Numa das paredes da sala falsamente dividida em duas na casa do jornalista Lúcio Flávio Pinto, o quadro pequeno chama a atenção dos mais atentos. Veem-se crateras causadas por atividades minerais, ao fundo a floresta apenas com o tronco de árvores, mais à frente um caboclo sendo alvejado por um pistoleiro. Indiferentes a esse cenário, um botânico colhe uma planta, um arqueólogo limpa um ossinho e outro pesquisador persegue uma borboleta.
De certa forma, o quadro resume o próprio pensamento crítico que Lúcio Flávio tem a respeito dos que pensam e (re) constroem a Amazônia.
Olhar o quadro talvez não faça parte das atividades diárias de Lúcio Flávio, mas refletir sobre o significado do que ele contém, sim. Há décadas esse tem sido o cotidiano do jornalista, prestes a ser homenageado em outubro com o prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo, pelo “conjunto da obra”, se for possível dizer dessa forma. Como sempre, Lúcio Flávio pretende falar de improviso quando for “discursar”. “Eu falo com o coração, mas falo de assuntos que lido permanentemente”, diz.
A mesa de trabalho está lotada de papéis. Edições do Jornal Pessoal, revistas, livros, relatórios. Calhamaços que encontraram novo abrigo, uma mesa em formato de quase meia-lua, um presente recebido há pouco tempo. Em frente a esse móvel, Lúcio passa algumas horas do dia. Antes, cumpre religiosamente uma rotina espartana. Das 5h30 às 6h30, o jornalista nada. Utiliza a técnica ensinada por um mestre japonês que sincroniza as braçadas lentas à respiração. “Eu queria fazer ioga, mas fui desaconselhado. Esse modo, que não usa a boca para respirar ao nadar, é adequado à minha idade”, diz Lúcio.
NATAÇÃO
A prática foi iniciada em 1991. Lúcio passou seis meses engolindo água, nadando de forma errada. Até aprender. Isso é algo que Lúcio Flávio insiste em continuar a fazer. O aprendizado é diário. Nessa rotina, a leitura dos jornais vem a seguir. Compra de jornaleiros de rua, coisa que, segundo ele, quase só existe ainda em Belém. “Tenho uma relação de compadrio com os jornaleiros”, diz.
O giro pelas principais notícias ou ausência de algumas delas estabelece possibilidades de pautas que Lúcio se propõe a cumprir. É uma rotina que depende dos processos que cercam o jornalista. “É por isso que o jornal sempre sai com 30% a 40% abaixo das minhas expectativas”, admite. Para quem cultiva o perfeccionismo, é sempre uma decepção íntima.
A natação com requintes iogues ajuda Lúcio Flávio a resistir. Desde 1984 não tira férias. Quando consultados, os médicos são taxativos: “Para”. “Não dá”, diz o jornalista. Os processos mais antigos datam de 1992, vindos da família Maiorana. “Não posso parar porque é uma questão de honra manter o jornal. Se não eles podem pensar que venceram”.
O jornal teve aumento de páginas, que passaram a ser 16. E um realinhamento de preços, algo que não ocorria há uns 15 anos. Ouviu reclamações. Segue adiante. Lúcio não se furta ao debate. Ao contrário, nutre-se dele. Da boa discussão, dos bons argumentos.
Aprende e ensina com eles. Critica o atual estágio do que poderia ser o pensamento intelectual brasileiro. Enxerga quase um deserto à frente. A aridez nos debates o assusta. Não o desanima, no entanto. “Os cientistas deveriam estar na ponta, mas eles não têm crédito mais porque estão na retaguarda. A ciência precisa fazer, não só ensinar”.
Nas eleições municipais, já se definiu pelo voto nulo. Vai acompanhar, por dever de ofício, os programas e debates na TV. Para vereador, diz que vai às ruas com uma lamparina na mão, à cata de um nome.
O que Lúcio Flávio gostaria mesmo é de escrever mais sobre cultura. Fazer críticas de livros, por exemplo. Tem ido cada vez menos ao cinema. Quando quer se desintoxicar de tantos efeitos especiais, assiste a um antigo Charles Chaplin. E essa pode ser uma boa imagem. Carlitos caminhando solitário em uma rua deserta, cabeça erguida, altiva, mesmo sem muitas posses, olhando para a frente. Como Lúcio, talvez.
(Diário do Pará)
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