Plural. Essa é uma palavra adequada para sintetizar a personalidade de Edyr Augusto Proença. Inquietação poderia ser outra. Quem, no entanto, tem a oportunidade de conversar com Edyr dificilmente sente, de início, esse redemoinho interior. A fala é mansa, sem grandes eloquências. Um pouco acelerada, mas nunca fora de um padrão mínimo de entendimento. Quase didática. E sempre na dose certa de entusiasmo.
Mas é só começar a listar as atividades desenvolvidas por ele nas últimas décadas que se percebe a multiplicidade de gostos, gestos e afazeres de Edyr. Radialista, jornalista, publicitário, romancista, dramaturgo, blogueiro, comentarista bissexto de futebol, contista, poeta, cronista e até ator em raras ocasiões. Um homem do próprio tempo em que vive? É uma das possíveis definições. O fato é que, ao contrário do que costuma ocorrer com quem tenta fazer tudo ao mesmo tempo agora, Edyr consegue imprimir um toque de qualidade e um estilo peculiar em praticamente todas essas atividades.
Como radialista, esteve na linha de frente de pelo menos duas empreitadas marcantes na história do rádio contemporâneo. Nos anos 80, a ‘Cidade Morena’ e a ‘Belém FM’ foram pontas-de-lança de iniciativas hoje pouco comuns, a de rádios preocupadas com algo além das mesmas músicas, dos mesmos vícios e mesmos padrões impostos pela política do consumo de massa. A ‘Belém FM’, que Edyr assumiu depois de um convite de Elcione Barbalho, inovou ao abrir espaço significativo às bandas de rock e pop locais, com demo-tapes nem sempre de boa qualidade técnica, mas importantes para definir um cenário musical.
Herdeiro da contracultura dos anos 60 e 70, Edyr acompanhou - e ajudou a cristalizar - uma cena teatral com sotaque e personalidade paraense. ‘Foi Boto, Sinhá’, que inicialmente seria um musical influenciado pelo glam rock andrógino de David Bowie e companhia, arrombou a festa no teatro paraense junto a outros nomes e grupos que viriam a se tornar ícones em Belém. Atualmente, o espaço Cuíra, na ‘mal-afamada’ rua Riachuelo, é um dos poucos pontos de resistência de um teatro que ficou distante dos dois principais palcos da cidade, o Theatro da Paz e o Waldemar Henrique.
Na escrita, Edyr é ainda mais singular. Seus contos, crônicas e romances são um retrato de cores fortes de uma Belém distante do imaginário tradicional abordado pelos escritores locais. É uma Belém ácida, violenta, apressada, urbana, repleta de paixões, sexo e crimes. Algo como uma ‘Sin City’, de Frank Miller, transportada para o meio da Amazônia. A linguagem é sempre rápida, seca, sem excessos. Estilo levado também à publicidade.
Na poesia, deixa escapar ainda os resquícios das influências marginais, hippies, contraculturais. E nas crônicas persegue a ideia de uma Belém que poderia ser melhor do que é. “Não essa cidade escura e suja”, costuma dizer. A cabeça já não ostenta a farta cabeleira dos anos de juventude. O ‘espírito’, na falta de outra palavra mais adequada, no entanto, continua jovial. É o que lhe faz entrar, por exemplo, em uma coletânea nacional de contos identificada com a geração 90. Logo ele, que vem de portos mais distantes.
(Diário do Pará)
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