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O dia que o Pará não vai mais esquecer

Iury Batalha fazia força, mas não conseguia dormir. Um cochilo aqui e ali, mas, sono mesmo, nada de vir. Era o terceiro dia de viagem. A ausência de sono talvez fosse causada pelos pequenos sacolejos sentidos por quem senta nos últimos lugares do ônibus e

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Iury Batalha fazia força, mas não conseguia dormir. Um cochilo aqui e ali, mas, sono mesmo, nada de vir. Era o terceiro dia de viagem. A ausência de sono talvez fosse causada pelos pequenos sacolejos sentidos por quem senta nos últimos lugares do ônibus em uma viagem. Ao lado, outro Iury, o Santa Rosa, também tentava achar o sono perdido. O relógio ainda não marcava 8h da manhã. O ônibus de dois andares tentava vencer a subida de serra na rodovia estadual PR-090, entre os municípios de Piraí do Sul e Ventania, a cerca de 200 quilômetros de Curitiba, no Paraná. É uma estrada complicada. Apesar de bem cuidada e sinalizada, possui curvas traiçoeiras e, nesse período do ano, de inverno no sul do País, não é raro a neblina tornar-se um inimigo a mais de motoristas menos experientes.

Não era o caso de Manuel Maria. Com mais de 20 anos de profissão e dez na empresa, é um profissional experimentado. A viagem até então havia sido sem maiores atropelos. No sábado, quando o comboio formado por três ônibus saiu de Belém rumo ao 22º Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), não havia lugar para nada menos que empolgação.

Para alguns, algo inédito. Aos 24 anos, seria a primeira vez que Ariane Sinimbu viajaria sozinha. Não foi difícil achar o próprio lugar no veículo. Sentada na poltrona 12, teria como parceiro lateral Antonio André Cunha. Ariane era considerada um prodígio. Já estava formada em Enfermagem e era a única mulher na própria turma de Ciências da Computação. Às 7h15 da manhã de segunda-feira, o ônibus enfrentou mais uma curva num trecho conhecido por “Serrinha”, em Piraí do Sul. A partir daí, ainda não é possível precisar o que ocorreu. A temperatura oscilava entre os nove e os 12 graus. Na pista simples, segundo a Polícia Rodoviária Estadual (PRE), o ônibus poderia ter batido na lateral do caminhão, perdido o controle e caído em uma ribanceira. É a versão mais aceita até agora.

O mundo de Iury começou a rodar, como se estivesse em uma câmera lenta. A gravidade foi suspensa, os corpos começaram a ser arremessados de um lado a outro. Gritos, espantos, desespero. Três pessoas foram cuspidas para fora do veículo. “É difícil falar, só lembro quando o ônibus virou umas duas vezes”, conta Iury três dias depois, já em Belém. Em uma curva fechada como a do trecho onde ocorreu o acidente, a velocidade segura a ser feita é de 40 km por hora.

Entre o choque e a queda não se passaram mais de dez minutos. Uma eternidade, no entanto. Pouco depois das 8h, Aline Gatti, 27 anos, recebeu uma ligação do marido. Não estranhou porque ele sempre fazia isso em viagens. Dessa vez era diferente. Alexandre Rocha chorava, em desespero. Um dos sócios da empresa que organizara a viagem, ele viu todo o acidente no ônibus de trás. A partir daquele momento, como quase todos os envolvidos direta ou indiretamente, Rocha não dormiria nem comeria quase nada. Água e café seriam os dois únicos combustíveis. Ao saber do acidente, a mãe de Ariane Sinimbu caiu ao chão chorando. Algo lhe dizia, embora todos tentassem negar, que a filha havia morrido. Estava certa.

Sentado na poltrona 42, Frederick Garcia dormia. Acordou no fundo do barranco. Sentiu uma dor aguda nas costas. Era uma das vértebras sendo esmagada e a primeira coisa que fez foi checar se estava sentindo as pernas e se conseguia movê-las. Depois acenou com a mão para os que estavam conscientes para saberem que ele estava vivo. Quando os corpos voltaram a ficar em repouso, Garcia soube que havia também fraturado o nariz. Frederick ainda não sabia, mas poderia se considerar renascido. As primeiras equipes de socorro que chegaram ao local encontraram um cenário de guerra. Corpos espalhados, imóveis. Outros emitindo gritos e gemidos de dor. Bagagens espalhadas. Mundos que colidiram e se partiram em mil fragmentos diferentes e que não serão mais repostos ao lugar de origem.

ANGÚSTIA

Três hospitais da região começaram a receber os feridos. Em Belém era apenas o início da descida ao inferno particular vivido por cada família. A busca por informações, a confirmação se o filho ou a filha sobrevivera. A dor apenas iniciava. “Eu estou indo para lá e não sei quando volto”, informou o jornalista Alfredo Garcia, pai de Frederick. O saldo final indicava a morte de dez pessoas. Na quarta-feira, os corpos foram transportados a Belém. Foram trazidos por um avião da Força Aérea Brasileira, a pedido do governador Simão Jatene. O C105 Amazônia foi construído para carregar equipamentos diversos e soldados. Suporta até seis toneladas de carga, mas em dez anos de atividade jamais havia transportado nada tão triste e doloroso para quem o aguardava na chegada.

Às 14h23, pousou em Belém. Oito minutos depois, as bagagens recolhidas no acidente foram retiradas do avião. Às 14h35, Alexandre Rocha desembarcou. Desgrenhado, foi recebido com um longo abraço pelo irmão, Alecsandro. Depois subiu numa ambulância e foi retirado do local. Um a um, os caixões foram sendo retirados. O primeiro foi o de Bruno Azevedo. Depois, um comboio de carros fúnebres levou cada corpo ao local onde seria velado. No mesmo dia, Ariane foi cremada. Ela sempre dizia que não queria ficar embaixo da terra. Renato Iori da Conceição foi sepultado na mesma tarde, com a camisa do time formado pelos colegas da universidade.

PEQUENAS HISTÓRIAS

Em tragédias como essa, familiares tentam achar respostas, buscar explicações, encontrar refúgio. Na noite de embarque, Thamirys dos Santos Oliveira comemorava aniversário. Estava feliz com a viagem. Na quarta-feira, era velada no centro comunitário da Marambaia. Entre esses dois momentos, uma família atingida. Fã de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos e de Nando Reis, vivia momentos felizes com o título da Libertadores conquistado pelo Corinthians. E citava referências como Paulo Coelho, Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector.

Leonardo Lopes era evangélico. Obreiro. E fã de filmes como ‘O Diabo veste Prada’, ‘A Paixão de Cristo’ e ‘Jogos Mortais’. Tinha o bispo Edir Macedo como inspiração. Em Darlyce de Lima, o que saltava aos olhos era a preocupação com a justiça social. A jovem que adorava viajar tinha sempre um olhar severo aos desmandos dos políticos. Renato Costa gostava de rock, de bandas como Beatles, Scorpions, Teatro Mágico, Blind Guardian e de filmes como Forrest Gump e Piratas do Caribe. Jogava xadrez, torcia por Remo, São Paulo e Barcelona e ainda guardava resquícios da infância, como ser fã de Jaspion e Dragon Ball.

Pequenas histórias, como a de Wilson Louzeiro, que economizou um ano para poder viajar com os amigos e colegas. Ou a de Ivana Dias Rosa, que ainda comemorava o título palmeirense na Copa do Brasil. Ivana ia classificada como ‘passeio’, ou seja, não era universitária ainda. No enterro de Renato Iori, ainda na quarta-feira, a canção de Roberto Carlos, chamada ‘Despedida’, entoada no momento em que o caixão descia à terra, sintetizava o sentimento de todos... “em qualquer lugar por onde eu andar, vou lembrar de você”. Belém vai demorar a esquecer.

Arquidiocese celebrará missa de 7° dia

A Arquidiocese de Belém celebra, às 19h de hoje, na Igreja da Sé, uma missa de 7º dia de falecimento das vítimas do acidente no Paraná, que matou 10 jovens paraenses (seis homens e quatro mulheres). A celebração eucarística será presidida pelo arcebispo netropolitano de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa.
Em nota divulgada em seu site, a Arquidiocese de Belém convida os católicos da capital paraense a participarem da celebração e “solidariza-se com as famílias dos 10 jovens que tiveram suas vidas ceifadas tragicamente em acidente, no Estado do Paraná”.
“Que o Amor de Deus possa penetrar em seus corações, de modo suave e sublime, oferecendo-lhes conforto e paz”, diz a nota. “Orações pelo descanso eterno da alma desses jovens. Que de modo esplêndido e imperceptível sejam recebidos na casa do Pai para a verdadeira vida”.
O estudantes se dirigiam para Curitiba para participar de um congresso de informática, no último dia 16, quando o ônibus em que viajavam, na rodovia PR-090, na região central do Paraná, caiu num barranco, deixando dez mortos e dezenas de feridos.

(Diário do Pará)

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