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Novos arranjos das famílias brasileiras

Organizar o álbum de família atualmente requer cada vez mais destreza para explicar quem é quem. O clássico “pai, mãe e filhos”, estereótipo de família tradicional, ainda predomina, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2010, do Ins

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Organizar o álbum de família atualmente requer cada vez mais destreza para explicar quem é quem. O clássico “pai, mãe e filhos”, estereótipo de família tradicional, ainda predomina, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em mais da metade dos lares brasileiros. Entretanto, há espaço para novos arranjos familiares. Famílias lideradas por um só cônjuge (monoparental), por exemplo, já alcançam 19% dos 62 milhões de arranjos familiares, a maioria deles, 88%, chefiados pelas mães.

Não é o caso da família de Sebastião Lobato, 38 anos. Pai de três filhas, o ex-operador de guincho conduz sozinho a criação das meninas há oito anos, quando se separou da esposa. Na família, é ele quem lava, passa e cozinha. Também acompanha a educação na escola e escolhe as roupas que as meninas vão usar. “Quando me separei da mãe delas fiz questão de ficar com as minhas filhas(...). Minha dedicação é total só para as meninas. Elas são as mulheres da minha vida”, justifica o pai que durante todo esse tempo optou por não iniciar um novo relacionamento. “Elas ainda são muito pequenas. A mais nova é muito chegada comigo. Quem sabe quando elas crescerem...”, avalia.

As filhas de Sebastião - Gabriele, Daniele e Graziele - têm hoje 12, 11 e 9 anos, respectivamente. Quando ficaram aos cuidados do pai, a mais nova não havia completado um ano. Durante os primeiros meses, foi a avó paterna quem ajudou. A descoberta de uma doença grave na filha mais velha fez Sebastião largar o emprego e dedicar-se integralmente à família. “Quase um ano depois da minha separação descobri que ela tinha um tipo de paralisia, que precisava de tratamento e operação, então larguei tudo”, relembra Sebastião que viu a evolução da saúde da filha, mas ainda aguarda pela cirurgia que deve ser realizada em Brasília.

Sem a presença diária da mãe, as meninas seguem a rotina organizada pelo pai. Dormem e acordam cedo. Vão à escola pela manhã e a aulas de reforço à tarde. “Gosto da mamãe, mas gosto de morar com o papai. Ele cuida bem da gente”, resume Gabriele sob o olhar “coruja” de Sebastião, que garante o sustento das filhas com o benefício de um salário mínimo concedido em virtude da deficiência da primogênita reforçado pela renda que vem de programas assistenciais e de serviços que faz como pedreiro.

“Acordo às 5h para deixar a comida pronta. Dou o café delas e levo pra escola de bicicleta. Enquanto elas estão na aula, eu faço os bicos, mas já aviso que só posso ficar até a hora da saída delas. Todo mundo já sabe. Às11h30, eu já tô na frente da escola pra levar pra casa e dar almoço. À tarde é mesma coisa”, afirma.

UNIÃO
O pedagogo Elvys Tota, 34 anos, e o cenógrafo Jairo Santos, 33 anos estão juntos há oito anos, e casados no civil há 1 mês. O casal completou o lar após a chegada da irmã de Jairo, Ruthlene Benício, 20 anos. “Até a chegada dela éramos um casal morando como amigos. Com a vinda dela, nós ganhamos uma rotina de família. Domingo é dia de almoço; quarta, de futebol. Tudo que uma família tem e gosta, nós temos”, antecipa Jairo.

Ruthlene passou a morar com o casal seis meses após os dois morarem juntos. Mas, antes de compor definitivamente o núcleo familiar, foi chamada a uma conversa séria pelo irmão. “Sabe, eu e o Elvys meu amigo? Ele não é meu amigo. A gente é um casal”, diverte-se, lembrando a cena, Jairo que nem precisava ter se esforçado em explicar. “Claro, que eu sabia. Todos sabiam. Isso nunca foi problema. O único inconveniente, até hoje, é que eu participo mais das coisas deles. E, aí, fica difícil encontrar um pai para a minha filha”, brinca.

Em todo o país, dos cerca de 190 milhões de habitantes, pouco mais de 60 mil são de pessoas do mesmo sexo que vivem juntas formando famílias. Foi o que revelou o IBGE, que, pela primeira vez, contabilizou os casais gays que dividem o mesmo teto, incluindo a pergunta no questionário do censo 2010. O número representa 0,16% do total de cônjuges do país.

“A família que a gente imagina quando é criança é aquela que os pais idealizam pra gente. A gente vê o pai e a mãe e quer ser igual. Mas quando cresce percebe que a autonomia nos permite constituir outro núcleo familiar”, comenta Jairo.

“Durante muitos anos se constituiu uma ideia de família no modelo ‘papai, mamãe e filhinho’. Hoje, não é só isso. Para mim, família independe do número e do perfil dos integrantes. É simplesmente se relacionar com as pessoas, estabelecer rotina. Família é esse completar”, define Elvys, que junto ao companheiro não planeja aumentar a família. “Ele tem um filhinho que não mora com a gente, mas convive. É uma criança incrível”.

(Diário do Pará)

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