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Linguajar caboclo que contagia e faz sorrir

Aos 64 anos, Natal Silva anda apaixonada. Quase suspira pelos cantos, faz declarações de amor à toa. Até deixa de reparar nos defeitos do alvo da paixão. Há uns dois anos é assim. Quem arrebatou o coração da atriz é a ilha de Outeiro. Desde que começou a

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Aos 64 anos, Natal Silva anda apaixonada. Quase suspira pelos cantos, faz declarações de amor à toa. Até deixa de reparar nos defeitos do alvo da paixão. Há uns dois anos é assim. Quem arrebatou o coração da atriz é a ilha de Outeiro. Desde que começou a trabalhar como assessora de Cultura do distrito, Natal caiu de amores pelo lugar. “Tem um jeito de interior e eu adoro clima de interior”, diz ela, num banco de praça em frente à praia.

Natal é de riso fácil e humor a toda prova. Faz parte da história do teatro paraense. Guarda em casa preciosidades, como vídeos completos de espetáculos que ajudaram a moldar o fazer teatral na cidade, em épocas como a dos anos 80, repleta de peças polêmicas e intensas, mas sempre com grande resposta de público.

Durante muito tempo, a fala acaboclada de Natal Silva foi íntima dos telespectadores paraenses em diversos comerciais locais. Um feito para o Banpará, com a famosa frase ‘tá pensando que sou lesa?’ foi o ponto de partida.

“Tenho até hoje o texto desse comercial guardado”, diz ela. Natal havia estreado ‘Ver de Ver-o-Peso’, o ‘tour de force’ do Grupo Experiência. Em entrevista a uma rádio, falou como a personagem da peça. Do outro lado das ondas radiofônicas, o publicitário Pedro Galvão a ouviu e teve o estalo. ‘É isso’. Natal ri ao lembrar. “Depois ele ficou com receio se ia dar certo ou não”.

Cametaense com orgulho, Maria Natalina Silva nem pensava em ser atriz. Fazia balé. Um dia, depois da aula, ainda vestida de bailarina, acompanhou um amigo ator a um ensaio no Teatro da Paz. O espetáculo se chamava ‘A volta do camaleão alface, de Maria Clara Machado. “A gente tava conversando, quando chegou o diretor Fernando Neves, hoje na Bahia. Eu disse: ‘chegou teu diretor’. O Fernando me olhou e respondeu: ‘Diretor dele, não. Teu diretor’. Ele estava precisando de alguém que dançasse e me mandou fazer”.
Esse pode ser um resumo da entrada cênica de Natal. A ‘Gata Florípedes’, do espetáculo de Maria Clara Machado pode ser um passaporte de entrada. Mas Natal lembra que foi bandeirante e que lá havia um grupo de teatro chamado ‘Telabor’. Natal fez a narração da história de ‘Drama de um hippie’, pecinha apresentada pelo grupo. “Tinha vergonha de ficar em frente ao palco”, lembra.

Uma coisa leva a outra. Depois da gata na peça do camaleão, Natal foi perdendo a casca. O diretor Cláudio Barradas a convidou para entrar no grupo de teatro da Universidade Federal do Pará. “Ele começou a me dar corda para eu entrar na escola de teatro”. Natal fez. Ficou cinco anos com Barradas. Viajou muito. Um dos sucessos foi ‘Cobra Norato’. Em 1978, Natal se formou pela Escola de Teatro da UFPA. A última peça feita com Barradas foi ‘Os mansos da terra’. “O diretor Geraldo Salles assistiu e me tomou do Cláudio”, ri.

O Grupo Experiência entraria na vida de Natal. Vieram sucessos como ‘Foi Boto, Sinhá’ e ‘A menina do rio Guamá’, com textos de Edyr Augusto. A segunda lotou sucessivamente o Teatro da Paz. “Uma noite deu até polícia, porque ficou gente de fora. A menina do rio Guamá desbancou o Ver de Ver-o-Peso”, lembra Natal.

Eram tempos em que o Teatro da Paz e o Teatro Waldemar Henrique tinham portas abertas aos grupos paraenses. “O WH era uma casa. Hoje vejo como se você tivesse a sua casa e de repente te tomassem isso, como se não tivéssemos mais esse local. É assim que eu vejo. Às vezes eu passo, olho e não me sinto mais íntima do Waldemar Henrique”, lamenta.

Natal diz que o linguajar popular, de partes do estado que parecem querer esquecer as próprias raízes, já se tornou conhecido até no Japão. Força da arte, que rompe fronteiras. A atriz está envolvida com a consolidação de um grupo cultural no Outeiro. A paisagem a fascina.

Um casal de namorados a observa posar para as fotos. ‘Estou na ilha de Cara...tateua’, diz. E cai na risada.

(Diário do Pará)

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