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O consagrado mundialmente, Sebastião Tapajós

O celular toca quatro vezes antes de cair na caixa-postal. Na recepção do hotel, o pedido é para que se aguarde uns segundos. Não demora e o hóspede atende. São nove horas da manhã. “Eu estava tocando um pouco”, desculpa-se o homem, a voz um pouco arranha

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O celular toca quatro vezes antes de cair na caixa-postal. Na recepção do hotel, o pedido é para que se aguarde uns segundos. Não demora e o hóspede atende. São nove horas da manhã. “Eu estava tocando um pouco”, desculpa-se o homem, a voz um pouco arranhada, talvez pela secura no clima da cidade. Brasília costuma ser assim. E era na capital federal que Sebastião Tapajós esperava o tempo passar para mais uma apresentação. Impossível contabilizar, tantos anos passados, quantos concertos já foram feitos por Tapajós, talvez o mais conhecido violonista paraense.

“Comecei com essa história de viajar com 16 anos, sempre divulgando a música paraense”, diz o violonista. “E aí as coisas foram acontecendo”, complementa, minimizando o fato de ser considerado um dos maiores músicos do mundo.

Nascido em Santarém em 16 de abril de 1944, Sebastião Tapajós começou ainda criança a estudar violão. Em 1964, foi estudar na Europa. Formou-se pelo Conservatório Nacional de Música de Lisboa, em Portugal. Na Espanha, estudou guitarra com nomes importantes como Emilio Pujol e cursou o Instituto de Cultura Hispânica. Realizou recitais nesses dois países. Quando voltou ao Brasil, recebeu a cadeira de violão clássico do Conservatório Carlos Gomes de Belém, onde lecionou até julho de 1967.

Quatro anos antes havia lançado o primeiro disco, ‘Apresentando Sebastião Tapajós e seu conjunto’, disco de 1963. A partir daí a vida de Sebastião Tapajós foi um sem fim de viagens e concertos. “Já toquei em tudo que é tipo de lugar que nem sei falar”, diz. Por conta disso, perdeu as contas de quantas vezes já trocou de passaporte.

O que chama a atenção, além da técnica refinada de Sebastião Tapajós, capaz de encantar públicos distintos como plateias japonesas e alemãs, é que o violão tocado por ele, mesmo sendo lustrado em conservatórios europeus, nunca deixou de ter um jeito peculiar. Um sotaque amazônico. “Tenho um depoimento sobre isso do Baden Powell (violonista). Ele diz que há um sotaque amazônico no modo como tocamos aqui. Tem uma caboclice diferente”, atesta Tapajós. Esse jeito diferente de tocar já se manifestou desde os primeiros acordes. “Eu ficava mexendo num violão velho meio empenado do meu pai. Ele viu e me comprou um que prestava. Não parei mais, fiquei viciado. A qualquer momento que posso estou tocando”, diz.

Da beira do rio Tapajós ao Rio de Janeiro, a mudança se deu basicamente a partir de 1972. Depois da primeira excursão à Alemanha, os convites também passaram a ser maiores. “Foi quando surgiram contatos e mais contatos”, lembra.

Tapajós é hoje um músico consagrado na Europa. Está sempre fazendo turnês na Europa. São pelo menos duas turnês internacionais todo ano. Ao longo da carreira, já lançou mais de cinquenta discos. “A música é um dom. Talvez seja o meu. É uma benção”, diz. Mas ainda há um tempo para olhar ao lado. Sebastião Tapajós costuma pensar no rio que lhe deu o nome artístico. Não se conforma com a ideia de construção de hidrelétricas ao longo dele. “O ser humano não devia mexer com a natureza. A gente deveria respeitar as coisas que Deus colocou na terra. Tudo que existe é maior que nós”. Recado dado.

(Diário do Pará)

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