Nesses últimos 30 anos, que correspondem aos primeiros 30 anos do DIÁRIO, a literatura paraense alcançou – como se vislumbrássemos naqueles quadros estatísticos em curvas ascendentes e descendentes – alguns de seus momentos mais altos, mas também assistiu à despedida de sua geração literária e intelectual mais brilhante.
O nosso romancista maior, Haroldo Maranhão (1927-2004), que estreou relativamente tarde em livro, publicou o melhor de sua obra de três décadas para cá, a começar por esse romance genial e genioso, um tributo à língua portuguesa que é O Tetraneto Del-Rei, exatamente de 1982 (o ano de nascimento do DIÁRIO), e que recebeu, com justiça literária e vernacular, o prêmio Guimarães Rosa. Em seguida vieram Os Anões (1983) e Rio de Raivas (1987), tão implacáveis quanto líricos (acredite se quiser, ou leia para se certificar) acerto de contas com sua cidade, e este que considero o maior dos romances já escritos por um paraense, o cume da nossa ficção, que é Cabelos no Coração (1991).
E não podemos deixar de citar As Peles Frias (1983), primorosa coletânea de contos; o infelizmente pouco conhecido Flauta de Bambu, também de 1983, cuja edição, modesta, suplica reedição à altura do sabor das crônicas ali reunidas. Em 1991, Haroldo emulou o santo de sua devoção, o mestre Machado de Assis, com Memorial do Fim, exemplar que, por minha vez, tive a honra de ter sido o primeiro a receber, e diretamente das mãos do meu mestre, que vem a ser o próprio Haroldo Maranhão, quando este abriu o pacote de livros que a editora mandara ao seu apartamento, no Rio de Janeiro, recém-saídos do prelo naquela tarde de agosto de 1991.
LIVROS UMBILICAIS
E não ficaria bem deixar de alertar o leitor para dois outros títulos do Haroldo que a Belém, umbilicais, se deixam ligar. Reporto-me a este íntimo desvendamento epistolar, de 1998, Querido Ivan:, cartas que, endereçadas ao irmão que morre, o Ivan Maranhão, crismam a cidade natal de ambos, berço que os embalou, desterro que os abrigou, exilados que não se vão, assistem ao próprio degredo do sótão da história, nos altos da residência que é o próprio jornal da família, a Folha do Norte. Dois anos depois, em 2000, com Pará, Capital: Belém – Memória & Pessoas & Coisas & Loisas da Cidade, Haroldo nos lega essa antologia incontornável de dizeres e falares sobre a capital paraense.
Se Max Martins (1926-2009) já era um nome poeticamente consolidado em 1982, trazendo no bornal de magro versejador cinco livros de artesanal publicação, foi a partir daquele ano que o nosso poeta de unânime e sábio reconhecimento (e aqui contrariando a máxima rodrigueana) passou a merecer edições em que seus versos melhor se transportassem aos leitores. Tivemos Caminho de Marahu (1983) e 60/35 (1985), dois dos trabalhos mais representativos de sua caminhada poética, que culminou com o lançamento, em 1992, de Não Para Consolar, colheita de toda sua poesia até então nominada, livro de que tive o prazer de compartilhar, ou de testemunhá-lo, do embrião à luz, na condição de coordenador editorial da Cejup, sua casa publicadora. Aliás, Não para Consolar acolheu também o melhor texto de apresentação, até hoje, da poesia de Max, escrito, especialmente para essa edição, por Benedito Nunes.
Em Haroldo, Max e Bené, uma trinca de ases
Depois de Haroldo Maranhão e Max Martins - e bem a propósito - Benedito Nunes (1929-2011) é a terceira cabeça dessa trindade literária que alcançou seu zênite criativo nesses trinta anos em que o DIÁRIO cotidianamente chega às mãos dos leitores. A bibliografia beneditina se afortunou expressivamente nessas três décadas mais recentes, e seria até desnecessário destacar esta ou aquela obra num painel tão consistente, denso. Mas o próprio Benedito consideraria capital, em seus estudos, Passagem para o Poético: Filosofia e Poesia em Heidegger, de 1986. E eu ousaria mencionar dois outros, publicados nesse período, de meu particular agrado: O Tempo na Narrativa (1988) e Crivo de Papel (1999). Para não mencionar os notáveis livros póstumos que Victor Sales Pinheiro vem organizando a partir do vasto ensaísmo deixado por Nunes.
Eis então uma trinca de ases da inteligência paraense, mais particularmente, de sua ficção, de sua poesia, de sua ensaística. Três amigos que se desdobraram em afetos e cumplicidades de geração e cujas obras se alimentaram desse convívio intelectual, de mútua iluminação e até confrontação criativa. Claro, a Benedito, Haroldo e Max poderíamos somar os nomes de Mário Faustino, Benedicto Monteiro, Eidorfe Moreira, Bruno de Menezes, Francisco Paulo Mendes, que em algum momento, todos, foram contemporâneos. Mas ao período aqui delimitado, que vem de 1982 ao atual dia que se transcorre, assistimos ao apogeu desses três nomes que integram a mais brilhante geração intelectual paraense que conhecemos, e com os quais tivemos o privilégio de conviver, acompanhar-lhes a obra à medida que ia sendo publicada.
Luz desse legado cintila, alheia ao tempo
Como o leitor já deve ter percebido através das referências biográficas entre parêntesis apostas aos nomes desses três autores, também os perdemos em anos recentes. Mas a poderosa luz de seus legados literários (e existenciais) continua a iluminar os roteiros de nossas inteligências, inclusive para clarear nossas desinteligências, retirando-as das sombras, corrigindo-as.
Por necessidade de prazos editoriais, escrevo esse texto distante de Belém, na capital paulista, logo após o encerramento da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, sem acesso ao meu ambiente doméstico de livros em labirinto, mas em cujas trilhas eu saberia percorrer para achar referências que seriam indispensáveis a este artigo. Mas se essa falta se faz aqui presente em sua ausência bibliográfica, é a eventualidade dessa ocasião, pós-Bienal, que me faz atinar para a importância da Feira Pan-Amazônica do Livro, que, sem descurar das críticas que lhe são dirigidas, corretas muitas delas, ela, a nossa feira, é um importante esteio de divulgação do livro no Pará, e hoje, em comparecimento público, é uma das mais importantes feiras literárias do país, o que também honra a memória de Haroldo, Max e Benedito.
Eles, os três, já não estão fisicamente entre nós. Mas a presença literária da mais brilhante geração intelectual do Pará – de que Bené, Max e Haroldo são luminares – está mais do que nunca presente, viva, sempreviva. Em nomes, por exemplo, como Vicente Cecim e Age de Carvalho. Age, aliás, assinou com Max um livro a dois, A Fala Entre Parêntesis, no significativo ano de 1982, em que o DIÁRIO surge. Trinta anos depois, Age de Carvalho prossegue levando este simbólico bastão poético, que lhe foi passado pelo mestre, do qual ele se tornou não um discípulo, mas o continuador de uma voz poética com entonação própria. Assim como a literatura paraense, neste ano de 2012, projeta-se adiante, com novos nomes, renovando, reinventando(-se), à testa de quem deixou um farol que lhe dá vasta (re)visão, do passado, presente e futuro a se lançar.
(Diário do Pará)
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