“Eu realmente não sei o que fazer. Acho que vou desistir e voltar”. Nervoso, andando de um lado para o outro, sem tirar o celular do ouvido e os olhos do relógio, Walter Azevedo da Silva tentava decidir o que fazer com o pai doente, diagnosticado com princípio de tuberculose. Há 3 dias, Wilson da Silva fora internado no hospital de São Miguel do Guamá, até que o médico anunciasse que seu estado era grave e que ele precisaria de atendimento médico em Belém. Com a notícia, ele e o filho partiram ontem, às 4h da manhã, do município em direção ao Hospital de Pronto-Socorro Mário Pinotti, no bairro do Umarizal.
“Chegamos às 6h30 da manhã e ninguém fez nada. (Os funcionários) Pediram documentos, papéis e sumiram. Meu pai não recebeu nenhum remédio, nenhum exame e nem foi levado para dentro do hospital. Desde que ele sentou aqui, na triagem, nada aconteceu”, contou desesperado Walter, às 11h da manhã.
Enquanto isso, Wilson oscilava entre o cansaço e a dor. Tossindo, ele mantinha no rosto uma máscara e tentava, em vão, tirar o scalp do seu braço, ambos colocados ainda na ambulância. Aos 52 anos, o pedreiro ainda não tinha vivido situação mais desconfortante. “Quero ir embora daqui o mais rápido possível. É o maior descaso do mundo. As pessoas fingem que a gente não existe”, confessou.
Percebendo a movimentação que se formava com outros pacientes preocupados em ajudar os dois, o médico Hilton da Silva apareceu para atendê-lo. Descobriu-se, então, que ele deveria ser transferido para o Hospital Barros Barreto, referência no tratamento de tuberculose. Mas havia um problema: os papei solicitados no início da manhã, por outro médico, tinham sumido da administração.
No mesmo momento, Nadiane Castro entrava devagar, apoiando a mão esquerda no antebraço direito. Durante a madrugada, ela havia caído e machucara o membro. Muito inchada, era necessário saber se algum osso estava quebrado, mas ela não conseguiu fazer o raio-x no hospital. Na verdade, os médicos avisaram que não poderiam atendê-la no momento e que dariam apenas um analgésico. “Remédio para dor eu tomo em casa. Eles querem dar qualquer coisa e nos mandam embora. Como me negam algo tão simples como imobilizar um braço?”, questionou revoltada, ao deixar o local.
“Estamos em superlotação, em condições subumanas. Não temos condições de atender toda a demanda. Medicamos e liberamos. Não há leitos disponíveis”, admitiu Hilton, médico há 22 anos da rede municipal. Segundo ele, enquanto unidades de atenção básica e municípios do interior não se estruturarem para prestar bons atendimentos, o HPSM continuará referência de caos.
Médicos vão continuar com paralisação
A superlotação e a falta de condições para atendimento dos pacientes foram compartilhadas por todos os servidores que aderiram ao movimento grevista deflagrado ontem, em toda rede municipal de saúde. Apesar do Tribunal de Justiça do Estado do Pará ter considerado a greve abusiva, a orientação é de continuar a paralisação.
“Não fomos notificados e o nosso principal objetivo é demonstrar que a greve não acabou. O fato de a prefeitura ter procurado diretamente a Justiça e não ter nos procurado para negociar demonstra o descaso com a causa. Abusivo é o salário pago ao servidor, as condições oferecidas, a estrutura inadequada. E não a greve”, ratificou João Gouveia, diretor administrativo do Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa).
Durante toda a manhã, o comando geral organizou atos em frente ao PSM da 14 de Março e do Guamá e os servidores continuaram atendendo somente os casos de urgência, com apenas 30% da categoria trabalhando.
Na próxima segunda-feira, às 10h, a categoria se reúne em assembleia geral para decidir os rumos do movimento.
Decisão
O Tribunal de Justiça do Estado concedeu tutela ao Município de Belém, por considerar a greve abusiva e instituiu uma multa no valor de R$ 10 mil por dia caso a ordem de retorno ao trabalho não seja cumprida. No despacho, o juiz Marco Antônio Castelo Branco destacou a importância da atividade, e que “existe um interesse maior de toda a população que precisa ser preservado, e que fica sob o risco de não receber o tratamento emergencial ou de urgência”.
(Diário do Pará)
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