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A arte que extrapolou as fronteiras paraenses

“Eu tô meio esquartejado”. E não poderia ser diferente com a vida entre Campo Grande, São Paulo e Belém. Os pedaços, Emmanuel Nassar remenda a cada nova chegada e partida. Assim, o artista plástico vai tecendo a carreira e os laços que o ligam ao trabalho

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“Eu tô meio esquartejado”. E não poderia ser diferente com a vida entre Campo Grande, São Paulo e Belém. Os pedaços, Emmanuel Nassar remenda a cada nova chegada e partida. Assim, o artista plástico vai tecendo a carreira e os laços que o ligam ao trabalho, à família e aos afetos. É uma forma de reinventar o cotidiano e garantir a própria existência.

Se fosse um tecido, a trajetória de Emmanuel seria uma colcha de retalhos que ao longo do tempo ele foi costurando com novos caminhos e possibilidades. Alterando escolhas, consertando equívocos, acrescentando linhas. Remendando a vida para seguir em frente. Foi sempre assim, talvez.

Por exclusão, ele optou por cursar Engenharia na Universidade Federal do Pará em 1969. Seis meses depois viajou com um primo pela Europa. Voltou de lá com a certeza de que partiria para outros destinos. “Naquela época, eu não sabia, mas hoje é muito claro pra mim, essa viagem modificou a minha vida”, diz. Nassar acabou indo parar em Arquitetura no ano seguinte e parecia ter encontrado o lugar no mundo, ou ao menos, uma parte dele. “Fui meio na intuição e nas primeiras aulas, eu já sabia que não precisaria estudar pra passar. Eu era um dos melhores alunos da minha turma. A Dina Oliveira [arquiteta e artista plástica] era da minha sala”, lembra.

O ano de 1970 reservaria ainda outras surpresas. Ele conseguiu estágio numa agência de publicidade para trabalhar. Percebeu logo quem mandava no jogo. “Era o redator publicitário, era ele quem criava, o diretor de criação apenas executava as ideias. E eu queria criar”, afirma. O estágio virou emprego rapidamente e com dinheiro que ganhava como redator comprou o primeiro carro e alugou um apartamento. “Meu salário era uma fábula, era algo que seria tipo uns 4 ou 5 mil reais hoje. E eu não fazia ideia que eu poderia valer aquilo tudo. Foi um ano de muita euforia. Eu tinha descoberto a minha mina de ouro”, recorda. É desse tempo a primeira exposição coletiva “Tempo de Resistência I, II e III”, inspirada em histórias em quadrinhos, umas das várias linguagens que ele experimentaria no decorrer da carreira.

Durante dez anos, a publicidade e as artes plásticas precisaram se entender. E não foi uma convivência muito fácil. “Eu não gostava de nada que eu produzia, eu rasgava, destruía, parece que não tinha personalidade, mesmo que as pessoas gostassem. Eu via como habilidade, não como uma identidade”, acredita.

Em 79, as obras que escaparam do limbo deram origem à primeira exposição individual de Nassar, realizada na Galeria Theodoro Braga, em Belém, com 35 desenhos em grafite. Em 80, superada a crise, começa a guinada definitiva na carreira. Ele apresenta as séries “Torsos” e “Corpos”, com desenhos repletos de “imperfeições”, com reparos, consertos e remendos, na melhor expressão de Emmanuel Nassar. “A vida é assim, você vai acrescentando coisas, que podem ser consertadas, remendadas, recuperadas”, acredita.

Nassar vive agora uma fase de recuperar a memória do que já fez e produziu. Prêmios, mostras, bienais, exposições, conquistas e reconhecimentos. Retalhos de uma vida que precisava ser organizada, catalogada. E boa parte dela está documentada num livro-catálogo, reunindo quase todos os trabalhos do artista. “Parece que fiz um balanço geral”, avalia.

Há outras ideias também na mente sempre em ebulição de Emmanuel Nassar. “Mesmo quando não trabalho, tem algo maquinando”. Quando o artista “descansa”, ele vai explorar outras formas de arte. “Adoro cinema. Tenho todos os filmes com a Audrey Hepburn. Gosto muito do Woody Allen. Agora descobri um diretor chamado Carl Theodor Dreyer [diretor de filmes como A paixão de Joana D’Arc, de 1928]. Perto dele Bergman, Lars Von Trier seriam aprendizes”, polemiza.

Aos 63 anos, o artista plástico de Capanema ultrapassou a fronteira local e alcançou o reconhecimento do país. O prestígio ainda não chegou à escala internacional. Mesmo com as incursões em bienais e exposições fora do Brasil. “O que traz prestígio internacional é ter obras em acervos de museus importantes. E eu não estou neles”, constata. Mas ele não se abala com isso. Está satisfeito com o que já conquistou.

Os retalhos dessa etapa, quem sabe, podem ser costurados no futuro. Os laços do presente, no entanto, são tecidos com outras linhas e horizontes. Campo Grande é o endereço de uma história ainda por se resolver. São Paulo continua como a fixa morada. Belém, talvez, um dia volte a ser a residência definitiva. Mesmo que para Nassar as duas cidades estejam bem mais próximas. Não à toa, ele sempre retorna às origens. “São Paulo, pra mim, é apenas um bairro afastado de Belém”.

(Diário do Pará)

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