Uma visão particular dos mitos amazônicos foi o que motivou o diretor Fernando Segtowick a realizar o filme “Matinta”, de 2010. O curta é uma releitura da lenda da Matinta Perera, a “bruxa” da floresta que assombra sua vitimas em troca de tabaco. Mas, na versão de Segtowick, o conto de fadas é subvertido com uma alta dose de sensualidade oferecida pela atriz Dira Paes, que assume o papel principal.
“‘Matinta’ é o projeto de maior repercussão da minha carreira. E ele chama atenção justamente por essa pegada amazônica. Eu não faço esse juízo de valor, não acho que o cinema paraense é melhor ou pior por falar da região. Meus filmes me levam aonde minha história me leva. Não deve haver fórmula”, conta o diretor de 40 anos.
Fernando iniciou sua trajetória em 2001, com o curta “Dias”, com uma história centrada no aspecto urbano de Belém. O filme - ao lado de “Mulheres Choradeiras”, de Jorane Castro; “Chama Verequete”, de Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira; e “Açaí com Jabá”, de Alan Rodrigues, Marcos Daibes e Walerio Duarte – marcou a retomada da produção local, com o surgimento das primeiras leis de incentivo municipal de Belém e do Estado.
“O incentivo governamental ainda é essencial para o audiovisual. Se não tiver mais dinheiro circulando, ainda vai demorar para as coisas tomarem corpo por aqui. Por mais que a tecnologia tenha cortado custos, continua muito caro fazer um filme. Falta ainda a criação de um polo produtor, que mantenha os profissionais aqui na região. Toda vez que me meto numa produção, tenho que começar do zero, ensinando o be-a-bá para parte da equipe”, ressalva.
É assim, esbanjando criatividade para produzir ideias e ultrapassar obstáculos, que o cinema paraense tenta se estabelecer no século XXI. Para divulgar seu novo curta, “Juliana contra o Jambeiro do Diabo pelo coração de João Batista”, Roger Elarrat, 31 anos, resolveu meter a cara e viajar até o outro lado do mundo para participar do Festival de Cannes deste ano. Selecionado para uma das mostras paralelas, ele teve que se endividar para pagar passagem e estadia. Valeu a pena, garante o diretor. “As pessoas vinham comentar a quantidade de trabalho, de detalhes despendidos no filme. Como o mercado internacional encara o curta como um mero cartão de visita, eles costumam a ser mais descartáveis nesse sentido”, explica.
O curta, com previsão de lançamento nacional para outubro, chamou atenção também por sua história peculiar, com os dois pés no realismo fantástico. “Jambeiro do Diabo” narra a história de João (Leocir Medeiros) em busca de sua alma, que acredita ter perdido para o diabo quando menino. O filme faz referencia aos coloridos festejos do Boi de Máscaras – tradicional manifestação da cultura popular de São Caetano.
O diretor - que carrega no currículo produções com histórias bem paraenses, como o documentário “Chupa-Chupa, a história que veio do céu” (2007) e a minissérie para televisão “Miguel Miguel”, baseada na obra do escritor paraense Haroldo Maranhão - avalia que o mercado de fora está ávido por histórias originais da região. “O mercado europeu é ávido por tudo que é diferente. Filmes estrangeiros têm uma grande abertura lá. Acho que devemos pegar essa mística da Amazônia e utilizar a nosso favor. É como um filme de gênero como o terror, o romance. Mas devemos subverter os clichês”, ensina o diretor.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar