Em todo o ano de 2011 foram notificados no Pará 3.876 novos casos de hanseníase. Este ano, até o último dia seis, as notificações chegaram a 1.726 novos casos, sendo que ainda existem em todo o Estado 4.911 pacientes em tratamento. Apesar de ser uma doença secular e de tratamento relativamente fácil, a hanseníase ainda hoje é um desafio a ser enfrentado pela saúde pública no país.
A hanseníase é uma doença infectocontagiosa causada pelo micro-organismo Mycobacterium leprae. Sua transmissão ocorre quando há contato direto com doentes sem tratamento, que eliminam os bacilos por meio do aparelho respiratório, pelas secreções nasais e gotículas da fala, pela tosse e espirro. No caso dos doentes que recebem tratamento médico, não há risco de transmissão. Nem toda pessoa exposta ao bacilo desenvolve a doença, acredita-se que isso se deva a múltiplos fatores, incluindo a genética individual.
Com o Projeto “Caracterização Molecular de Cepas de M. leprae de pacientes e comunicantes de hanseníase: correlação com aspectos clínicos, comprometimento neural e resistência medicamentosa”, profissionais do Laboratório de Dermato-Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (UFPA) realizaram pesquisa de campo em oito municípios do Estado, para identificar áreas de maior concentração da doença e analisar como está sendo feito o seu controle e tratamento.
Sob a coordenação do professor Cláudio Salgado, o projeto correlacionou dados clínicos com dados moleculares, comparando pacientes de diferentes regiões do Pará. A equipe, formada por profissionais da UFPA e da Unidade de Referência Especializada Dr. Marcello Cândia, em Marituba, fez um levantamento dos casos de hanseníase, dos últimos cinco anos, em Breves, Marituba, Castanhal, Paragominas, Oriximiná, Altamira, Parauapebas e Redenção.
Entre os casos confirmados, foram escolhidos 100 pacientes. A ideia era verificar se o tratamento havia sido feito corretamente e se os pacientes estavam curados. Nos municípios, a equipe visitou a casa dos pacientes e examinou seus contatos, pessoas que moravam com o portador da doença ou que tivessem contato diário com ele.
“Cerca de 4% e 5% dos contatos tinham hanseníase, o que é um número muito alto. Quando um caso novo é encontrado, a Unidade Básica de Saúde tem o dever de chamar as pessoas que convivem com o doente para serem examinadas. Isso só ocorre em 50% dos casos. E mesmo quando ocorre, não é de forma adequada”, alerta.
ESTUDANTES
Além desses casos, o grupo selecionou algumas escolas da rede pública em cada município para fazer o exame clínico em cerca de 200 crianças. O número de estudantes portadores da doença variou entre 2% e 4%. Após isso, as crianças também realizaram o exame para detectar uma imunoglobulina chamada anti-PGL1, que mostra como está a situação na comunidade, por meio do sangue coletado.
“O anticorpo fornece uma porcentagem de pessoas que entraram em contato com o bacilo. Se você fizer isso em um país europeu, o resultado é praticamente 0%. No Rio Grande do Sul, são 8%; em São Paulo, 15%. Aqui, a porcentagem é de 50%. É uma taxa absurda”, avalia o professor.
Outro resultado importante foi em relação ao grau de incapacidade física causada pela doença. Atualmente, este grau é classificado de 0,1 a 2. O grau 2 caracteriza a incapacidade física. O sistema de informação do Sistema Único de Saúde (SUS) indica que 5% dos casos de hanseníase correspondem ao grau 2. Entretanto, quando a equipe foi à casa dos pacientes, esse número subiu para 15%, o que aponta para um erro no fluxo de informação da rede de saúde pública.
Cláudio Salgado afirma que, em alguns municípios, como Altamira e Breves, o número alto de pacientes diagnosticados chamou atenção. Foram encontrados entre 50 e 70 casos novos, em uma semana, quando a estimativa era de dois ou três casos. “Percebemos que, quando se trata de um caso clássico de hanseníase, o diagnóstico é feito. A dificuldade está em fazer um diagnóstico precoce, quando a pessoa só apresenta uma mancha”.
TRATAMENTO
Segundo o professor, o tratamento deve ser feito, prioritariamente, ainda na infância. Segundo os dados, a previsão de estudantes doentes na rede pública do Estado é de 60 mil pessoas, entre cinco e 18 anos. “Se você não tratar estas crianças, elas desenvolverão a hanseníase clássica daqui a 20 anos e, durante este período, irão transmitir a doença para outras pessoas, num ciclo que não termina. Além disso, aumenta a possibilidade de pacientes sequelados e com a incapacidade física instalada”.
Em maio, os pesquisadores iniciaram a ação com recursos do Ministério da Saúde para detectar novos casos da doença e capacitar as equipes municipais de saúde para o diagnóstico precoce. Além disso, o professor Josafá Barreto, do Campus de Castanhal da UFPA, parte, no final deste ano, para uma temporada na Universidade de Emory, nos Estados Unidos.
Os pesquisadores marcaram a localização das residências dos pacientes e desenvolveram um mapa da hanseníase, por região. A pesquisa de doutorado de Josafá Barreto fará o georreferenciamento da doença em cada município, assim, os gestores municipais saberão onde devem investir para diminuir os índices da doença.
Cláudio Salgado alerta que a repercussão dos resultados deixa à mostra a diferença entre a qualidade do serviço de saúde do Brasil e a qualidade do serviço de saúde dos países mais desenvolvidos. “Estamos falando de uma doença que existia há 120 anos, na Europa, e, em 2012, ainda existe no Brasil. Isso mostra o quanto estamos atrasados e demonstra uma urgência: a redefinição de prioridades pelo governo. Nossa população precisa viver com dignidade”, conclui.
Sespa investirá em capacitação para descentralizar atendimento
Entre as ações do Plano de Metas 2012, da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), estão estratégias para ampliar a proporção de cura, reduzir os índices de abandono de tratamento, aumentar o controle do aparecimento de novos casos e intensificar a prevenção às incapacidades físicas dos doentes.
Uma ação importante é a capacitação de profissionais da Atenção Primária no interior do Estado, para dar prosseguimento à descentralização do atendimento inicial aos suspeitos, incluindo a busca ativa de novos casos.
Só em 2011, a Sespa treinou 946 profissionais de saúde, dos quais 589 foram agentes comunitários de saúde, além de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, bioquímicos e operadores do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.
Atualmente, todas as unidades básicas de saúde do Estado possuem orientações sobre como agir em caso de sintomas suspeitos, mas só 57% dos municípios paraenses mantêm o Programa Estadual de Controle da Hanseníase (PECH), em condições de concluir o diagnóstico da doença e iniciar o imediato tratamento do paciente.
Os indicadores no Pará também atestam que a taxa de abandono do tratamento no Pará (7,9%) está de acordo com o mínimo de 10% determinado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Contudo, o Plano de Metas da Sespa quer ampliar a taxa de cura para mais de 80%.
O principais sintomas da hanseníase são: sensação de formigamento, fisgadas ou dormência nas extremidades; manchas brancas ou avermelhadas, geralmente com perda da sensibilidade ao calor, ao frio, à dor e ao toque; caroços e placas em qualquer região do corpo e diminuição da força muscular. A doença pode atingir todas as faixas etárias e tem cura. O tratamento é feito com medicação via oral, distribuída gratuitamente, nas unidades de saúde.
(Diário do Pará)
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