Quando dois milhões de pessoas se juntam pela mesma causa, os efeitos dessa união só podem ser memoráveis. Todos os anos, em Belém, as mesmas lembranças se repetem e se renovam. A multidão avançando lenta, a Berlinda navegando no mar de gente, o coro de milhares de fiéis reverberando rezas em forma de cantos, a união das famílias para aproveitar o pato no tucupi fumegando na panela...
O Círio de Nazaré, considerado a maior manifestação religiosa do planeta, é tão significativo para os católicos paraenses que os segundos domingos de outubro viram um marco para recordações. Um desses domingos, o de 2004, certamente permanece na cabeça de muita gente. Naquele outubro, foram necessárias nove horas e vinte minutos para realizar o percurso de 3,6 quilômetros pelo centro de Belém. No Círio mais longo da história, depois de anos, a corda chegava à Basílica de Nazaré junto com a Berlinda. A conquista, no entanto, quase transformou o tradicional almoço em “jantar do Círio”.
Este ano, a procissão a ser realizada será a de número 220. A corda, porém, só foi incorporada ao Círio em 1855. Naquele ano, a Berlinda ficou atolada na lama e os animais que a puxavam não conseguiram fazê-la andar. Num grande esforço coletivo, os fiéis que acompanhavam a procissão usaram uma corda e a força física para fazer a Berlinda prosseguir até a Basílica. Surgia então um dos maiores símbolos de fé e devoção do mundo.
Com o passar do tempo, a corda foi acumulando cada vez mais promesseiros e precisou crescer para que todos tivessem seu pequeno espaço nela. Quem é acostumado a acompanhar o Círio deve se lembrar que, até 2003, a corda era bem diferente do modelo atual que recebe milhares de mãos enfileiradas. A antiga corda, em formato de “U”, atrasava a caminhada e forçava a direção da festa a desatrelá-la antes de a imagem chegar à Basílica. A tradição inaugurada há quase 150 anos começava a perder o sentido ao revoltar promesseiros que não podiam cumprir sua missão até o final.
“A corda em ‘U’ funcionava como uma grande balsa, ia gente dentro, gente fora... Aquele ano (2004) foi o primeiro da corda linear. Nós decidimos alterar o modelo pra acelerar a procissão e em respeito aos promesseiros, que reclamavam muito porque a Berlinda tinha que ir à frente e nós precisávamos cortar a corda”, conta Kléber Vieira, diretor-coordenador da Diretoria da Festa de Nazaré. Kléber explica que a saída encontrada foi esticar uma grande corda para melhorar a movimentação e o fluxo de pessoas.
“Nós tínhamos plena consciência de que a solução seria essa corda linear. Então nós resolvemos estender uma corda de 400 metros, com cinco estações a cada 50 metros de corda. Essas estações eram necessárias para que a corda pudesse fazer as curvas sem tombar ou prender, o que poderia provocar acidentes graves”, conta Vieira.
Um mês antes, o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), havia registrado o Círio como patrimônio cultural de natureza imaterial. A expectativa criada pelo anuncio da nova corda era grande e os promesseiros aguardavam um Círio histórico. O teste seria feito na noite anterior, durante a Transladação. Para surpresa dos milhares de fiéis, a corda andava. Até começar a partir.
“Na noite de sábado, como as estações eram muito pesadas, os mosquetões que faziam as ligações quebrando. Começaram a ficar pedaços de 50 metros de corda soltos pela procissão”, relembra o diretor-coordenador da festa. Com as horas avançando, o Círio se aproximando e poucas opções à disposição, a solução encontrada pela diretoria foi reforçar com manilhas de aço às estações para que todo o evento não fosse tumultuado. A solução surtiu o efeito desejado e as estações pararam de romper com o próprio peso. O problema é que ninguém esperava o que aconteceria depois.
“As estações tinham dois metros de comprimento por um de largura e eram feitas de ferro maciço. Ninguém tinha força pra puxar. Elas ficavam paradas porque começavam a cobrar tração e os promesseiros não conseguiram segurar e seguir com a corda”, diz Kléber. Nas estações, o esforço absurdo que os fiéis realizavam para tentar arrastar a corda tornava a procissão dramática.
Até o final da procissão, 2.566 romeiros seriam atendidos nos 16 postos montados pela Cruz Vermelha. 735 casos de desmaio foram registrados. Vieira, em 2004, era coordenador da estação um, a primeira atrelada logo após a Berlinda. Impulsionados pela fé, o grupo de Kléber, independente da decisão das outras estações de cortarem a corda, iriam cumprir a tarefa de puxar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré até o final.
“Foi muito emocionante. Os promesseiros estavam exaustos, querendo cortar a corda, desistir, mas aí naquele momento a gente começou a orar, se incentivar e fez um pacto. Aqueles 50 metros de corda iriam chegar no final de qualquer jeito. Eles começaram a levantar a estação, a cantar aquele hino, ‘Nossa Senhora pode esperar, a tua corda vai chegar’. Eu me arrepiei todo”, conta. Por volta das 4:30 da tarde, a Berlinda e os promesseiros finalmente traziam de volta a imagem de Nossa Senhora de Nazaré à Basílica.
Hoje, oito anos depois, medidas fundamentais foram tomadas para que a festa do Círio acontecesse sem a angústia vivida naquele ano.
(Diário do Pará)
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