Três décadas atrás, falar em meio ambiente era como imaginar uma viagem aos confins do universo para a grande imprensa. Apesar de na Europa, a ecologia tenha em 1982 começado a entrar na agenda de partidos políticos e da sociedade civil, o assunto não ganhava maiores espaços nas páginas de jornais. Em 2012, vinte anos depois da ECO-92, que obrigou veículos de comunicação a se adequar a uma nova realidade editorial, o clima é diferente. Ciência e Meio Ambiente, se ainda não possuem espaços mais nobres do que deveriam, já fazem parte do cotidiano de qualquer jornal.
“Acredito que nos últimos 30 anos, a sociedade brasileira começou a dar mais atenção para a importância da ciência e do meio ambiente. Hoje, claramente, qualquer cidadão brasileiro está mais preparado para conhecer e debater assuntos ligados ao meio ambiente e ciência do que estava 30 anos atrás”, diz o pesquisador José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente executivo, da ‘Conservação Internacional’, uma das mais importantes Organizações não Governamentais de maior relevância no mundo.
Segundo Cardoso, a explicação é simples. “Não é possível mais ficar distante do assunto. As pessoas descobriram duas coisas importantes. Primeiro, que um meio ambiente saudável e bem conservado é essencial para a economia de um país e a base para que as pessoas possam prosperar. Segundo, que nova economia global é uma economia baseada no conhecimento e investir em educação, ciência e tecnologia é aúnica forma de se posicionar de forma inteligente e audaz frente a esta nova situação”.
É o que pensa também o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade do Estado do Pará, Juarez Quaresma. “A sociedade passou a perceber muito mais a articulação necessária entre ciência, tecnologia e inovação. A partir de então, as pesquisas científicas vem se desenvolvendo numa articulação mais estreita com as necessidades das sociedades. O pesquisador deixou de ser um sujeito encastelado e cada vez mais se percebe a sua articulação com o setor produtivo e com os interesses da sociedade como um todo”, afirma.
Quaresma diz ainda que a ciência passou a se tornar uma arma poderosa para gerir e mesmo encontrar soluções para os diversos problemas e desafios na relação com os recursos naturais. “A consciência ecológica cobrou um posicionamento mais prático da ciência para a resolução desses problemas”, acredita.
Muito disso se deve ao papel da mídia. “De modo geral, podemos dizer que a cobertura pela mídia do tema ciência e meio ambiente teve um aumento exponencial nos últimos 30 anos. Basta contar o número de seções especializadas nos jornais diários, revistas especializadas, novos programas de rádio e televisão, blogs e revistas eletrônicas para constar este progresso. Isso não quer dizer que a situação atual está adequada”, afirma.
Mas há ressalvas. “Ainda usamos muito material produzido por agências internacionais e damos pouco valor ao que é produzido na ciência nacional e regional. Além disso, há claramente uma deficiência de formação de jornalistas especializados no setor, como existem, por exemplo, em economia, política e esportes. Acho que se conseguirmos trabalhar mais nessas duas frentes, assuntos de ciência e meio ambiente, vão passar a ficar cada vez mais interessantes e cada vez mais próximos das pessoas”, diz.
O pró-reitor da UEPA concorda. “A mídia tem um papel fundamental no que nós chamamos de divulgação científica. Através dela o conhecimento complexo publicado em revistas especializadas ganha uma dimensão mais global e se populariza. Quanto à questão ambiental a mídia tem um papel importantíssimo no que concerne ao estímulo de uma consciência ambiental”.
Há 30 anos, os temas recorrentes eram o desmatamento das florestas tropicais, a extinção de espécies, as promessas da biotecnologia e o surgimento e expansão de novas doenças. São temas que continuam recorrentes, mas hoje discute-se também os efeitos das mudanças climáticas, a busca por novas fontes de energia e a ecologia urbana, pois que, grande parte da população vive hoje nas cidades. “Todos esses temas têm múltiplas soluções e precisam ser tratados sempre de várias perspectivas, o que torna o jornalismo ambiental e científico responsável uma atividade essencial para a sociedade moderna”, diz Cardoso.
“Hoje, as linhas de pesquisa de empresas como a Embrapa, estão praticamente todas voltadas a encontrar sistemas de uso da terra e de produção que sejam ecoeficientes, causando o menor impacto ambiental possível e conservando recursos como solo, água e biodiversidade. Hoje, não estamos mais preocupados em aumentar somente a produção, mais sim a produtividade, visando principalmente utilizar técnicas eficientes para produzir mais nas áreas já alteradas da Amazônia”, diz o agrônomo Cláudio Carvalho.
Segundo ele, ainda é preciso avançar muito para modificar a mentalidade de parlamentares e governantes. “Para que não fiquem somente na retórica e cuidem de carrear recursos destinados à pesquisa para a região, pois somente assim mudaremos este estado de coisas”, avalia.
Carvalho acredita que o papel da Amazônia será fundamental. “Além de reservatório de água doce e biodiversidade, esta região apresenta um enorme potencial para a geração de inovações, porém, a meu ver, poderemos ter aqui a aquicultura mais produtiva e diversa do planeta, devido ao enorme potencial que ainda nem começamos a explorar.
O déficit de proteína de peixe no Brasil é enorme e somente considerando o nosso potencial de águas interiores e represadas dá para imaginar um futuro em que a carne de peixe seja tão disponível quanto a de frango, oferecendo a todos uma alimentação de qualidade e ao alcance de todos os bolsos”, diz.
(Diário do Pará)
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