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Trajetória ao ritmo de guitarradas

Especialistas em música dizem que há apenas duas formas originais de se tocar guitarra no Brasil. A baiana e a guitarrada paraense. No jeito peculiar de executar o instrumento no Pará, há o dedo - literalmente falando - de Mestre Vieira, para muitos, o au

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Especialistas em música dizem que há apenas duas formas originais de se tocar guitarra no Brasil. A baiana e a guitarrada paraense. No jeito peculiar de executar o instrumento no Pará, há o dedo - literalmente falando - de Mestre Vieira, para muitos, o autêntico criador da guitarrada.

Joaquim de Lima Vieira nasceu em Barcarena, região do Baixo Tocantins, no Pará e deu os primeiros acordes aos cinco anos de idade e com 15, munido de um bandolim, ganhou um festival de choro tradicional promovido pela Rádio Clube do Pará. Vale ressaltar que ele aprendeu a tocar assistindo às escondidas as aulas de banjo de seu irmão. Era o pontapé inicial do ritmo que revolucionaria a música feita no Pará ao fazer a fusão da guitarrada, elementos do choro, da jovem guarda, do merengue e outros ritmos.

Aos dez anos, montou com irmãos e primos um conjunto regional. Em visita a Belém, Vieira encontrou um bandolim para vender numa loja, porém, como não podia comprar o instrumento, convenceu o irmão, um excelente marceneiro, a fazer uma réplica. Assim, aos 14 anos aprendeu a tocar o bandolim e foi convidado a participar de um concurso na Rádio Clube do Pará, vencendo com nota máxima com o choro “Te agasalho”, uma das primeiras composições de Vieira. Na mesma época em que ganhou o título, Vieira foi convidado a registrar o choro campeão em um moderno disco de 78 rotações. Gravou-se apenas uma e, por ironia do destino, disco caiu e quebrou. Vieira chorou por oito dias.

A carreira seguiu e o grupo Regional continuou a tocar, junto com os grupos “Martelo de Ouro”, “Los Crioulos” e a “Banda do Teixeira”. Por um longo período, ele cultivou outro sonho: o de ser técnico em operação de rádio. Trabalhou por uns tempos para um amigo chamado Peixoto, fazendo alegorias para a escola de samba Boêmios da Campina. Surge neste período o rádio à pilha e Vieira, tempos depois, ganha um de presente de uma senhora que chegou do Rio de Janeiro. Logo depois, Peixoto lhe dá material e equipamento e ele começa a montar e consertar
rádios.

O chamado da música era mais forte e Vieira forma outro grupo “Vieira e seu conjunto”. Havia aprendido a tocar guitarra, com influência do choro e outros estilos, como o “foxtrot”. Só havia um problema – não possuía um amplificador e também não tinha acesso a energia elétrica. Não se avexou. Montou um amplificador a pilha, que alimentava em baterias de automóvel.

Vieira acabou por gravar o clássico e pioneiro disco da carreira. “Lambada das Quebradas”, de 1978, foi gravado em surpreendente dois canais. Foram vendidas 80 mil cópias e seguiu-se com “Lambada das Quebradas volume 2” - outro sucesso, destaque para as músicas “Melô do Bode” e “Lambada do Rei”. Foram vendidas 230 mil cópias do disco. Em 2003, já quase esquecido, Vieira vê a música que criou retornar em grande estilo e reconhecimento, com o projeto Mestres da Guitarrada, idealizado pelo guitarrista Pio Lobato, com apoio da Funtelpa. A partir daí, a música de Mestre Vieira ultrapassou os solos brasileiros e chegou à Suíça, França, Alemanha e Inglaterra. A partir de 2004, Mestre Vieira passa a viajar pelo Brasil e alguns países do mundo. Mais recentemente ainda, foi homenageado com um documentário, dirigido pela jornalista Luciana Medeiros. O menino do interior não sonhou ir tão longe assim.

(Diário do Pará)

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