O que hoje nós chamamos de brinquedo, há cerca de 1.400 anos antes de Cristo, era usado do outro lado do mundo como um instrumento de guerra para sinalização e orientação de tropas militares. Foram os chineses que inventaram as pipas que depois deram origem a rabiolas, papagaios e cangulas. Nesta época do ano, período de ferias escolares, basta olhar para cima que, sem muita dificuldade, é possível ver um desses planadores enfeitando o céu. A brincadeira já virou quase uma tradição. Quem cresceu em bairros periféricos, ao menos uma vez na vida, já deve ter corrido atrás de pipa. Mas se engana quem pensa que aparar, descair, cortar ou dar laço são expressões usadas apenas por crianças.
Enquanto Caio Henrique, de 10 anos, empina pipa no bairro do Jurunas, em Belém, e João Vitor, de 7, faz o mesmo no Curió Utinga, no bairro da Sacramenta, quem ama a brincadeira é Raimundo Moraes, de 76 anos. Mais conhecido como “seu Mara”, o amante de papagaios decorou a casa inteira com os brinquedos e declara: “Eu já perdi até mulher por causa de papagaio. Já disse: quando eu morrer, não quero que coloquem flores no meu caixão, não. Pode encher a caixa com os meus papagaios que ta bom demais”. Se depender da jovialidade de seu Mara, sua esposa, Ivete Moraes, 68 anos, ainda vai ter que aguentar muita linha e pedaço de rabo de papagaio bagunçando a casa. “Ele já disse que só para quando morrer. Eu já até desisti de tentar fazer ele largar desse negócio”, conta dona Ivete rindo, conformada.
Seu Mara faz parte de um clube de amigos que se reúnem aos fins de semana para empinar e que promovem torneios de papagaios. “Tem engenheiro, médico, capitão... Pode ir lá na Tamandaré, na esquina com a 16, dia de domingo de manhã. Tem pra mais de 80 homens empinando”, garante. Com os braços ágeis e o sorriso no rosto, seu Mara, talvez pela surdez parcial, ignorou os gritos de “não tem vento!” e lutou até suar para tentar fazer seu papagaio alçar voo. A paixão do senhor pelo brinquedo é tão misteriosa que nem ele consegue explicar. Para seu Mara, só pode ser destino. “Eu acho que é algo que vem de nascença. Quando tu empina, tu esquece de tudo. É só tu e o papagaio. Não existe mais problemas”, fala.
Há mais de 70 anos empinando, seu Mara diz que soltar pipa deveria ser uma atividade mais incentivada e que merecia maior apoio do poder público. “A gente luta pra encontrar um lugar bom, aberto, seguro pra empinar. É uma brincadeira tão boa. É melhor soltar pipa do que ficar por aí na malandragem, puxando fumo. A gente se diverte e não faz mal pra ninguém”, orienta.
Reginaldo Mourão, 67 anos, é tão bom na brincadeira que ficou conhecido como “Cobra”. Com esforço e dedicação, ele conseguiu transformar o passatempo em sustento. Há 50 anos produzindo papagaios, cangulas e rabiolas, Cobra vende e produz brinquedos de qualidade para uma clientela fiel que acompanha seu trabalho há tempos. “Eu vendo aqui pra senhores de até 80 anos”, afirma. A nobreza da arte de transformar papel de seda e pedaços de madeira em objetos de valor sentimental lhe rendeu o título de “Rei dos Papagaios”. “Foi uma coisa passada de pai pra filho. É algo que me causa fascínio. Um esporte de perder e ganhar. É maravilhoso”, comenta.
Graças às vendas, Cobra conseguiu erguer a casa-oficina, que fica na passagem Ó de Almeida, e ostenta na entrada a plaquinha com a lista do que é possível encontrar na loja. “Começou com os amigos me fazendo encomendas. Depois, fizeram propaganda e todo bairro ficou conhecendo meu trabalho. Teve época que eu vendi até 20 mil papagaios num só mês”, conta o artesão. Vendas, na grande maioria, para amigos como o seu Mara. “É uma brincadeira democrática que não discrimina por causa de idade, bairro, classe social ou poder aquisitivo”, fala. Cobra garante que entre seus clientes famosos já figurou até o ex-presidente José Sarney.
O artesão, por pouco, não deixou dezenas de clientes sem fornecedor quando decidiu ir morar no Rio Grande do Sul. “Lá era muito frio”, conta rindo. Cobra só tem filhas mulheres e não conseguiu passar a tradição adiante. Apaixonado por papagaios desde criança, apesar da fama, ele jura que agora é um pipeiro aposentado. Sorrindo, orgulhoso dos brinquedos que construiu no colo, Cobra parece ter alcançado sucesso ao descobrir o significado do que Khaled Hosseini, escritor afegão-americano, publicou em seu best-seller “O Caçador de Pipas”: “Não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar”. (Diário do Pará)
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