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Uma página triste na história do Pará

DESFECHO SANGRENTO O lugar é a PA -150, no trecho entre os municípios de Curionópolis e Eldorado dos Carajás, sul do Estado, na chamada Curva do “S”. A tarde se aproximava das cinco horas e o dia era 17 de abril de 1996. 155 policiais militares foram des

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DESFECHO SANGRENTO

O lugar é a PA -150, no trecho entre os municípios de Curionópolis e Eldorado dos Carajás, sul do Estado, na chamada Curva do “S”. A tarde se aproximava das cinco horas e o dia era 17 de abril de 1996. 155 policiais militares foram deslocados para a PA com a missão de desobstruir a via, interditada por cerca de 1.500 trabalhadores rurais que marchavam rumo a Belém. O objetivo da manifestação, organizada pelo MST, era pressionar o governo federal para que ocorresse a desapropriação de terras na PA-150, principalmente as da chamada fazenda “Macaxeira”, para fins de reforma agrária. O desfecho sangrento colocou o nome do Pará em noticiários do mundo inteiro. O caso ficou nacionalmente conhecido como “Massacre de Eldorado dos Carajás”. 16 anos depois, feridas continuam abertas em quem leva no corpo o estrago e as marcas que não conseguem apagar da mente.

MUDANÇA DE VIDA

Pedro Martins hoje mora em uma casa humilde, no bairro do Curió-Utinga, em Ananindeua. Em 96, ele tinha uma oficina de aparelhos de refrigeração próspera em Curionópolis. Naquele tempo, ganhava bem mais do que recebe dos bicos que faz atualmente e do benefício que recebe do Estado. Sua vida mudou quando, no dia do massacre, precisou levar um carregamento de gás de geladeira para Marabá. Confundido com um dos colonos sem-terra, Pedro trouxe da viagem lembranças doloridas e as sequelas de três tiros que lhe mudaram a vida.

“O pior foi ouvir o grito de socorro e as pessoas morrendo. A gente que é humano se sente muito ruim por não poder fazer nada”, relembra o sobrevivente. Pedro não podia fazer nada porque, momentos antes, havia levado um tiro de raspão na cabeça, outro que se alojou em seu braço direito e um terceiro na perna esquerda. “Eu não tenho raiva de policial nenhum. Eles (os policiais) tocaram a corneta e saíram atirando em todo mundo. Eu saí correndo, consegui me esconder em uma tronqueira. Eu sabia que se me vissem iam me matar”, relembra.

ESPERANÇA

O senhor humilde, adorado pelos vizinhos, leva consigo a esperança de dias melhores e a fé de que a história não se repita. “Eu só peço a Deus que o governo não permita mais nenhuma grosseria como essa. Não era pra acontecer aquilo”, conta. Sentado na cozinha de casa, com um livro nas mãos, Pedro aponta em uma das páginas as fotos de cadáveres desfigurados de colonos conhecidos para quem fazia trabalhos: “Esse senhor aqui gostava de contar uma piadinha, de dizer uns versinhos... Se foram”.

O livro se chama “Os Sobreviventes do Massacre de Eldorado dos Carajás”, escrito pelo advogado Walmir Brelaz. Ele luta em defesa dos que sobreviveram ao massacre desde 98. “O livro é tanto meu quanto deles, nós escrevemos juntos. A nossa preocupação era tentar não ser totalmente parcial. Ele é fruto de uma dissertação acadêmica minha, então nós resolvemos contar a história de maneira científica. Nós colocamos a versão das vítimas, dos policiais e do Ministério Público”. Todo o dinheiro arrecadado com a venda do livro é destinado ao tratamento de saúde dos sobreviventes.

FILMAGEM

Na obra, a história que não aparece na famosa filmagem do massacre é revelada. Laudos da perícia técnica e depoimentos de sobreviventes revelam que a ação durou bem mais que os poucos minutos que aparecem nas imagens internacionalmente conhecidas.

“Quem vê aquelas cenas pensa que os sem-terra começaram o ataque com foices, pedras e pedaços de pau. Depois a perícia revela que, antes de eles avançarem, já tinha um corpo no chão, que era do Amâncio”, conta Brelaz. A perícia dos corpos revelou ainda que, pelo menos, dez lavradores foram executados com tiros à queima roupa e sete colonos foram mortos com facões e objetos cortantes. “A operação foi desastrada. A polícia tinha que estar preparada para uma ação como essa. Trabalhadores foram assassinados horas depois que a rua já estava desobstruída. É por isso que nós defendemos a tese de que foi um massacre, um assassinato hostil, tiros foram dados a centímetros das vítimas”, comenta o advogado.

REPERCUSSÃO

A repercussão do episódio foi tão grande quanto o tamanho da sua violência. O ministro da Agricultura, Andrade Vieira, responsável pela reforma agrária no país, renuncia ao cargo. Dois dias depois, o governo federal envia tropas militares para o Estado com o objetivo de conter a violência crescente logo após o massacre. Fernando Henrique Cardoso, o então presidente, pede a prisão imediata dos culpados pelos assassinatos. Uma semana depois, o presidente anuncia a criação do Ministério da Reforma Agrária. Nelson Jobim, então Ministro da Justiça, vem a Belém acompanhar às investigações da polícia e do Judiciário paraense.

RECONHECIMENTO

Apesar de o governo federal agir rápido na época, responsáveis pelos assassinatos só foram presos este ano. No início de maio, o Tribunal de Justiça do Pará pediu a prisão do coronel da Polícia Militar Mário Colares Pantoja e do major José Maria Pereira de Oliveira. Ambos comandavam as duas tropas de policiais militares e foram sentenciados a 228 anos e 158 anos e quatro meses de prisão, respectivamente. Os dois estavam em liberdade por conta de habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo o coronel Pantoja, as ordens para desobstruir a rodovia de qualquer forma partiram do então governador Almir Gabriel, informação negada pelo mesmo.

“Dos 155 policiais envolvidos, apenas dois foram condenados. Essa impunidade acaba estimulando mais violência, tanto que outros crimes no campo aconteceram anos depois do massacre”, comenta Walmir Brelaz. Apesar do número reduzido de prisões, o Estado foi responsabilizado pelas ações dos policiais e sentenciado a pagar benefícios e garantir o tratamento de quem ainda vive o massacre. “A gente ainda luta para que haja o tratamento de saúde adequado a muitos sobreviventes. Parece demagogia quando a gente fala, mas o massacre ainda existe”, conclui o advogado.

(Diário do Pará)

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