Da porta de casa Rosalina Silva vê um rio inteiro a sua frente. Mas isso a entristece. Ribeirinha das margens do rio Aurá, a extrativista viu muita coisa mudar ao longo dos 45 anos de vida. “Isso daqui era super agradável. O sofrimento veio junto com o lixão. A sujeira que desce da cabeceira do rio não é pouca e piorou há uns oito anos. A água está aí, mas não serve de nada. Para o uso pessoal a gente pega da chuva e pra beber tem que ir buscar em Belém de dois em dois dias”, lamenta a moradora, membro de uma das 110 famílias ribeirinhas que moram no entorno da Bacia do rio Aurá, que denunciam a permanente contaminação das águas por chorume, líquido do lixo domiciliar, que vaza em direção ao rio Guamá e põe em risco os mananciais dos lagos Bolonha e Água Preta, que abastecem 75% de Belém e Ananindeua. A entrada do rio fica a cerca de 50 metros das Subestações de Tratamento de Água Bolonha e Água Preta, da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa).
O risco é real. De longe é possível sentir o odor e notar a água que, com o avançar do barco, vai assumindo um aspecto ‘leitoso’, que piora quando a maré enche ou cai uma forte chuva. “O cheiro é insuportável. Invade dentro de casa, não tem quem aguente. Além do chorume que escorre, quando tá muito cheio a gente vê blocos de fezes passando. As empresas que desentopem as coisas em Belém jogam tudo na cabeceira do rio e depois tudo desce praí [rio Guamá]”, denuncia Dora de Sena, mãe de seis filhos que se banham na água contaminada. “Não tem jeito. É a diversão que eles têm. Aparece coceira, bolha nos pés, mas a gente cansa a garganta de falar e eles não obedecem. Pra dizer a verdade, a gente precisa dessa água. Não dá pra beber, mas pra tomar banho, lavar e cozinhar tem que ser dela. A gente coloca remédio e arrisca”, diz Dora.
Marido de Dora, Paulo Sérgio Cabral retira da cerca a rede de pesca que agora tem pouca serventia. “As redes tão na terra porque não têm peixe. Aqui ninguém pega nada porque a água tá podre”, resume. “Os peixes tão morrendo tudo. Eles passam boiando. Uns vêm em cima como se fosse buscando a respiração. Antes tinha fartura, agora quando a gente quer ele [o marido] vai pro rio Guamá tentar pegar alguma coisa. O pior é que faz falta”, queixa-se.
Para o presidente da associação de moradores do rio Aurá, Danielson da Costa, a origem do problema está no lixão do Aurá, que a cada dia compromete a sobrevivência no local. “Os tubos jogam direto pra dentro do rio. Tá tudo contaminado. Aqui, a gente vivia da pesca, mas hoje não dá mais e a gente sobrevive com o cultivo do açaí e do cacau, mas mesmo assim a produção caiu. A maré enche e a água chega na plantação. Não tem o que resista”, afirma. Ele fotografou grande quantidade de peixes e camarões mortos. “A gente vive dentro do rio, mas não dá pra fazer praticamente nada. Tem que ir buscar água potável no porto da Palha, são 4 horas de viagem. Comida, tem que trazer também, mas não tem como estocar porque não temos energia. As doenças aparecem de todo tipo. Aqui a gente vive de teimoso. Por isso a gente espera uma providência imediata da Prefeitura”, reclama.
O ambientalista José Oeiras acompanha o drama das famílias. Segundo ele, o poder público precisa buscar alternativas de descontaminação da água. Estudar a criação de ‘barcos pipas’, para distribuição de água e ampliar experiências alternativas de tratamento para consumo de água da chuva. “De mais urgente, também se poderia estabelecer uma compensação ambiental às famílias, no sentido de oferecer uma ajuda de custo que ajudaria no transporte e compra de água nesse momento. Talvez o dinheiro da multa aplicada à Prefeitura pudesse ser usado nesse sentido”, afirma Oeiras.
Em 2011, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou a Prefeitura de Belém em R$ 40 mil diários por falta do licenciamento ambiental do lixão. A Cosanpa informou que os sistemas das Estações de Tratamento de Água que fazem captação do rio Guamá, garantem a qualidade do produto que é distribuído à população e fazem monitoramento mensal da água captada, seguindo as normas do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente). Informou também que essa situação não compromete a qualidade da água distribuída aos clientes.
(Diário do Pará)
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