José Cleofas do Nascimento, 79 anos, e Walkiria Menezes do Nascimento, 72 anos, unem as mãos para contar. O casal precisa de doze dedos para enumerar apenas os filhos, lembrados um a um, cronologicamente. “Eu segui a risca o que Deus disse. Cresci e multipliquei”, diverte-se o patriarca justificando a generosidade na quantidade de filhos.
Ao todo, os Nascimento somam 41 integrantes, além dos filhos, são 25 netos e 2 bisnetos. Com tanta gente, lembrar com exatidão é tarefa árdua. “Hoje todos [os filhos] têm suas famílias. Dos 12 dá pra lembrar por nome, mas para os netos vai ficando mais difícil, só posso garantir que são 25 e que agora são as nossas joias”, argumenta o aposentado que relembra com lucidez a história familiar.
Casados há 53 anos, seu José e dona Walkiria são de uma geração que constituía família cedo e fazia questão por muitos filhos. Na década de 60, pouco depois do casamento - quando ele tinha 25 e ela 18 anos - a média de filhos entre as mulheres brasileiras chegou a 6,8 de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Inspirada pela avó que deu à luz a 22 crianças, dona Walkiria tratou de duplicar a média nacional para si. “Quando eu era nova, eu já sonhava com família grande. Sempre pedia pra Deus me dar muitos filhos. É muito bonito de se ver. Sou muito feliz com a família que Ele me deu”, afirma a dona de casa.
Ela admite que, se saúde tivesse, teria ido além. “Não tive mais porque não pude. Na minha última gravidez tive um problema sério. O médico perguntou quantos filhos eu tinha e quando eu respondi, ele disse que eu já tinha cumprido o meu dever na terra e que pro meu bem era melhor parar”, relembra dona Walkiria que após o décimo terceiro filho, que acabou não resistindo, resolveu obedecer.
MUDANÇA
A segunda geração dos Nascimento, no entanto, foi mais econômica e se contentou com um ou dois filhos. Dos 12 descendentes, somente dois tiveram três filhos e um ‘arriscou’ o quarto. “Eu pude ter muitos filhos. Nunca precisei trabalhar, ele [o marido] foi um excelente pai, da porta da rua à porta da cozinha tudo era ele, mas aquele era outro tempo. Do jeito que o leite tá caro e o mundo perigoso eu disse pra eles [os filhos] que agora a escolha era de cada um. Gosto de muita gente, mas entendo que hoje é muito mais difícil”, reflete a matriarca.
A família de Seu José e dona Walkiria reflete uma mudança geral ocorrida em todo o país. Ao longo de 30 anos, as diferenciações na sociedade impuseram às formações familiares novos padrões. “Vivemos hoje em todo o Brasil diferentes alterações. São diferenciações sociais, culturais, econômicas e religiosas que refletem diretamente na composição dos núcleos familiares. É mudança inevitável”, destaca o sociólogo Benedito Campos. “A maternidade e o casamento são cada vez mais adiados. Não que o ser humano esteja deixando de desejá-los, mas em função do que a vida contemporânea e o mercado de trabalho exigem. Não se trata de uma mudança isolada, ou de uma escolha individual, mas de um contexto social onde se está incluso”, analisa o especialista.
Nos últimos anos, por exemplo, a idade com que homens e mulheres se casam tem subido gradativamente nos últimos anos. Em 2010, os homens solteiros que se casaram com mulheres solteiras tinham, em média, 29 anos, e as mulheres, 26 anos - três anos a mais quando comparado com os anos de 1980 e dois anos a mais em relação a 2000, em ambos os casos. A média de filhos entre as mulheres para o mesmo diminui de mais de quatro (4,4) para menos de dois (1,9).
Novas gerações são mais “modernas”
A décima filha do casal, Norma do Nascimento, 41 anos, é exemplo das mudanças causadas pela modernidade. Casada há onze, ela é categórica quando o assunto é aumentar a família. “Não quero ter filhos de jeito nenhum. Trata-se de uma opção pessoal muito bem definida. Para mim, a família está completa comigo, meu marido e meus pais. É suficiente , não falta mais nada, estou satisfeita”, resume a comerciante que a única a não dar netos a dona Walkiria e seu José. Para ela, mais que a preocupação com as eventuais despesas que a criação de um filho exige, as responsabilidades são o que mais preocupa. “A rotina de trabalho nos exige muito. Ter um filho para deixar nas mãos de babás ou desconhecidos é aterrorizante. Melhor não ter mesmo. Meu marido tem os dele de outro relacionamento e aceita a minha vontade. Ele soube desde o início, não há problemas com isso”, reitera a comerciante enquanto mima a sobrinha, Antonela, de dois anos. “Assim tá bom, só como tia, mesmo. A família toda já entende”, descontrai.
Mãe de duas filhas, incluindo a pequena Antonela, Elizabete do Nascimento Moutinho, 47 anos, também “modernizou” a família. Casada aos 18 anos, a comerciante viu a relação desandar após 10 anos e optou pela separação. “Fui a primeira filha a casar e a primeira a separar. Não foi fácil. Era como se estivesse quebrando uma tradição, mas não havia outra alternativa, a relação tinha se desgastado e o melhor era cada um seguir para o seu lado”, justifica Elizabete que doze anos depois encontrou um novo companheiro com quem é casada até hoje e formou uma nova família. “Depois que casam, as pessoas que só existe aquela família, mas nós temos a tradição de não largar os pais. Nossa família é pai, mãe, marido e filhos”, sintetiza. O pai, seu Cleofas, vai além. “A família é o início da vida nesse mundo. É a união dos seres em um lar de onde saem as primeiras normas educativas. É papel da família ensinar para o mundo, na escola vai se aprender outras coisas”, define.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar