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Presos na batalha por um novo lugar ao sol

Na volta para casa, Paulo Protásio não encontrava mais o caminho. Nas ruas, os ônibus equipados com modernas lâmpadas de LED lhe causavam espanto e indicavam o tempo decorrido. Na feira, antes tão frequentada, a surpresa das mudanças e a perseverança de v

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Na volta para casa, Paulo Protásio não encontrava mais o caminho. Nas ruas, os ônibus equipados com modernas lâmpadas de LED lhe causavam espanto e indicavam o tempo decorrido. Na feira, antes tão frequentada, a surpresa das mudanças e a perseverança de voltar a fazer parte de tudo o que foi deixado para trás, há cinco anos. “Tudo mudou muito. Fiquei cinco anos atrás de uma grade direto e nem lembrava mais o caminho de casa quando saí. Me perdi”.

Durante a primeira semana em que se viu livre do cerco das grades da penitenciária, onde cumpriu pena, Paulo não exigiu grandes produções. De volta para casa, após receber o benefício da liberdade condicional, tudo o que reivindicava era um copo de refrigerante, uma tigela de açaí e um pote de sorvete. “Foi uma semana comendo só isso. Ainda mais que teve meu aniversário. Foi meu primeiro aniversário em liberdade”, sorria. “São coisas bestas, mas a gente não dá valor quando tem”.
A saída de Paulo do cárcere, em junho deste ano, não aconteceu pela primeira vez. Antes de cumprir pena por assalto à mão armada e porte ilegal de armas, o homem já havia sido preso outras três vezes. Foi na última detenção, porém, que Paulo afirma ter aprendido o melhor caminho a seguir. “Eu entrei no crime há sete, oito anos, e de lá para cá foi só derrota, perdi muita coisa”, reconhece. “Mas eu tive um encontro com Deus lá na cadeia e ele começou a me devolver tudo o que eu tinha perdido”.

Foi dentro do cárcere que Paulo conheceu e oficializou o relacionamento com sua atual esposa. O casamento, um dos momentos que recebe destaque positivo em sua vida, aconteceu no local que nem sempre lhe traz boas lembranças e para onde não pretende voltar. “O mais difícil é conviver lá dentro”, desabafa ao lembrar dos programas de remissão de pena que possibilitaram a redução de seus dias em cárcere. “Mas os projetos caíram do céu. Foi uma porta que se abriu para que eu saísse mais cedo”.

Ainda entusiasmado com cada novidade encontrada do lado de fora dos muros da penitenciária, Paulo ainda não definiu muito bem seus planos de vida. O pagamento da dívida contraída com a sociedade é, para ele, a certeza do recomeço de uma nova história. “Creio que vão acontecer maravilhas ainda daqui pra frente. Vou tentar me aplicar ao meu trabalho, ter meu dinheiro digno e passar para as pessoas que não vão para lá (para o crime), porque não compensa”, afirma. “Daqui a um mês não vou dever mais nada para ninguém. Quando puxarem meu currículo para me dar emprego, vão ver que ele está livre”.

Apesar do currículo satisfatório, Luciene da Silva não esconde a dificuldade em conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Há três meses em liberdade, após o cumprimento de um ano e sete dias de pena, a jovem de 20 anos sente o peso de seu passado ao tentar recomeçar sua vida. “Olham para a gente com outros olhos. Não dão chance”.

Com ensino médio completo e dois anos de experiência assinada em carteira, Luciene não consegue atribuir outra explicação à dificuldade de conseguir um emprego. “Eu tenho uma boa qualificação e não tenho preferência nenhuma por área de trabalho. Minha preferência é mesmo trabalhar”, afirma. “Mas é muito difícil porque as pessoas batem a porta na nossa cara e abrem para outros que têm menos qualificação que a gente. Se isso não é preconceito, eu não sei”.

A vida esperada momentos antes de ter sua liberdade devolvida era bem diferente da real. Ainda na saída do Centro de Recuperação Feminino, a ideia de Luciene era mais parecida com a de Paulo Protásio. “É muito bom estarmos aqui fora porque podemos mudar de vida. Quando a gente vai para um lugar desses (penitenciária), a gente abre mão de tudo e, quando a gente sai, ganha a vida de volta”, lembra. “Eu imaginava que ia conseguir logo um emprego e não consegui até agora. Mas vou continuar tentando, daqui a um tempo quero estar empregada, fazendo cursos, lutando, né? ”.

Com a previsão de ainda dois anos para reconquistar sua liberdade, Camila de Oliveira Benito já começou a definir sua nova vida. Desde que foi detida, há três anos e oito meses, se dedicou integralmente aos estudos. Em cárcere, concluiu o ensino médio, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), passou no vestibular para Pedagogia e conquistou o direito do regime semiaberto. Espera autorização judicial para cursar a faculdade. “É um pouco difícil imaginar o futuro, mas espero sair daqui e levar o lado bom de tudo isso que eu passei”, desabafa. “Esse mundo não é meu. Foi uma fatalidade. Quero voltar pro meu mundo”.

(Diário do Pará)

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