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Filhos continuam presentes mesmo após a “partida”

Todos os dias Sivaldo Miranda, 48 anos, acorda às 3 horas da manhã. A intenção é sempre a mesma. Ir até a Central de Abastecimento (Ceasa) apanhar frutas e verduras para a pequena ‘banca’ localizada na feirinha do bairro da Terra Firme. É o pior momento d

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Todos os dias Sivaldo Miranda, 48 anos, acorda às 3 horas da manhã. A intenção é sempre a mesma. Ir até a Central de Abastecimento (Ceasa) apanhar frutas e verduras para a pequena ‘banca’ localizada na feirinha do bairro da Terra Firme. É o pior momento do dia para Miranda, quase impossibilitado de trabalhar por conta de dores causadas pela hérnia de disco. É quando vem a imagem do filho de mesmo nome. A banca de frutas pertencia ao filho, de mesmo nome. Era ele quem acordava cedo. O pai o acompanhava até o ponto em que apanhava a condução para a Ceasa. Sivaldo, o filho, foi uma das vítimas do acidente envolvendo estudantes no Paraná. Será o primeiro ‘Dia dos Pais’ de Sivaldo Miranda sem o filho.

“Ele era o caçula e o único que me dava presentes nesse dia”, diz Miranda, sentado em uma cadeira de plástico branca. “A vida tá difícil sem ele. Eu fico acordado até pelo menos uma da manhã, pra dormir de uma vez e não ficar pensando. Meu filho está sempre muito presente. Eu digo pra mim mesmo que ele está viajando e que vai chegar uma hora dessas”, afirma.

A morte do filho transformou a vida de Miranda. A família pobre, que mora em uma casa de tijolo sem reboco numa estreita rua sem asfalto na Terra Firme, via no rapaz de 22 anos a representação de um orgulho que mal se continha, como diz o pai. “Ele estudava muito. Trabalhava e estudava. Chegou a escrever como mensagem: ‘eu quero, eu posso, eu consigo’. Ele era assim”, diz.

Sivaldo Miranda, o filho, passou no Vestibular em 2010. Foi uma festa na rua. Festa bancada por todos os vizinhos. “Eu nem tinha dinheiro. Comprei cerveja fiado, fizemos churrasco. Foi uma festa”, lembra o pai. De uma das manhãs mais alegres da vida, Miranda, o pai, tem fotos. Elas estão num banner feito pelos amigos para lembrar o rapaz, que trabalhava e estudava.

De lembranças também tem sido os dias de José Wilson, no bairro do Tapanã. O filho morreu no mesmo acidente que vitimou Sivaldo. Como Miranda, o filho de José Wilson herdou o nome do pai. Wilson, o filho, se formaria no final do ano. Tinha grandes planos. Com 22 anos, já havia passado no concurso da Polícia Militar, ia tentar ser oficial. O pai havia comprado um terreno próximo. A casa começava a ser construída.

“Posso dizer que eu perdi um pedaço de mim”, diz Wilson pai. “A gente parecia irmão, brincava, lutava imitando MMA. Acho que 70% de mim se foi com ele”, resigna-se. Na porta de entrada, Wilson pregou uma letra de música de Roberto Carlos, em homenagem ao filho. Na internet há vídeos em homenagem ao rapaz. Os pais choram quando veem as imagens. “Como todos os pais eu sempre achei que era ele, o filho, quem iria me enterrar. É essa a lógica que a gente acha da vida. Eu dizia que ficaria velho, morreria e ele é quem cuidaria da família”.

Tanto Wilson como Sivaldo Miranda buscaram refúgio na religião. Wilson está indo mais à missa, principalmente depois de ter pensado em coisas mais drásticas como tirar a própria vida depois da morte do filho. Sivaldo recebe visitas de membros da igreja Assembleia de Deus. “Quando me concentro na situação que vivo, tenho vontade de chorar. Fico trabalhando, não dá para parar”, diz Wilson.

“Na verdade, esse dia só acentua um processo iniciado desde o acidente: o que eles são hoje? uma esposa que perde um marido é viúva, filhos que perdem pais são órfãos. Pais que perdem filhos não têm nome. Isto desequilibra a própria identidade desses pais.

Além disso, o luto se iniciou recentemente e aquela fase de incredulidade da perda sofrida pode estar dando lugar a revolta ou à melancolia. Cada um desses filhos ocupava um lugar e papel na vida de seus pais. Muitos representavam uma realização de toda a família, como atingir o ensino superior, por exemplo”, diz a psicóloga Izabel Cristina Borges.

Segundo ela, um suposto dia de comemoração se transforma em sofrimento, exigindo desses pais rever o que são hoje, se reinventar, por meio de lembranças, dores, sentimentos e emoções, provavelmente, muitos confusos.

“O reconhecimento da perda e a vivência do luto é “necessário” para que o sofrimento psíquico não se transforme em adoecimento. O difícil não é viver o dia dos pais, mas viver o resto de suas vidas sem os seus filhos”, diz ela.

(Diário do Pará)

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