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Paulo Fontelles executado a tiros

Da morte, surgiu uma força coletiva que tomou conta das ruas de Belém. Milhares de pessoas partiram do velório, que ocorreu na sede da Assembleia Legislativa do Estado, marchando sob uma chuva de papéis picados. A multidão pedia o que o homem que iria ser

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Da morte, surgiu uma força coletiva que tomou conta das ruas de Belém. Milhares de pessoas partiram do velório, que ocorreu na sede da Assembleia Legislativa do Estado, marchando sob uma chuva de papéis picados. A multidão pedia o que o homem que iria ser sepultado lutou para dar a centenas de pessoas em vida: Justiça. Nas casas, prédios e escritórios, bandeiras do Brasil, pedaços de pano e toalhas vermelhas estendidos sobre janelas e sacadas faziam referência ao Partido Comunista Brasileiro.

O vermelho ao lado do maior símbolo nacional também lembrava que a história do nosso país é manchada de sangue. Foi assim, com revolta e protestos, que o ex-deputado do PCdoB e advogado comunista Paulo César Fontelles de Lima foi homenageado após seu assassinato no dia 11 de junho de 1987. Paulo Fontelles sobreviveu às torturas da ditadura militar, mas padeceu sob o cano de um revólver engatilhado por pessoas que, ainda hoje, permanecem impunes.

A morte do ex-deputado, reconhecido nacionalmente por defender a reforma agrária e o interesse de trabalhadores rurais, foi notícia em todo Brasil. Paulo Fontelles foi assassinado por volta das 11 horas, no Posto Marechal 4, que ficava próximo à atual entrada da Alça Viária. Ele aguardava o abastecimento do veículo para seguir a viagem até Capanema, onde resolveria uma questão judicial para um de seus inúmeros amigos.

A foto do corpo do advogado de 38 anos, sentado no banco de carona de uma Chevy, morto com três tiros à queima roupa, ganhou o país. Uma morte antecipada três anos, pelo próprio Fontelles, que anunciou seu nome em uma lista de “marcados para morrer”. Meses depois da divulgação da lista, lideranças que lutavam por causas sociais começarem a ser executadas.

“A notícia de seu assassinato fora um choque para todos nós. Eu e meus irmãos, Ronaldo e João Carlos, recebemos a trágica notícia pelo rádio que já repercutia, pelo final da manhã, o seu assassinato”, conta Paulo Fontelles Filho, pesquisador, integrante do Grupo de Trabalho Tocantins, do Ministério da Defesa, e um dos cinco filhos do ex-deputado. Do dia inesquecível em que milhares de pessoas pararam para homenagear o pai, Fontelles Filho conta que tomou a decisão que lhe guiou pelos anos seguintes: “Uma recordação daquele dia que carrego comigo foi a estrofe de ‘Pesadelo’ de Paulo César Pinheiro ensinando que: ‘Quando um muro separa, uma ponte une; Se a vingança encara, o remorso pune; Você vêm, me agarra, alguém vêm, me solta; Você me prende vivo, eu escapo morto; Você corta um verso, eu escrevo outro’. Esses versos calaram tão fundo dentro de mim que naquele mesmo dia, aos 15 anos, pedi ingresso nas fileiras do Partido Comunista do Brasil. Essa foi minha forma de reagir”.

Reagir foi o verbo que guiou a vida de Paulo Fontelles e a herança que ele deixou a quem, como ele, acredita em um país menos desigual. “O combate travado deixou aos filhos e a todos os seus companheiros e admiradores o legado de que sempre é preciso lutar: seja pelo estabelecimento do direito à memória, verdade e justiça, seja para pôr fim ao latifúndio, instituição que mais nos liga a um passado que, enfim, haveremos de superar com a necessária democratização das terras em nosso país”, comenta Fontelles Filho.

25 anos depois, os responsáveis por encomendar a morte do ex-deputado permanecem impunes. Como ocorre na maior parte dos crimes de “pistolagem” no Pará, apenas os nomes da base da pirâmide foram revelados. “A investigação se encerrou com a prisão do Antônio Rocha, o “Rochinha”. Tal sujeito fora ligado à repressão política e recrutado por James Vita Lopes na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Aliás, toda a ação criminosa contou com a presença de gente que atuou nos esquadrões da morte da ditadura militar, o James, como exemplo, foi da Operação Bandeirantes (Oban) de São Paulo e provavelmente do extinto SNI (Serviço Nacional de Informações)”, explica Fontelles Filho.
Vita Lopes, considerado o intermediário do crime, e “Rochinha”, que dirigia o carro em que estavam os pistoleiros, foram condenados a 19 anos de prisão na década de 90, ambos cumpriram apenas um terço da pena em regime fechado. No processo volumoso, nenhum integrante do consórcio que teria se formado para encomendar o crime, segundo o filho do ex-deputado, é citado.

“O processo há muitos anos ‘dorme’ no judiciário paraense o que não nos causa estranheza. Falo isso me referindo ao fato de que nos últimos trinta anos mais de duas mil pessoas foram mortas em conflitos pela terra no Pará e a apuração de tais crimes, sempre contra defensores da Reforma Agrária, não chega a 3%. Um verdadeiro absurdo!”, indigna-se o pesquisador, que desabafa: “O fato é que estamos retomando o processo de meu pai e já entabulamos uma audiência com o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Recorremos ao governo federal porque não temos nenhuma confiança nas autoridades de segurança pública do Pará”.

Fazer justiça à morte do pai é mais que uma ambição para Fontelles Filho. O desejo de reparar a impunidade é uma forma de preservar o espírito do advogado que viveu lutando contra injustiças como esta, que sua família tenta reverter há duas décadas e meia. Seu filho, que herdou sua determinação, está decidido: “Não descansaremos enquanto os mandantes do hediondo crime de Paulo Fontelles não estiverem presos”.

(Diário do Pará)

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