Com o sol de verão já intenso, a jornada é iniciada antes mesmo de se pegar a estrada. Na tentativa de assegurar um bom lugar em uma das dezenas de conduções que saíam minuto a minuto de uma parada de ônibus em São Brás, o jeito é baixar as malas ao chão e aguardar na fila que, ainda no início da manhã do quarto sábado de julho, já contornava a “Praça do Operário”. Seguindo o curso do caminho de gente formado na calçada até o final da fila, a sensação que se tem é a de que o trajeto até um dos ônibus é maior que o próprio percurso da viagem até um dos destinos mais procurados pelos veranistas paraenses, a Ilha de Mosqueiro. Para enfrentar as horas de espera, mais do que os colchões e ventiladores, o importante era carregar na bagagem grandes doses de bom-humor.
Após duas horas e meia de espera, a iminência de entrar em um ônibus anima. Mas é chegada uma das horas mais difíceis. Na escada estreita que dá acesso ao veículo, os rostos vão surgindo apertados, suados, mas sorridentes. Risos soltos, entre um empurrão e outro, ninguém perde a chance de arrancar uma risada do amigo. “Tem que tá de bom-humor e enfrentar tudo numa boa porque, se não, é melhor nem ir”, ensinava a servidora pública Sandra de Jesus. “Eu já dei foi a volta, aí, nesse “Chapéu do Barata”. Espero que quando eu chegue lá a comida já esteja pronta. Tô é brocada”.
Entrando no clima dos passageiros, que pareciam não parar mais de subir no ônibus, o motorista Carlos Gomes não desperdiçava a oportunidade de fazer piada. Com sotaque diferente e a fala acelerada, não tinha quem não sorrisse junto com o rapaz, que pela segunda vez fazia o transporte de passageiros para Mosqueiro nas férias de julho. “A única coisa que atrapalha a vida do motorista são os passageiros. Têm aqueles que são matemáticos, vão entrando no ônibus contando ‘já foi dois, motora!’”, brincava descontraído.
Com o percurso já na memória, o nativo da Ilha do Marajó não esconde que na primeira viagem chegou a errar o caminho. Amparado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) conseguiu chegar. “Na primeira vez, eu me perdi”, sorria sem longas pausas. “Aqui é o tempo todo lotado. Vai gente na bagunça, brincando... vai desde jogador de futebol a pedreiro”, lembra. “O pessoal leva de tudo, vão cheio de coisa, mas vale a pena, sim. Se eu tivesse de folga, eu iria”.
Enquanto o motorista aguarda a lotação do veículo, a técnica em enfermagem Dircilene Texeira surge pela porta. Com duas malas nas mãos, a maior dificuldade é subir as escadinhas sem se desequilibrar. Além da atenção à bagagem que lhe acompanhará durante os dez dias que ficará na ilha, cuidados também são dispensados à filha e ao sobrinho que seguem com ela. “Eu cheguei aqui ainda eram 6h e tamos saindo agora, 9h. Já imaginava que ia tá assim, mas tá tudo certo”.
Com o pensamento nas tradicionais ‘tapioquinhas’ vendidas na feira de Mosqueiro, mesmo com o transtorno, ela não tinha do que reclamar. “Eu tô com esse peso aqui e ainda tão furando na minha frente. Se fosse pra passar um final de semana eu não enfrentaria isso, mas como vou passar dez dias, vale a pena. Tem que levar na esportiva”, acredita. “A gente vai pensando nas praias, na ‘tapioquinha’, é muito bom”.
“Esse povo é difícil reclamar”, constata o motorista de outro ônibus, José Valdir. Além dos veranistas que aguardavam horas para conseguir o transporte, também coube a ele ter paciência. A chegada na garagem da empresa foi anotada às 6h30, mas a saída com os passageiros só aconteceu às 9h30. “Vai criança chorando, mala pra todo lado: no colo, no ombro, na cabeça, no chão”, descreve.
Com os ânimos ainda calmos, o ônibus conduzido por José Valdir dá a partida com a lotação ainda certa. Mas a viagem marcada com todos os passageiros sentados dura pouco. Alguns metros depois da parada de ônibus, em São Brás, começam a subir os veranistas dispostos a seguir a viagem de, aproximadamente 2h30, de pé. “Pra eles tudo é diversão, é festa”.
Ao som das batidas do tecnobrega
O clima de festa começa assim que o ônibus chega à altura do Entroncamento. Com o trânsito ainda tranquilo, um passageiro trata de garantir a música. Os tecnobregas tocados um atrás do outro pelo celular acompanham os passageiros durante toda a viagem, sem trégua. No primeiro ponto de congestionamento, passando alguns metros do viaduto do Coqueiro, os carros param, o vento vindo da janela diminui e a música anima a pequena Bruna, de três anos, que não se contenta em ficar sentada. Do colo da mãe ela salta e começa a mexer os ombros no corredor apertado do ônibus. Não há quem fique sério diante da dança da criança.
Sem muito trânsito, além dos poucos pontos de congestionamentos concentrados ainda no município de Ananindeua, a chegada na entrada de Mosqueiro acontece mais rápido do que se esperava. Mas é lá, também, que mais passageiros embarcam e tornam menor o corredor do ônibus já ocupado por malas e passageiros em pé. Nesse momento, não vale se afastar do local conquistado. Qualquer deslocamento, por menor que seja, pode resultar na perda de um lugar para se segurar.
Vinda de Castanhal, a costureira Maria das Dores tenta se equilibrar segurando apenas com uma das mãos. Já na primeira viagem de ônibus para Mosqueiro, a senhora que se mudou de São Paulo para Castanhal há apenas três meses já conheceu a popularidade da ilha nesse período do ano através da lotação do veículo. “Não sabia que era assim não. É a primeira vez que eu venho e já volto amanhã”, disse, ao afirmar que já desenrolava um plano para voltar para casa de outra forma. “Se tudo der certo, vamos voltar de carro”.
Mais animado com a culinária paraense, o marido de Maria das Dores, Paulo Teixeira, só conseguia pensar nas comidas que haviam lhe recomendado a comer em Mosqueiro. Já passando a ponte que dá acesso à ilha, o cheiro do camarão fresco vendido na estrada invade o ônibus e desperta mais ainda a vontade de chegar logo. “O que a gente mais quer é aproveitar, trabalhar um pouco e aproveitar mais”, sorria. “Quero é o peixinho frito e o refrigerante bem gelado”.
Quando o assunto é comida, não demora muito para o bate-papo dentro do ônibus fluir. Quem está por perto não perde a oportunidade de destacar as riquezas paraenses e a viagem é embalada até o final por animadas conversas. Com apenas 17 h para aproveitar Mosqueiro, o auxiliar de portaria Pedro Paulo Rodrigues aproveitava para ensinar o que sabia ao xará. “O que é bom mesmo é uma ‘gózinha’ (pescada gó) bem fritinha. Mas tem que comer ainda quente”, explicava. “Uma pratiqueirazinha também é muito bom”. Com o retorno agendado para as 5h do dia seguinte, Paulo não queria perder um minuto.
Pouco antes da parada de cinco minutos no portal de Mosqueiro para a revista da PRF no ônibus lotado, a paisagem avistada das janelas estreitas do veículo dá uma pausa na conversa. O motivo da atenção é o casarão que, ainda na beira da estrada, revela a enorme piscina que, cristalina, brilha com o sol já forte. “Isso aí é só mega sena”, diz Pedro Rodrigues.
Com a chegada do ônibus à praça do Carananduba, a viagem acaba para a maioria dos passageiros que descem animados em aproveitar cada momento do quarto final de semana do verão 2012. Nas praias lotadas com a maré alta que, no Murubira, já levava as ondas até a calçada, a compensação pelos transtornos inevitáveis do trajeto.
(Diário do Pará)
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