A tabela com os horários fica sempre à vista. Na saída da segunda viagem do dia, o papel que aponta a “fração das viagens em minutos” lembra a todo momento o compromisso assumido ainda no final da linha. Com partida realizada às 6h26, o motorista Jeremias Martins precisa passar por doze bairros de Belém e retornar ao ponto inicial às 8h26.
Nesse meio tempo, ocorrem os engarrafamentos, os cortes de motoqueiros no trânsito e as paradas a cada sinalização de um novo passageiro que pretende subir. “Não dá tempo de chegar. Quando a gente chega num engarrafamento desses, o jeito é esquecer que tem o horário para cumprir e tentar não bater o carro. Se não fizer isso, é estresse na hora”.
Ainda no início do trajeto, os usuários do transporte público já se acumulam à volta do motorista. A cada parada é cada vez mais difícil distribuir as dezenas de pessoas que se abrigam na parte dianteira do ônibus, por não conseguir passar para a parte de trás da roleta, também apinhada de gente.
Enquanto seu espaço fica cada vez mais reduzido, a saída é se esticar para enxergar, por cima das cabeças dos demais que lotam o veículo, o reflexo no espelho dos passageiros que tentam descer pela porta traseira. “Todo tempo é assim, lotado. Tem vezes que temos que deixar o passageiro pagar a sua passagem e descer pela frente porque não tem como ir para trás”.
Antes mesmo do sol esquentar, por volta de 7h10, o suor já escorre no rosto do motorista, que atua na profissão há 25 anos. A cada parada no sinal, o calor tenta ser eliminado com o auxílio da toalhinha que, volta e meia, é levada ao rosto. Jeremias descansa a toalha em cima dos joelhos, cruza as mãos sob o volante e observa o trânsito que ainda tem pela frente. É o que a pausa permite. “Esse trecho é um dos piores (na avenida Almirante Barroso). Quando chega aqui tem que esquecer o horário e só pensar em não bater o carro”.
Mas é na arrancada, quando o veículo volta a se movimentar, que a sonoridade da profissão se faz presente. Em cada buraco e mesmo nos trechos ‘limpos’ das vias, o banco do motorista balança e o som fanho da mola que arranha na estrutura que sustenta o assento o acompanha até o fim da viagem. Aliado ao barulho do motor instalado ao seu lado, o apito agudo da campainha acionada de tempos em tempos completa a poluição sonora.
“O que estressa mais é a campainha porque ela fica aqui em cima da nossa cabeça. Já chegou dia de eu não aguentar mais esse barulho”, diz. “Mas é uma vida boa. Gosto do que faço e, por isso, faço tudo para não me estressar”.
Independente das pequenas coisas que costumam incomodar o motorista no dia a dia, um estudo do International Stress Management Association do Brasil (Isma-BR) aponta que o risco de assalto foi um dos fatores fundamentais para que a profissão de motorista de ônibus urbano empatasse com a profissão de controlador de voo, em segundo lugar no ranking das profissões mais estressantes do Brasil. A Isma é uma associação americana com sede no Brasil que se dedica à prevenção e ao tratamento do estresse.
ASSALTO
Experiência essa que também já foi vivenciada por Jeremias Martins. “Foi na viagem de 4h30. Um casal fez sinal e, quando paramos, vieram mais três pessoas e entraram no ônibus armados. Levaram meu relógio, meu celular e ainda levei uma coronhada. Fiquei meio...”, não encontra as palavras. “Mas é isso, tem que voltar pra trabalhar no dia a dia. Gosto do que eu faço”.
Quem também não esconde a simpatia pela própria função é o suboficial Gilberto Damásio. Controlador de voo há 27 anos, todos os seus movimentos ao controlar a movimentação das aeronaves nas pistas de pouso e decolagem seguem um planejamento rigoroso. À frente da enorme janela de vidro que dá visão panorâmica a cada canto das pistas do aeroporto, a tela preta do computador aponta a trajetória de cada aeronave e deixa claro o tamanho da responsabilidade compartilhada por pelo menos três departamentos de controle dentro do território amazônico.
“Temos os horários de pico em Belém que geram uma apreensão e uma tensão em determinado momento”, afirma, ao explicar que, na capital paraense, os horários de maior fluxo de aeronaves são os que vão de 6h às 8h, de 14h às 14h30 e os que vão de 0h até as 3h. “Sentimos essa responsabilidade (por lidarem com a vida de pessoas), mas o conforto de imaginarmos que as várias aeronaves que passaram por nós chegaram bem aos seus destinos supera o estresse”.
Para a segurança do voo e da população
Responsável pelo primeiro controle das aeronaves ainda em solo, é na torre de controle que os planejamentos são colocados em ação. Da cabine, o olhar atento tem que tomar conta dos profissionais e dos carrinhos que carregam malas que se encontram na pista. Nada pode ficar no caminho dos aviões.
“Na torre de controle é feita essa coordenação de solo. Temos que ver as pessoas que estejam nas mediações para que saiam para o avião decolar”, informa Gilberto Damásio.
Passada a fase inicial, a demanda é direcionada para o controle de aproximação – que controla os aviões já no ar dentro do limite de 80 Km – e, por fim, passam ao controle do Centro de Controle de Área que, na Região Amazônica, fica localizada em Manaus (AM). “O voo é todo controlado, mas não pela mesma pessoa”.
Independente dos planos seguidos à risca e do auxílio dos equipamentos eletrônicos, o suboficial Damásio reconhece o momento de maior estresse. Sempre que há um imprevisto, como o noticiado pelo DIÁRIO no último dia 1. “Tivemos uma companhia onde houve suspeita de apoderamento ilícito o que gerou toda uma movimentação diferente”, lembra, ao falar da aeronave que teve que voltar a Belém pelo tumulto causado a partir da presença de quatro policiais armados em voo. “É quando acontecem os momentos atípicos que sugerem que o ponteiro possa se aproximar do vermelho, mas sempre temos um plano de emergência”.
Em primeiro lugar no ranking das ocupações mais estressantes, a profissão de policial também está relacionada, em algumas vezes, com situações extremas. Responsáveis pela garantia da segurança da população, a exposição ao perigo causa sempre uma tensão na rotina do sargento da Polícia Militar, cuja identidade será preservada. “Ficamos muito vulneráveis. A minha proteção quem tem que fazer sou eu mesmo porque moro em uma área perigosa”, revela.
Além da preocupação com a própria vida, o sargento não nega que também teme pela segurança de sua família. A inquietação com a proteção das pessoas próximas a ele é intensa e intensificada pela pesada jornada de trabalho. “Eles (bandidos) não têm coragem de vir na gente, então vão em cima da nossa família”, afirma. “Mas isso é só um fator em vários: o estresse é provocado pelo cansaço da jornada de trabalho de 12h na rua, da quentura e também pelo baixo salário”.
(Diário do Pará)
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