Foi com R$ 300 juntados da mesada dos pais que a então aluna de arquitetura Priscilla Brasil decidiu filmar aquele que seria seu primeiro trabalho como diretora, o documentário “As Filhas da Chiquita”, lançado em 2005. “Aprendi a fazer filme na marra. Não tinha experiência, não havia nem pisado em um set de filmagem. Ninguém queria me dar apoio”,
relembra.
O fato de ser uma diretora de primeira viagem revelou-se o menor de seus problemas nesse projeto. O longa toca em um tema controverso: a Festa da Chiquita. Criada na década de 1970, a festa é considerada o evento símbolo do orgulho gay em Belém, realizada às vésperas da procissão religiosa do Círio de Nazaré.
“Fiquei de queixo caído ao ver a rua sendo tomada por drag queens e travestis logo depois da passagem da imagem da santa na procissão. Me interessei por aquela estranha mistura do sagrado e profano. Soube de cara que ali tinha uma ótima história para contar, apesar de ter certeza de que ninguém além de mim ia querer fazê-lo”,
afirma.
Como Priscilla aponta, não fosse a facilidade do vídeo digital, sua carreira talvez não deslanchasse. O baixo custo dos equipamentos e a facilidade de manuseio possibilitaram que pudesse arriscar. “Se o vídeo digital não existisse, minha carreira não existiria também. Não dá para filmar em película sem dinheiro”, atesta.
A partir daí, o desafio passou a estimular a diretora. O seu trabalho virou sinônimo de projetos audiovisuais com um pé no inusitado, como o clipe “Xirley” da cantora Gaby Amarantos. Filmado em plano sequência, ou seja, em apenas uma tomada, o vídeo envolveu a coordenação de 70 atores que se deslocavam de forma sincronizada por quatro locações. Tudo isso para contar em pouco mais de três minutos a meteórica ascensão da cantora de tecnomelody, indo da época das aparelhagens da periferia até os shows em programa de televisão. “Alguém falou que não dá para fazer, eu me coço para provar o contrário”, define Priscilla.
Na opinião do crítico de cinema Marco Antônio Moreira, o audiovisual atualmente passa por um período de profissionalização. “Talento não é problema para a gente. Já temos um polo diverso, incluindo até mesmo trabalhos de animação como os do Cássio Tavernard, do Andrei Miralha. Inclusive, foi inaugurado há pouco tempo um curso de Cinema, na UFPA (Universidade Federal do Pará). A tecnologia democratizou a produção audiovisual no Estado. Ainda está longe do ideal, mas nunca se produziu tanto quanto hoje”, avalia.
De acordo com o especialista, a boa fase vem deixar botar de lado a estagnação que o setor vinha de certa forma experimentando nas últimas três décadas. Houve exceções, é claro. A década de 1980 foi marcada pelo movimento superoitista e depois a entrada do formato VHS, fazendo com que aumentasse o número de produções alternativas. Mas com a extinção da Embrafilme em 1990, durante o governo Collor, provocou uma recessão no cinema nacional, com a produção caindo a quase zero e assim se mantendo durante anos.
“Nos anos 80, o cinema feito era basicamente amador. Mas foi nessa época que se formou um núcleo de produção de filmes e cineastas que veio desembocar nisso que estamos vivendo hoje”, compara o cineasta e jornalista Januário Guedes, 72 anos.
Em 1984, Januário iniciou a sua carreira com o curta “Ver-o-Peso”, codirigido lado de Sônia Freitas e Peter Roland. O documentário narra o cotidiano do maior mercado a céu aberto do Pará, tornando-se atualmente um dos raros registros do período.
“Até então a região amazônica era retratada por um olhar estrangeiro, de fora. Minha geração foi uma das primeiras mostrar a nossa região, nossos problemas,m sob a ótica de alguém daqui. É uma espécie de olhar muito particular, pé no chão. Ainda percebo isso muito vivo na produção atual. Quase como se fosse para contrastar a visão exótica que geralmente fazem daqui”, reflete.
(Diário do Pará)
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