A primeira vez fora uma emergência. O filho se acidentara de moto e precisava não apenas pagar os seus gastos médicos como arcar com os prejuízos do dono do outro veículo envolvido na colisão. Já a segunda veio para realizar o sonho da neta em ter uma festa de 15 anos. Depois, os motivos foram ficando ora imprescindíveis ora opcionais, até que seis anos depois Maria de Nazaré Santos perdeu a conta de quantas vezes recorreu a Dona Léa (nome fictício a pedido da personagem), a agiota que mora próximo a sua casa.
“O problema é que a gente acaba se acostumando, como se fosse algo normal. Até agora eu sempre consegui pagar, mas em dois momentos em que atrasei senti essa pressão. Algumas pessoas ligavam para minha casa e desligavam, de madrugada. Todo mundo ficou preocupado”, lembra.
Assim como Nazaré, várias pessoas utilizam-se da ajuda de agiotas para obter empréstimos sem burocracia. Os agiotas geralmente são procurados por pessoas que não têm crédito na praça por terem rendimentos insuficientes, ou estarem excessivamente endividadas ou na lista dos devedores. “Para terem garantia de que vão receber de volta o dinheiro, eles pedem documentos de carros, imóveis ou cheques em branco dos assalariados, o que também compromete o cidadão, uma vez que emitir cheques sem fundo é fraude e, se for de forma premeditada, pode ser considerada estelionato”, explica o economista Afonso Chermont.
E agora, com o caso recente da funcionária pública que, supostamente, foi assassinada por dívidas não pagas, o crime da agiotagem volta à cena. A Divisão de Homicídios da Polícia Civil investiga a hipótese de “acerto de contas”, uma vez que há informações de que a servidora pública devia a quantia de R$ 17 mil a agiotas.
“Já combatemos o cartão de crédito e o cheque especial, por considerarmos que eles têm juros abusivos, que variam de 10 e 12%, imagine nesse caso, em que os agiotas chegam a cobrar 30%. É algo impagável”, ratifica Afonso.
O ideal é que a pessoa se programe para pagar qualquer que seja a forma de empréstimo, mas nunca considere a agiotagem. “É um ato criminoso que pode envolver até a própria vítima, uma vez que sabe que o procedimento é ilegal”, complementa. Por isso, o economista sugere que a pessoa considere todos os outros caminhos, incluindo familiares, amigos, pessoas que lhe prometeram apoio. “Os próprios empréstimos bancários têm opções de prestações mais baixas e há também o penhor, que reduz um pouco o valor do produto, mas tem juros razoáveis e ainda possibilita que o antigo dono ganhe 50% do valor mesmo quando o bem vai a leilão. É bem melhor do que se arriscar”, finaliza.
(Diário do Pará)
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