa explica que diferente de outros partidos o PMDB consegue com menos dificuldade completar a chapa com candidatas mulheres, porque o partido tradicionalmente forma muitas lideranças femininas em todas as áreas da capital, processo sob a liderança da deputada federal Elcione Barbalho, que também preside a Procuradoria da Mulher na Câmara Federal. Ela enfatiza que o PMDB é o único partido do Pará com representatividade nas três esferas do Legislativo, estadual, onde há três deputadas, na Câmara de Belém e em Brasília.
ATUAÇÃO
“A participação política das mulheres no Brasil é muito forte se considerarmos a presença delas nos vários espaços de luta pelos seus direitos e pelos direitos humanos, ou seja, os direitos de todos, que pleiteiam políticas públicas para se manterem em um bom nível de qualidade de vida. Trata-se da participação informal”, define a professora Luzia Álvares, que coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Gênero (Gepem), que há 17 anos pesquisa várias áreas de participação da mulher na sociedade, entre elas a política.
Ela esclarece que apesar dessa atuação feminina, de fato, ainda se reconhece como “tímida” a participação da mulher na política formal, portanto, no acesso aos espaços de decisão política. Os entraves na competição partidária e eleitoral, aponta a professora, são referente aos propriamente políticos, mas também e, principalmente os culturais, ideológicos, socioeconômicos e psicológicos.
Os estudos do Gepem também constatam que as mulheres recebem dos partidos em pleno século XXI menos financiamentos que os candidatos masculinos. Além disso, outro obstáculo é o tempo de exposição na mídia das candidaturas femininas, menor que as lideranças masculinas.
(Diário do Pará)
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