Em todo o Brasil, embora o número de casamentos no “papel” tenha diminuído gradativamente e o de divórcios quase duplicado, o número de famílias cresceu duas vezes e meia a mais que o crescimento da população total nos últimos dez anos. Uma contradição que sugere o óbvio. Cada vez mais, as pessoas se estruturam a partir de novas bases familiares. Mudança que, para a mestre em psicologia clínica e social na abordagem psicanalítica, Niamey Granhen, aponta o caráter mutante da instituição familiar. Para ela, longe do fim, a família passa hoje por um processo de adaptação aos novos tempos. Mais que pelos laços de sangue ou pela obrigação, as uniões agora são definidas por um conjunto de fatores.
“No passado, o conceito de família estava bastante atrelado a três bases: casamento, heterossexualidade e laços consanguíneos. Hoje, não se pode pensar em um conceito unívoco. Existe uma dinâmica muito maior que envolve diferenças sociais, culturais, históricas, geográficas”, explica a especialista.
Além do desmembramento do que no passado compunha um único núcleo familiar, o presente mostra que menos tradicionais, as novas famílias assumem um perfil mais centrado nos desejos individuais. “De um grupo de amigos que decide morar junto e a partir daquele laço compor uma nova família, ao casal que, com ou sem filhos, opta por não dividir o mesmo teto. Tudo é família. São formas de se reconstruir um núcleo familiar mantendo as individualidades e preservando as intimidades”, destaca Granhen. Menos formalismo, mais igualdade, menos tempo, mais distância. Vantagens e desvantagens da modernidade. “Nada é fechado. Os novos modelos dependem de cada um. Se a relação se constrói para que se deixe de partilhar, ela é maléfica, mas se for para um simples ajuste, pode ser importante”, afirma.
Filha única, a professora Cinthya Marques, 25 anos, fez a família “sofrer” com a decisão tomada aos 18 anos. Em nome do futuro profissional, a até então estudante mudou o núcleo familiar ao resolver sair de casa e mudar de Estado. “Foi um começo difícil, principalmente pra minha mãe, mas era importante pra mim. Queria prestar o vestibular e na minha cidade não tinha o curso. Perdi a comodidade e a tranquilidade do lar dos pais, mas sinto que foi importante para meu amadurecimento”, comenta Cinthya.
A professora já dividiu apartamento com amigos, mas encontrou tranquilidade morando sozinha com a recente companhia da gata Ella, que chegou há seis meses. “Hoje, minha família se resume a Ella e eu. Mas não planejo morar sozinha pra sempre. Minha mãe vai envelhecer e eu vou voltar para cuidar dela. Antes, porém, tenho outros desafios. Vou fazer mestrado, focar na carreira, morar no exterior. Minha mãe fica desesperada”, enumera, dando risada a professora que não descarta a possibilidade de formar a própria família no futuro distante. “O ideal é casar, mas não teria problema se fosse mãe solteira. De qualquer forma isso não é pra agora, talvez lá pelos 35 anos”, calcula.
VIDA A DOIS
No amanhã, o casal formado pela web designer, Ingrid Mendes, 27 anos, e pelo designer Filipe Mendes, 29 anos também tem planos de constituir uma família. Namorados há 12 anos, os dois encontram gostos em comum desde a escola e não correm contra o tempo. “Não há porque ter pressa. A vida mudou. Precisamos nos estruturar financeiramente antes de formamos a nossa própria família. É um grande desejo que ainda não pode ser concretizado. A vantagem é que com tanto tempo junto, nos conhecemos muito bem e isso é importante para dar certeza”, argumenta o namorado.
Entre tantas coisas em comum, Filipe nutre com a namorada a paixão por “games”. “Nos aproximamos por causa de um livro de jogos. Ele estudava com a minha irmã, mas eu nunca tinha reparado. Tudo na nossa relação foi demorado. Gostava dele como amigo, foram meses para andar de mãos dadas, para o primeiro beijo. Com o casamento não seria diferente”, diz Ingrid, que apesar da pressão da família, segue o exemplo de Cinthya e quer se dedicar ao mestrado antes de pensar em filhos.
Independente da configuração, se “moderna” ou “tradicional”, para as famílias o mais importante, avalia Niamey, são os papéis desempenhados. Além da preocupação com o crescimento e alimentação dos seus membros (função biológica) e com a educação através do estímulo ao conhecimento (função pedagógica), a família precisa dispensar cuidados à saúde emocional dos seus entes (função psicológica), além de educar e orientar sem deixar de estabelecer regras (função social).
“Em geral, a função psico-social da família é mais esquecida, o que pode provocar problemas. A família é suporte, é apoio, mas para o bom desenvolvimento é importante que a mãe, o pai – ou aqueles que assumem essa função – tenham seus papeis. Companheiro não é filho. Filho não é amigo. Cada um tem o seu papel”, alerta.
Apesar de ainda não ser regra, aos poucos as escolas começam a atentar para as novas formas de organização das famílias brasileiras. Filhos de pais separados, mãe solteira, pai solteiro, criado por avós, por madrasta, por padrinho. Nas salas de aula, o reflexo da sociedade fez a coordenação do colégio Ideal Jr. repensar, há quatro anos, a comemoração de duas das principais festas do ano letivo. “Percebíamos que durante a festa das mães ou dos pais muitas crianças não compareciam e o público ficava cada vez mais reduzido. Pensando em trazer essas crianças e seus representantes de volta duas vezes ao ano, em maio e agosto, fazemos alusão à festa da família. Independente de qualquer perfil familiar, todos são convidados a participar e dessa forma acabamos com quaisquer tipos de constrangimentos para as crianças e para os responsáveis”, explica a coordenadora pedagógica, Josiane Dahás.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar