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Tragédia do “Raimundo Farias” ainda está viva

Quem passa pela Avenida Visconde de Souza Franco, em Belém, se olhar para qualquer direção, pode ver fileiras de edifícios apontando para o céu. Nos arredores, mais prédios em construção confirmam o que não é difícil deduzir: a capital paraense, cada vez

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Quem passa pela Avenida Visconde de Souza Franco, em Belém, se olhar para qualquer direção, pode ver fileiras de edifícios apontando para o céu. Nos arredores, mais prédios em construção confirmam o que não é difícil deduzir: a capital paraense, cada vez mais, cresce para o alto. Em janeiro do ano passado, a cidade parou por conta de uma construção mal planejada quando os 34 andares do edifício “Real Class” vieram abaixo deixando uma pilha de ferro retorcido, concreto, pó e três mortes. No entanto, a queda do arranha-céu não foi o pior acidente da história da construção civil do Estado. Há 25 anos, uma brecha se abriria no horizonte ainda pouco explorado da Doca. No dia 13 de agosto de 1987, não suportando o próprio peso, o edifício “Raimundo Farias” tombava sobre si, meses antes de ser inaugurado. Uma tragédia anunciada que enterrou 39 pessoas cujos culpados nunca foram punidos.

IMPLOSÃO

O “Raimundo Farias” era um edifício projetado para possuir quatro andares, no entanto, devido à grande procura mais oito foram erguidos. Ele ficaria na rua Diogo Móia, quase na esquina da Doca. O final da tarde da quinta-feira se aproximava, os operários esperavam o som do apito que anunciaria o fim do expediente e César Costa, 55 anos, estava sob os 12 andares que implodiriam segundos depois. “Ele não desabou logo de uma vez. A gente ouviu o primeiro estalo e saiu correndo. Quem tava no térreo ainda conseguiu escapar, mas quem tava a partir do primeiro andar não teve tempo de fazer nada”, conta o eletricista, que escapou da morte com mais cinco funcionários, incluindo um engenheiro responsável.

Com o olhar vago e voz firme, César não precisa fazer muito esforço para relembrar o dia em que a morte, por muito pouco, não desabou sobre a sua cabeça. “Foi questão de segundos. Não dava pra perceber nada na nuvem de poeira. A gente saiu correndo em direção à Doca desesperado, com risco até de carro bater na gente. Às vezes eu fico até me perguntando como foi que eu escapei...”, reflete. O operário estava trabalhando na iluminação daquela que, talvez, tenha sido a cova do “Raimundo Farias”.

Na tentativa de salvar uma coluna comprometida, os engenheiros há dois dias teriam decidido firmar as fundações fazendo um buraco. “Eles cavaram uma vala de quatro por dois (metros) sem colocar um macaco, nem nada pra apoiar aquele pilar. Fizeram aquilo pra tentar salvar o prédio. Pra mim foi aquela vala que provocou o desabamento. Não tinha sustentação nenhuma”, opina César.

RACHADURAS

As rachaduras na estrutura dos pilares haviam sido informadas e mostradas aos engenheiros responsáveis semanas antes, no entanto, segundo o ex-funcionário, a situação era considerada normal pelos seus chefes. “A gente já tava na esperança de que um dia iria acontecer um negócio diferente. A gente tinha que trabalhar, então nós continuamos tocando o barco”. comenta o eletricista. Um barco que poderia ter naufragado no terreno lamacento da Doca com bem mais gente, caso as visitas dos proprietários não tivessem sido proibidas, segundo César. “Como eles iriam entregar os apartamentos em novembro, dezembro, muita gente ia fazer visita no final da tarde pra ver como tava a casa nova. Subiam muitas famílias, com mulheres e crianças também”, fala.

RESGATE

As operações de resgate nos escombros do edifício se arrastaram por dias, mobilizando o Corpo de Bombeiros, Cruz Vermelha, Defesa Civil, militares, voluntários e a imprensa. Além de 38 funcionários, uma criança de cinco anos que morava vizinha à obra também morreu soterrada. As lembranças dos amigos que perdeu no acidente permanecem tão vivas quanto o próprio acidente para César.

Teve um companheiro nosso que não conseguiram identificar. Ele enterrado como indigente e dado como desaparecido. Eu vejo reportagens, matérias, e até hoje eu fico muito emocionado. Lá se perderam maridos, amigos... ali nós eramos uma família. É triste, muito triste e dolorido”, conta o sobrevivente, que nunca recebeu qualquer apoio psicológico ou benefício da empresa. “Aquilo foi uma das piores coisas que me aconteceram negativamente. Até hoje eu morro de medo de subir em elevador. Quando fecham as portas, eu fico muito agoniado. Ainda não passou aquele medo. Hoje eu não pego mais trabalho em edifícios”, conclui o eletricista.

Na época do acidente, o engenheiro responsável teve a culpa excluída pelo Ministério Público. Os proprietários da construtora Marques Farias, dona do empreendimento, foram indiciados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. O Ministério Público Estadual solicitou que os mesmos respondessem processo por homicídio doloso, já que os proprietários teriam ciência do risco do prédio desabar. Uma briga na Justiça pedindo uma segunda perícia técnica fez o processo se arrastar por 10 anos, entre 1988 e 1998, até finalmente o crime prescrever sem que ninguém fosse condenado.

INDENIZAÇÃO

Na área civil, a construtora foi condenada a pagar, em 99, R$ 170 mil em indenizações, que deveriam ser divididas entre as 34 famílias que ajuizaram ações. A Justiça considerou que R$ 4.272 é o suficiente para que as famílias, muitas delas que dependiam dos salários dos operários para sobreviver, tivessem suas dores compensadas.

(Diário do Pará)

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