Em um torneio disputado por grandes clubes como Flamengo, Corinthians, São Paulo e Cruzeiro, era difícil ser realmente otimista ao imaginar qual seria o papel reservado a um time do Pará que também participaria da competição. No entanto, há dez anos, contrariando a lógica, o time surpreendeu todo o Brasil ao escrever seu nome na história do futebol nacional. Para muitos bicolores, as memórias da tarde de um distante quatro de agosto de 2002 permanecem tão intensas quanto a festa que invadiu as ruas de Belém.
Para quem se lembra, o título da Copa dos Campeões foi comemorado como se o Paysandu tivesse conquistado a Copa do Mundo. O Papão havia perdido a partida anterior para o Cruzeiro por 2x1, no Mangueirão. Depois de um jogo dramático, o bicolor paraense conseguiu vencer por 4x3 a segunda partida, levando a decisão para os angustiantes chutes livres ao gol. Os brasileiros assistiram incrédulos, um a um, os jogadores do Cruzeiro perderem três cobranças consecutivas.
Quando Luiz Fernando converteu o último pênalti para o Papão, o tempo parou por um milésimo de segundo para que milhares compreendessem o que havia acontecido. “Eu tava com uma expectativa enorme e com um bom pressentimento. Quando terminou o jogo, eu comecei a perguntar: “Égua, a gente é campeão!? A gente é campeão!?’ Eu nem consegui acreditar, só quando eu vi os jogadores com a taça na mão no campo que caiu a ficha”, conta Breno Santos, 23 anos, que viajou com a família para Fortaleza para acompanhar a final ao vivo no Castelão.
Carlos Diego Santos, 25 anos, irmão de Breno, por pouco não perde a chance de ver o time que ama se consagrar campeão. “Pra ser sincero, eu não tava muito confiante, não. O Paysandu tinha perdido o primeiro jogo aqui no Mangueirão e precisava vencer por dois gols de diferença. Mas aí meu pai acabou insistindo e eu fui”, conta.
Espalhadas entre os vídeos de partidas que disponibiliza na internet, por entre as fotos de jogadores e em ingressos de jogos históricos, as lembranças das conquistas do Papão são parte do que faz o torcedor feliz. “Eu não tenho nem palavras. É um amor igual de pai, de mãe, até mais forte”, declara.
O sonho de conquistar uma competição de relevância nacional foi antecipado por um colega de Carlos. Nele, o Paysandu conquistava o título, nos pênaltis, após um jogo de vários gols. Carlos garante que a história é verídica. “Quando foi pra os pênaltis, eu já tava mais confiante porque eu lembrei do sonho do meu colega. Tudo tava acontecendo igualzinho: o Paysandu tinha ganhado por muitos gols e tinha ido para os pênaltis. Aí eu tive certeza que ele tava falando a verdade”, detalha. Para o torcedor, a vitória tem um valor difícil de ser explicado. “Pra mim, é o título mais importante que o próprio Brasileiro. O campeonato não é mais disputado e é uma conquista que poucos clubes têm. Jogavam só os melhores de cada região, o time já era campeão, não é que nem o Brasileiro que eles começam do nada”, afirma.
SUPERAÇÃO
Poder disputar a Libertadores é apenas um dos motivos que tornam a conquista da Copa dos Campeões inesquecível para o ex-jogador Vandick. Considerado herói pela torcida bicolor, o atacante fez três dos quatro gols na final emocionante. “Não foi só um grande momento para o Paysandu. Foi o maior momento da minha carreira. Foi um jogo de superação. Nós havíamos perdido a primeira partida em Belém, mas acreditamos, nos reunimos, achávamos que dava e conseguimos. Parece até que foi ontem. Eu lembro muito bem”, afirma.
“Quando o Luiz Fernando partiu pra chutar o terceiro pênalti, a gente já podia comemorar. Eu só pedi a Deus que a bola entrasse”.
Para ele, a vitória tem uma expressividade maior por ter sido sobre um clube com a força do Cruzeiro. “A gente não ganhou de um time qualquer. O Cruzeiro tinha jogadores como o Jefferson, o Cris, por exemplo, que jogavam na Seleção. Marcar três gols em cima de qualquer time já é difícil. Marcar contra um adversário desses, numa final, é realmente muito bom. Mas eu só fiz empurrar pra dentro do gol, tive o apoio de todo o time. Fui abençoado como nunca naquele dia”, conta.
Hoje, o Paysandu vive um momento bem diferente daquele time de 2002 que tinha no elenco nomes como Gino, Sandro Goiano e Lecheva. Após ser rebaixado duas vezes, o Papão está há seis anos tentando sair da série C. Junto com o Remo, o maior rival, o alviceleste paraense luta para reviver antigas conquistas em um cenário em que times do interior começam a ganhar cada vez mais espaço.
Para quem é torcedor, como Carlos Diego, um momento que exige compreensão: “Às vezes eu fico com raiva, digo que vou deixar de ir pra o estádio, que vou ver o jogo só pela televisão... mas aí meu pai chega com os ingressos, me chama e eu não aguento. Tenho que ir”. Tempos difíceis em que as glórias do passado servem como lembrete de que dias melhores ainda são possíveis.
(Diário do Pará)
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