Leitor compulsivo, o senador Jader Barbalho, 67, é do tipo que começa e termina vários livros ao mesmo tempo, cada um com um estilo completamente diferente. Por isso não é fácil defini-lo a partir da leitura do momento. Nas últimas semanas, por exemplo, as atenções eram divididas entre a releitura de “Marcha do Amanhecer”, escrito por um de seus ídolos na política: Juscelino Kubitschek, e do delicado romance “O Homem Sentimental”. Escrito pelo espanhol Javier Marías, o livro fala de amor e sonhos em transformação.
Sonho e transformação marcaram a vida desse paraense que é considerado, mesmo pelos adversários, como a liderança política mais longeva da história recente do Estado. São quatro décadas de uma vida pública movimentada e sempre sob holofotes.
Um dos pontos altos dessa história, sem dúvida, foi a eleição para governador em 1982. Ainda sob o governo militar, Jader conseguiu reunir os opositores da ditadura e foi eleito governador em um momento em que o País respirava, como nunca, os ares de mudança. “Foi um momento de alegria por estar chegando ali pelo voto popular depois de tanto tempo, mas sabia da imensa responsabilidade”, diz.
Era o início da redemocratização do País e foi em função daquela eleição que surgiu a ideia de fundar um novo jornal no Estado. Surgiu assim o DIÁRIO DO PARÁ, como um veículo de oposição. “Havia a necessidade de uma alternativa porque não tínhamos, nos veículos que existiam, qualquer espaço”, conta. A campanha acabou e o jornal sobreviveu, se profissionalizou e se firmou no mercado. “Ao final, tenho muito orgulho de termos implantado o jornal. Imagine o que seria da sociedade paraense se tivéssemos só um jornal. Como seria a opinião pública deste Estado nas mãos de um monopólio?”
Jader já foi vereador, deputado estadual, governador por dois mandatos, ministro e ainda saboreia o cargo assumido no Senado no ano passado, após uma campanha marcada por disputas judiciais. A candidatura foi impugnada por ter renunciado ao mandato em 2002. “Só a grande amizade que o povo do Pará tem comigo justifica que eu tenha tido 1,8 milhão de votos, mesmo com as notícias de que não adiantaria votar em mim que não
valeria”.
Cabo eleitoral disputado entre os aliados do PMDB, partido que preside no Estado, Jader está em plena campanha eleitoral. Tem frequentado palanques por todo o Estado e ri da pergunta sobre uma possível aposentadoria. “Estão querendo que eu me aposente, é?”. Admite, contudo, que não pensou ainda em uma nova disputa após deixar o Senado. O mandato só termina daqui a seis anos. “É um prazo longo”.
Famoso pela capacidade de articulação política, parece nunca perder a fleuma, mesmo diante das críticas mais contundentes, outra característica que até os adversários reconhecem. “O homem público tem que se acostumar com o contraditório. É preciso ter educação democrática e eu não tenho nenhuma vocação para a ditadura”. Um dos poucos episódios em que perdeu a calma foi no embate com o então senador Antonio Carlos Magalhães em uma briga que acabou levando os dois à renúncia. Jader admite que naquele momento se
excedeu.
A estreia na vida pública foi no antigo MDB, sigla que reunia os adversários do regime militar e que deu origem ao PMDB. A primeira eleição foi em 1966, quando tinha apenas 22 anos. Hoje, é um dos poucos políticos da geração dele ainda na ativa “Na minha vida, entrei em campo e joguei e claro que entrei em bolas divididas. Tenho orgulho da minha carreira política e tenho grande vaidade da minha liderança”, declara. Em tom de brincadeira, costuma dizer que a única frustração que carrega é a de não ter descoberto a cura para dor de cotovelo, num claro recado aos adversários.
Pai de Jader Filho, Helder, Giovanna e Daniel - o caçula de dez anos –, é capaz de passar horas falando dos filhos. Nessas ocasiões comenta sobre os livros que estão lendo e sobre os debates que costumam ter. Quando liga para Daniel, repete a mesma adivinhação. “Pergunto se ele sabe quem está falando, e ele sempre responde que é seu melhor amigo”.
Ao final da entrevista, definiu-se como um homem feliz. “Estou conciliado comigo mesmo”.
(Diário do Pará))
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