Entre os pés do atacante italiano Baggio e as mãos do goleiro brasileiro Taffarel, a felicidade de milhões de pessoas permaneceu suspensa por alguns segundos. Há cinco Copas do Mundo, o Brasil engasgava com o grito de “Tetra” entalado na garganta. Depois de uma partida exaustiva que terminou zero a zero, um dos principais artilheiros da seleção italiana, no único momento que não poderia errar, chuta por cima do travessão.
De virada nos pênaltis, a seleção verde e amarela fez a festa no estádio Rose Bowl, embaixo do sol quente da Califórnia. Um calor pequeno perto daquele que invadia as ruas do Brasil na tarde daquele 17 de julho de 1994. 24 anos depois da conquista do tricampeonato em 70, milhões de brasileiros eufóricos fizeram um país de dimensões continentais parecer pequeno para abrigar uma festa tão grande.
As bandeirinhas tremulando em verde e amarelo sobre as ruas, o asfalto pintado em homenagem à Seleção, a mobilização de parentes e vizinhos compartilhando a mesma alegria... Belém viveu intensamente a Copa de 94. Para Rodolfo Raiol, aquele verão será sempre uma recordação bonita da infância e símbolo de um tempo que não volta mais. Na época com 10 anos, o professor de educação física se maravilhava pela primeira vez ao compreender por que o futebol é considerado paixão nacional.
“Eu assisti à Copa de 90, chorei e tudo mais, mas eu ainda era muito pequeno. A de 94 foi a primeira Copa que eu acompanhei efetivamente. Por conta das férias escolares, eu consegui acompanhar todos os jogos. Participei da preparação enfeitando as ruas, torci junto... É a Copa que eu mais me lembro. Me marcou muito. Como eu sou professor de educação física, trabalho com isso, são coisas que acabam fazendo parte da minha vida”, conta Rodolfo.
Dezoito anos depois, o professor fala com carinho dos dias em que os jogos do Brasil eram motivos para colocar as diferenças de lado e valorizar o que temos em comum. “Toda a família se reunia lá em casa para torcer junto. Não só pai, mãe, irmãos, mas tios, tias e primos, até os vizinhos iam para lá”, conta. Para Rodolfo, o fato de o futebol ser um esporte barato contribuiu para sua popularização.
“Foi o primeiro esporte coletivo em que o Brasil teve sucesso. Tu não precisas de muita coisa pra jogar, basta uma bola. A partir de 58, quando começam a aparecer nomes como Pelé, Garrincha, que tinham esse jeito brasileiro de jogar, muita gente começou a se interessar pelo esporte. Aí a paixão acabou passando de pai pra filho. Fora o investimento impressionante da mídia também”, opina.
Explicações à parte, o torcedor, em 94, já entendia que perder aquela Copa seria inaceitável. “O Brasil não ganhava uma Copa desde 70. Crescer com um sentimento assim era considerado meio que vergonha pra nação. É muito engraçado. Ninguém pode ganhar da gente. Para qualquer outra seleção o vice-campeonato seria um orgulho, pra gente é motivo de vergonha”, fala Rodolfo. Felizmente, naquele dia, o futuro professor não precisou se lamentar como fez quatro anos antes. “O jogo terminou zero a zero, foi muito embolado. Nos pênaltis, o Márcio Santos perdeu, o Romário fez, aí depois fez Branco, Dunga e, na última cobrança da Itália, o Baggio chutou por cima do gol”, relembra.
O que aconteceu depois, Rodolfo não consegue explicar direito. “Foi uma coisa realmente transcendental. Ali o Brasil se consagrava como o país do futebol. Fecharam a rua de casa, nem ônibus passava mais. Imagina umas 300 pessoas comemorando na rua. Foi uma coisa fora do comum. Tava todo mundo em êxtase, parecia que não existia. Ainda teve uma chuva pra deixar tudo mais legal”, recorda, nostálgico. Com o tempo, Belém ficou menos provinciana, os enfeites das ruas deram lugar aos carros e as Copas seguintes desgastaram o espírito de união. No entanto, a família de Rodolfo conserva até hoje o hábito de se juntar para assistir aos jogos da Seleção.
Enquanto milhões de paraenses acompanharam a Copa de 94 pela TV, o jornalista esportivo da Rádio Clube, Giuseppe Tommaso, conta que precisou “se virar” nos Estados Unidos com o colega Ronaldo Porto para cobrir o evento. “A gente não foi credenciado. Só tinha o credenciamento da CBF. Então o que a gente fazia era passar os boletins e a movimentação dos torcedores antes, durante e depois dos jogos. A gente efetivamente não transmitiu a Copa, nós cobrimos de uma maneira mais festiva. Não foi uma experiência tão boa porque a gente acabou ficando limitado”, conta Tommaso.
Além do trabalho com a Clube, Tommaso também gravava vídeos para a RBA, que, em tempos pré-internet banda larga, eram enviados por Sedex e demoravam dois dias para chegar a Belém. E, se os vídeos chegavam atrasados, Tommaso chegou oito dias antes.
Quando acabaram as quartas-de-final, Brasil e Holanda, nós não tínhamos mais condições de ficar nos Estados Unidos porque o projeto foi mal elaborado pelo diretor da época. Então nós não assistimos a final lá, nós acompanhamos em Belém. Eu fui fazer a cobertura com o pessoal da RBA no Mosqueiro. Como era julho, tava lotado. Eu comandava trio elétrico nessa época, fiz a festa lá com a galera e voltei de madrugada pra apresentar o Camisa 13 segunda-feira de manhã. Maior onda”, relembra o jornalista, que estava em Londres, devidamente credenciado, até o início de agosto.
(Diário do Pará)
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