Há algo que une Sebastião Tapajós, Madame Saatan, Delinquentes e Leila Pinheiro, para ficar em quatro exemplos simples. Apesar de tocarem estilos tão diferentes entre si, como música instrumental, heavy metal, bossa nova e punk, acabam sendo quase identificáveis como possuidores de um sotaque único, diferente. É o que costumam dizer plateias de São Paulo a Japão. O toque amazônico e, mais notadamente, paraense é o que os diferencia de similares.
Não é uma questão de ser melhor ou pior. A música paraense é diferente. Ponto. Para ilustrar com um imaginário regional, o grande rio do cancioneiro popular é irrigado por diversos pequenos braços, furos, igarapés musicais.
As raízes, no entanto, acabam tendo portos principais. Um deles é o abastecido pela musicalidade praieira e ribeirinha. É daí que surgem marujadas, carimbós, lundus, siriás, toadas e outros ritmos que ficaram conhecidos como cartão-postal musical do estado.
Esse interior representado dessa forma encontra eco nos portos de madeira, com casas de luzes opacas ou disfarçadas, de homens suados e de peitos nus, de mulheres amorenadas e de carnes fartas. Suores misturados ao som que vem de cais distantes, caribenhos.
ENTREGA
Eletrificados, buscam no riso fácil, na síncope dos passos requebrados em corpos apertados, uma síntese de diversão, sensualidade e entrega. São merengues, cúmbias, lambadas, zouks, fartamente usados como trilhas sonoras de noitadas periféricas, longe dos salões bem comportados.
Expandida por riquezas oriundas da borracha, a capital tenta fugir da ideia de ‘jungle’, de selva tropical amortizada por desejos e delírios de febre amorosa terçã. Tenta ser operística, jazzista, chorona, mais tarde bossanovista. Antropofagicamente vai misturando tudo, afinal pobreza e riqueza moram lado a lado na principal cidade paraense.
TV e rádio disseminaram a cultura de massa. Romântica e rebelde, a cidade se entregou ao rei e seus súditos. Descobriu o rock e a Jovem Guarda, fez protestos MPBísticos e quis a revolução. Sob luzes estroboscópicas dançou para não dançar. Depois, cansada, passou a cultivar a lembrança, a saudade. Poucos lugares no mundo cultivam tanto a nostalgia musical como o Pará da Região Metropolitana e do nordeste ribeirinho. E tudo vira dança.
Aparente simplicidade esconde fluidez e elegância
Do heavy metal e do pop inglês à frieza computadorizada alemã. Tudo é adaptado, tudo se transforma em ritmos próprios para o deslizar de corpos no salão. A música, no Pará, parece precisar passar pelos quadris antes de ser encaminhada a outras zonas do corpo ou do cérebro.
Os que tentaram complicar ou estabelecer padrões mais rígidos para essa música precisaram rever conceitos. O paraense dança, ri e faz galhofa de quase tudo. Quer decibéis ensurdecedores para celebrar a própria vida e os amigos. Quer atravessar salões com a parceira colada ao corpo ou rodopiando em passos que o mais criativo dos coreógrafos teria dificuldade de pensar ou executar.
Mas o que diferencia, nisso tudo, é que, no caso paraense, a música para dançar não significa música mais pobre de criatividade. Ela é rica em texturas, timbres e soluções harmônicas. Tem elegância e fluidez. A aparente simplicidade, em alguns casos, desafia lógicas cartesianas. Estabelece diferentes padrões de análise e linguagem. Acaba sendo fonte de inspiração para outros ritmos e estilos musicais que, cansados de experimentar os mesmos círculos concêntricos viciados, voltam o olhar para o que vem do Norte.
Piratas? Saqueadores? Oportunistas? Pesquisadores? O tempo separa e diferencia.
Há os que vêm e vão. A música, no entanto, há de permanecer.
O líquido que emerge de uma cuia de tacacá pode servir de parâmetro de comparação para uma definição do que é a música paraense. Há ali, fumegante, a mistura de coisas que parecem, à primeira vista, inconciliáveis. Uma goma espessa, um caldo amarelo que mal feito pode ser veneno, uma folha que amortece e um crustáceo muitas vezes salgado. Dito assim, não parece apetecível. Prove. Faça o mesmo com a música paraense. O sabor forte pode retrair num primeiro momento, mas, ao fim e ao cabo, vai se apresentar como único. E inesquecível.
(Diário do Pará)
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