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Benedito Nunes e Dalcídio Jurandir:gênios da raça

Todos nós contribuímos para a construção da história tal qual a conhecemos hoje. Cada um teve sua participação no caminho traçado, nas mudanças efetivadas, na transformação de uma era. Alguns cidadãos, contudo, desempenham papel de destaque. Eles saem à f

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Todos nós contribuímos para a construção da história tal qual a conhecemos hoje. Cada um teve sua participação no caminho traçado, nas mudanças efetivadas, na transformação de uma era. Alguns cidadãos, contudo, desempenham papel de destaque. Eles saem à frente da sociedade e brilham.

Exibem um comportamento diferenciado, exemplificado por seus discursos, seus atos. E se tornam, assim, elementos essenciais não apenas de um espaço ou de um povo, que muito se orgulha de seus conterrâneos intelectuais: eles também rompem fronteiras. No Pará, muitas personalidades alcançaram este patamar.

Do cinema à história, da sociologia à literatura, esses paraenses, de nascimento ou coração, marcaram a história, a cultura e o desenvolvimento do nosso Estado.

LITERATURA

Para o escritor Elias Pinto, a literatura paraense teve diversos expoentes de inteligência refinada, além de Benedito Nunes. Foram gênios na arte de aplicar o conhecimento nas suas áreas e levá-los também à compreensão de outras ciências. Entre eles, Eidorfe Moreira, o filósofo da geografia que investiu no desenvolvimento educacional do Estado, estudou suas características, e foi do direito à poesia, de livros didáticos a visão geossocial do Círio, passando pela expressão geográfica de Belém aos estudos de planejamento.

E na atualidade, para superar o estereótipo de intelectuais vivos, Elias cita Lúcio Flávio Pinto. “O conhecimento que ele possui, sua capacidade intelectual, permitem a ele acompanhar e estar no front amazônico. Ele não é apenas um intelectual isolado no gabinete de estudo. É um intelectual público”, diz. Idealizador do Jornal Pessoal, Lúcio atua como um jornalista independente, denunciando fatos que em geral não ganham a grande mídia, seja a exploração ambiental, sejam acordos políticos corruptos e esquemas de injustiças sociais. “Ele poderia estar na academia, protegido. Escrevendo nos grandes órgãos de comunicação do país.

Ou até mesmo em Harvard, mas ele preferiu sempre voltar e acompanhar a história feita no dia a dia. E ao mesmo tempo se expondo. Ele traz o debate necessário, alerta a sociedade, discute a Amazônia, sob o olhar de quem é da região e a conhece como poucos”, diz. E apesar de muitas pessoas se utilizarem da desculpa de dificuldade de acesso para não mergulhar na cultura regional, Elias Pinto lembra que há sim muitas obras disponíveis, ao simples estender das mãos. “O próprio DIÁRIO DO PARÁ lançou recentemente [também através do projeto Orgulho de ser do Pará] exemplares com obras de dez escritores locais”, afirma Elias.

AMAZÔNIAS

Ainda no âmbito dos intelectuais das palavras, o professor de Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) Romero Ximenes lembra de Dalcídio Jurandir (1912-1978). Romancista e militante político socialista, o escritor marajoara produziu teorias inovadoras sobre a Amazônia, que se configuram especialmente nos livros “Marajó” e “Chove nos Campos de Cachoeira”.“Ali temos uma nova concepção de natureza, oposta às visões tradicionais hiperbolizantes a natureza amazônica. Dalcídio é escassez, no ‘celeiro do mundo’. A pobreza humana torna a natureza mesquinha. O social define o natural. Ele fez uma revolução estética no romance amazônico e ainda teorizou sobre a região. Seu romance é uma autêntica antropologia da Amazônia”, explica.

A capacidade de refletir sobre uma região pouco abordada nas formas estéticas tradicionais deu aos intelectuais paraenses uma dupla missão: mostrar faces do Estado aos olhares externos e à própria população local.

HISTÓRIA

Mas não são apenas os intelectuais das palavras que orgulham o Pará. Na história, a professora Magda Maria Oliveira Ricci, diretora da Faculdade de História da UFPA, cita homens que participaram de um dos maiores movimentos sociais paraenses, a Cabanagem: Eduardo Francisco Nogueira Angelim (1814-1882) e Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente (1798-1866). E devido à importância destes ícones para o desenvolvimento da região, algumas instituições decidiram homenageá-los, a fim de manter sempre viva sua história e seus ideais de progresso do Pará. “Neste ano do centenário do declínio da Era da Borracha, vale lembrar que Roberto dos Santos foi uma das pessoas que mais ponderou essa reflexão. Ele se apropriou do passado, fez análises do porquê ela não deu prosseguimento. E ele ainda se institui atual, porque suas considerações valem para o novo ciclo econômico no Estado, que é a mineração”, explica Cassiano Ribeiro, diretor de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas e Análise Conjuntural do Idesp (Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará). Falecido no último mês de junho, Santos era jurista de formação e foi um dos fundadores do primeiro curso de Economia do Pará.

Não há um tipo único, universal, de intelectual. Cada grupo social forma e deve formar seus intelectuais. O papel deles é mobilizar. Como conceituou o filósofo italiano Antonio Gramsci, “todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um ‘filósofo’, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para suscitar novas maneiras de pensar”.


Benedito Nunes e seu pensamento interdisciplinar

Com intelectuais de tamanha expressividade, o Pará também ganhou reconhecimento mundial e se tornou foco de diversas pesquisas, como a de Jucimara Tarricone, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Ano passado, ela publicou o livro Hermenêutica e crítica: o pensamento e a obra de Benedito Nunes. “Benedito Nunes foi, antes de tudo, um pensador interdisciplinar, pois não se resumiu à crítica literária, e nem só às questões intercambiantes da literatura e da filosofia. Ele desenvolveu um arcabouço teórico-crítico nos mais variados temas, como a história, a música, a cultura etc.

Como já comentado, a grande inovação do seu trabalho é a interdisciplinaridade de temas. Ele é sempre lembrado como um crítico que estabelece uma relação entre literatura e filosofia, mas seus escritos e reflexões são mais abrangentes. O professor nos legou uma obra ímpar, com reflexões acerca de grandes questões filosóficas, literárias, culturais, que ainda não se esgotaram como objeto de estudo. Sua crítica a respeito de autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, entre outros, é uma via de interpretação única”, diz a pesquisadora.

(Diário do Pará)

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