Fim de tarde na redação do Diário do Pará. Os três repórteres aguardam. Jader Filho chega à sala de reuniões. Ao celular, discute capas. Depois sugere pautas, repassa informações. Depois olha para o aparelho. Deixa-o ao lado e diz que a entrevista pode começar.
Para os não acostumados, é difícil entender ou acompanhar o ritmo de Jader Barbalho Filho. É intenso, embora não tenha aquele conhecido ritmo estressante de empresários. A palavra que Jader Filho costuma usar para definir a relação com o jornal é um sinônimo mais popular de ‘paixão’, mas a palavra não costuma ser empregada em páginas de jornais.
Jader comemora os 30 anos do DIÁRIO DO PARÁ com a sensação de ter conseguido mudar a estrutura e a feição do jornal. Embora não costume ter a pretensão de carregar sozinho bandeiras de reconhecimento, ele tem a noção da importância que assumiu ao empreender as mudanças que deram ao jornal a liderança no mercado paraense.
P: O DIÁRIO completa três décadas... Dá para confiar em alguém com mais de 30, que vira balzaquiano ?
R: Olha, só o jornal chegar a essa fase e do jeito que chega já é algo fantástico e digno de se comemorar. Lá em 1994, quando assumi a distribuição de jornal tinha pouco mais de um ano de faculdade e o meu pai chegou comigo e disse que eu tinha que assumir tudo aquilo. Era uma situação dramática... Não tínhamos recurso para nada, não tínhamos crédito na praça.As dificuldades eram gigantescas. Mas um grupo de pessoas que queriam dar uma outra feição para o jornal começaram a injetar ideias novas. Primeiro foi criar um novo conceito para o jornal, já que até então a visão que todos tinham era de que o DIÁRIO era um jornal partidário e deficitário, sem circulação e sem lucro, que só dava dores de cabeça. E isso era a tese dos próprios sócios! Pois é... chegamos aqui 30 anos depois, líderes de mercado, respeitado e com grandes profissionais...Naquela época tínhamos grana só para pagar estagiários e olhe lá...Hoje estou aqui sendo entrevistado por três profissionais dos mais respeitados do mercado jornalístico local que trabalham no jornal líder de mercado no norte segundo o Ibope, único auditado pelo IVC. Passa um filme na cabeça... É muito bom saber que vencemos, que o grupo RBA venceu e que somos responsáveis por quase mil empregos diretos. A responsabilidade aumenta muito, com o leitor que nos consome diariamente e com o anunciante que aposta na nossa força e credibilidade.
P: Um dos diferenciais do DIÁRIO e que fortaleceu a publicação foi o fato de justamente na fase que se tornava líder de mercado não contar com qualquer verba oficial, mas apenas de empresas parceiras. Como foi vivenciar isso?
R: De fato o jornal sobreviveu sem verbas publicitárias oficiais, efetivamente até o ano de 2006. E foi justamente nesse período que alcançamos a liderança. Aprendemos a viver sem depender de governos. Não conheço nenhum jornal do nível do DIÁRIO no Brasil que tenha conseguido essa façanha... Ocorre que o modelo econômico estabelecido no nosso país força a empresa jornalistas a dependerem ou do governo federal ou do estadual. Isso é ruim para a democracia e para os veículos de comunicação como um todo. O ideal seria que nossa economia fosse e todas as empresas conseguissem vencer como o DIÁRIO venceu. Isso fortaleceria e muito o jornalismo como um todo. Devemos muito aos anunciantes que estão prestigiando essa edição de hoje de aniversário. Sem eles não teríamos chegado aqui.
P: E quais foram os fatos determinantes para a arrancada do DIÁRIO e que fez com que o jornal chegasse ao patamar de hoje?
R: A compreensão de que existia uma necessidade dos leitores em mudar a forma dos veículos de comunicação. Como vivemos agora essa mudança, transição... Temos que compreender o que o público quer. Naquele momento os leitores queriam uma abordagem diferente no noticiário esportivo, policial, a prestação de serviços... E soubemos captar isso e transformar esse desejo em realidade. Foi aí que surgiram produtos de sucesso como o “Bola” e o “Diário Polícia”. Os nossos jornalistas começaram a escrever de uma outra forma, menos rebuscada e de maneira mais direta com o leitor. Fizemos várias mudanças gráficas e o Arnaldo Torres começo a fugir dos formatos tradicionais e brincar um pouco mais com o formato... Existia uma demanda reprimida e conseguimos formatar um modelo que caiu no gosto do público.
P: Aí começaram a surgir as primeiras promoções de peso feitas pelo jornal, os primeiros projetos editorias...
R: Tínhamos um bom produto e sabíamos disso, mas faltava apresentar ao público leitor. Falava-se que o DIÁRIO era o jornal do Jader Barbalho, um jornal vinculado ao PMDB, quando na verdade já fazíamos um produto plural, que dava voz a todas as tendências e que era comercial. Mas precisávamos que as pessoas tivessem um primeiro contato com a publicação. Foi aí que lançamos os fascículos da História do Brasil e aquele Festival de Prêmios onde demos carros e até casas. Ali o leitor não comprava o jornal, mas a promoção, mas eu sabia que pelo menos eles dariam uma folheada no jornal e foi aí que o leitor começou a nos perceber.
P: O DIÁRIO chega há 30 anos com imensos desafios...
R: O mercado de periódicos de uma maneira geral no Brasil e na nossa região ainda tem muita gordura a queimar. Acredito que o crescimento ainda pode ocorrem nos próximos cinco ou 10 anos. Mas é difícil precisar. A questão é acesso ao meio... Quantas pessoas, efetivamente, na nossa região, têm condições de ter acesso a um computador ou a um tablet? Ou a uma rede de Internet? O jornal hoje sequer chega a algumas regiões do Estado, como o Marajó... Em outras sequer o avião chega, mas apenas o barco. Em outros municípios o avião só circula de segunda a sexta, como em Altamira.
P: Dentro dessa perspectiva como trazer as notícias para o jornal e ao mesmo tempo irradiá-la para todo o Estado?
R: Se você for ler a Folha de São Paulo ele é um jornal paulista e da capital federal. E o raciocínio aqui é o mesmo. Queremos fazer o jornal do Pará a partir das regiões polo. Não é à toa que criamos os suplementos “Diário de Carajás” e “Diário do Tapajós”. Acredito nessa segmentação da notícia criando uma identidade com a região. A prova disso é que o DIÁRIO quando circula nessas regiões com o suplemento a circulação é bem maior.
P: Acredita que o DIÁRIO realmente fez essa transição do jornal político do início do anos 80 para um jornal moderno e plural nos dias de hoje?
R: Não posso ser hipócrita. Acredito que isso não ocorreu 100% e isso não me incomoda. Todo o Estado do Pará sabe quem são os sócios do jornal, mas não existe ninguém aqui no índex e isso pode ser comprovado por qualquer um. Sempre lutamos para que não apenas o jornal, mas as rádios e a TV tivessem uma identidade própria com uma vertente democrática. E vocês sabem que isso não ocorre aqui no Pará. Tem jornal aí que os donos não são políticos e são muito mais preconceituosos... Os sócios dessa empresa jamais patrulharam nossas ações. Sempre tive liberdade total para gerir isso aqui e a prova maior disso são as edições que vem ocorrendo desde o início dessa semana com a cobertura das eleições. Muitos dos que estão ali são adversários políticos dos sócios do jornal, mas nem por isso são indexados. Isso é democracia. É respeito ao leitor. Censura não existe aqui dentro.
P: O jornal é hoje um produto que se vende bem? É um bom produto de marketing?
R: Não diria que é um produto de marketing. Como já disse anteriormente o DIÁRIO é um sucesso porque entende o leitor e busca sempre o que ele quer. Antigamente vinculávamos a compra do jornal a uma promoção, a um prêmio. Hoje isso não existe mais. Hoje todos os produtos vinculados ao jornal são editoriais e que conseguimos comercializar bem.
P: Muitos já decretaram a morte do jornal impresso afirmando que novas tecnologias como a Internet e as redes sociais vão dominar o mercado editorial... Como você vê esse futuro?
R: Para mim toda essa questão se resume numa palavra: credibilidade. Notícia se torna cada vez mais uma commoditie, ou seja, aqui que o jornal dá, todos os outros meios também vinculam, mudando apenas a forma e os profissionais envolvidos. Então, o grande segredo para sobreviver no nosso ramo é aliar credibilidade com qualidade. Não tenho nenhuma dúvida que o jornal impresso tem mais credibilidade. O leitor sabe quem são as pessoas que estão por trás daquela notícia.
P: Você consegue enxergar daqui a 10 anos o DIÁRIO DO PARÁ apenas na versão on-line?
R: Não. Acho que a disputa será bem acirrada entre o papel e o virtual, mas não acredito que uma plataforma seja totalmente transferida para outra. A prova disso é que estamos crescendo muito nos últimos anos segundo o Ibope.
P: Como você vê hoje o capital humano do jornal a partir da Escola Diário de Jornalismo? Qual o perfil do profissional que você deseja que trabalhe aqui?
R: Quero um profissional inquieto e ambicioso na busca pela informação de qualidade. A Escola Diário foi uma iniciativa muito feliz na medida em que tínhamos uma lacuna, uma distância entre os profissionais mais experientes e os que começavam a trabalhar na área e essa qualificação dada pela Escola é fundamental para formar esse profissional que queremos. Estamos investindo em profissionais que vão nos dar um retorno fantástico.
P: Já imaginou como o DIÁRIO vai estar daqui a 30 anos?
R: Olha, vocês me pegaram... Tenho algumas certezas: que o jornal não será nada parecido do que é hoje; é que vamos continuar líderes. Isso é um objetivo e uma meta de vida que persigo cotidianamente. E a base dessa liderança será muito trabalho, com um conteúdo de qualidade capaz de ser absorvido em qualquer plataforma. A busca da informação será a mesma daqui a 30 anos. Isso é intrínseco ao ser humano. É isso que me dá a certeza que vamos estar lá.
(Diário do Pará)
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