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Os anos avançam, a tradição sobrevive

Faz tempo. Belém não era metrópole. A avenida Presidente Vargas não cheirava a fumaça de automóveis. O penteado do Neymar não era moda entre os paraenses. Seu Lucas Padilha, 77, lembra bem. Há 30 anos ele já fazia a cabeça de quem vivia pelas bandas de cá

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Faz tempo. Belém não era metrópole. A avenida Presidente Vargas não cheirava a fumaça de automóveis. O penteado do Neymar não era moda entre os paraenses. Seu Lucas Padilha, 77, lembra bem. Há 30 anos ele já fazia a cabeça de quem vivia pelas bandas de cá.

Começou jovem, aos 12, em Capanema, quando corrigia a falta de altura subindo em uma caixa. Mais tarde, foi tecer a carreira no bairro de Canudos de onde saiu para trabalhar no Central Hotel, tradicional ponto de encontro de intelectuais e políticos da época.

“Minha família toda era de barbeiros. Não tinha como fugir da profissão. Cresci cortando cabelo e fazendo barba. Naquela época o cliente não inventava muito. Sentava na cadeira pra fazer a meia cabeleira, o militar disfarçado ou o buscahair. Barbeiro de hoje em dia sabe nem o que é isso”, conta em tom de nostalgia um dos mais antigos barbeiros de Belém em referência aos ‘cortes’ de sucesso do período.

O avançar dos anos fez seu Lucas perceber que a diversidade nos novos modelos para os cabelos não seriam as únicas diferenças. Junto com a ‘modernidade’ vieram outros costumes. Se no passado, homens e mulheres não dividiam as mesmas tesouras, hoje seu Lucas precisa se acostumar. Ao lado das tradicionais cadeiras de barbearia que resistem ao tempo estão as mais diferentes nuances de esmaltes para as clientes que passaram a frequentar o lugar. Nem mesmo o letreiro da entrada do espaço onde atende atualmente foi poupado.

“Antes eu trabalhava em barbearia, hoje já é salão. Não tem jeito é homem e mulher junto. É o tal do unissex”, constata o senhor que mesmo aposentado continua no trabalho, fazendo questão de guardar no bolso a recordação dos tempos áureos do ofício. “Cortei cabelo de muita gente ilustre. Do ex prefeito Augusto Resende, do governador ‘Papudinho’ [Hélio Gueiros] e até do Jader [atual senador]. Ele gostava do corte proporcional, tudo baixinho. Mas teve uma vez que deixei careca. Ele tinha passado no vestibular. Entrou cabeludo, e saiu sem cabelo nenhum, mas bem feliz”, orgulha-se seu Lucas.

CLIENTES ILUSTRES

O amigo de profissão, Raimundo Campos, 81, também tem sua lista de clientes ‘famosos’. O fundador do DIÁRIO, Laércio Barbalho, o maestro Waldemar Henrique e o nordestino Luiz Gonzaga. “A primeira vez que eu fui atender um cliente eu senti aquele nervoso de pegar a tesoura. Acho que foi tipo uma estreia no teatro. Depois passou. Só de político uns dez barbeavam comigo”, orgulha-se. “Cliente é tudo igual, senta na cadeira e começa a falar de política, esporte, cinema. Tem espaço até pra uma fofoquinha. Como se fosse pescador. Isso não muda”, diverte-se, entre uma barbeada e outra, seu Raimundinho, como é mais conhecido entre os clientes.

O barbeiro que no início não gostava da profissão - sonhava ser jogador de futebol - chegou a abandonar o ofício para tornar-se comerciário por um ano, hoje não se vê fazendo outra coisa. “Vou ser barbeiro até o fim da vida. Não tenho porque ficar em casa sem fazer nada. Só acho uma pena hoje os clientes fazerem mais o cabelo que a barba”, diz.

Do terno muito bem feito à roupa mais limpa possível


Filho de barbeiro, seu Juracy Modesto preferiu não seguir o pai. Faltava-lhe paciência ao ofício. Habilidade com as tesouras, não. Alfaiate há mais de 60 anos, ele é preciso na hora do corte do tecido que em minutos ganha forma. Natural de Icoaraci, o experiente alfaiate aprendeu com o tio e o primo a única profissão de toda a vida. “Nunca vou deixar o ofício de lado. Vou morrer trabalhando. Tá certo que a visão já não é a mesma, mas óculos ajudam e dá para continuar”, garante Modesto, que é milimétrico. “A profissão nunca vai se acabar porque cada corpo é diferente do outro. Tem os ‘bem feitos’ de corpo, mas tem os desproporcionais. Para esses, a solução é o alfaiate. A gente deixa tudo arrumadinho”.

O trabalho é minucioso. Apesar da experiência, a fita métrica não é dispensada. Circunda o pescoço do alfaiate, como um colar, durante as cerca de dez horas de trabalho diário. Antes do corte, tudo é marcado com giz especial. Conhecido no mercado e com uma clientela fiel, nas últimas três décadas o que mais estranha Modesto é a diminuição da demanda. Mesmo assim, é otimista. “É uma profissão que a gente quase não vê mais aqui na região, mas não acredito na extinção. Sempre vai ter alguém com o corpo fora da proporção e vou poder garantir meu trabalho. Tenho muito orgulho do que faço”, diz.

AFETO, ÁGUA E SABÃO

Filha de uma geração mais jovem, Maria Lúcia Ferreira, beirando os 30 anos, rasga a linha do tempo revelando uma nova face das tradicionais lavadeiras. Longe da beira do rio e do cassetete de madeira que esmurrava os trajes sujos no passado, Lúcia trabalha em casa. Mas, mesmo com água encanada, máquina de lavar e ferro elétrico à disposição, ela não deixa de mostrar a força que vem dos braços. “Mesmo com máquina, faço questão de deixar uma roupinha de molho. Um esfregadinha à mão é importante. É um jeito de deixar mais alvinho. Não tem nada que mais me incomode que roupa encardida”.

Casada e com dois filhos, a jovem sempre se encarregou de manter impecáveis as roupas da própria família, mas encorajada pela sogra lavadeira resolveu transformar uma qualidade pessoal em ofício. Desde então, a atividade aos sábados se repete. Às 9h da manhã, o quintal espaçoso já está tomado por varais metodicamente organizados. “Eu gosto das minhas coisas todas organizadas. Não consigo ver nada pingando. As peças ficam todas separadas. É um trabalho duro, mas eu gosto”, resume com timidez a jovem lavadeira em meio ao vento que espalha o perfume da roupa limpinha.

(Diário do Pará)

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