O ano de 1982 viu os últimos resquícios de politização de atletas brasileiros. Liderados por Sócrates, os jogadores do Corinthians, que criaram um conceito inédito no Brasil, o da democracia corintiana.
Em resumo, todas as decisões no clube seriam tomadas pelos próprios jogadores e funcionários. Uma valiosa lição para os mandantes de plantão. A famosa, embora demagógica até certo ponto, frase de Sócrates, ‘se as eleições diretas passarem eu fico no Brasil’, teve efeito forte no imaginário de uma época de mudanças.
Inflação era a palavra mais usada e temida. Economicamente, o país parecia perdido, afundado. Pediu socorro ao FMI, o Fundo Monetário Internacional. A sigla acompanharia o país pelos anos seguintes, sempre gerando manchetes jornalísticas. O Brasil havia perdido pelo menos três bilhões de dólares em exportações naquele ano.
Como costuma ocorrer nesses casos, o acordo com o famigerado FMI só ocorreu em novembro, depois das eleições. Levar o debate a público não fazia parte dos interesses do governo federal. O Brasil teria de entrar em outra rota econômica, monitorada pelo banco internacional.
A inflação galopante, como se dizia à época, era apenas um dos fantasmas que assombravam a sociedade brasileira em 1982. Em termos de comportamento, o início da década foi marcado pela presença de uma doença que seria um dos símbolos da época, a AIDS. Se os anos 60 e 70 foram de rebuliços sexuais, a década seguinte manteria a tocha acesa, mas com uma sombra pairando ameaçadora. Foi como uma ducha fria nas emancipações sexuais anteriores. Em 1982, o primeiro caso oficial foi registrado no Brasil.
No plano cultural, com os ventos da abertura e a entressafra criativa dos grandes nomes da MPB, uma nova geração foi arrombando as portas e sendo a trilha sonora ideal para aqueles tempos de mudança. Surgia o rock brasileiro. Um dos primeiros a abrir caminho para esse novo som era um grupo carioca antenado com seu tempo. “Você Não Soube Me Amar”, da Blitz, foi lançada em um disco compacto de vinil, com apenas uma música. Na outra, apenas o grito “nada, nada, nada”. Chegou aos poucos e de repente tomou conta do País, com seu chopp gelado e as batatas fritas. No mesmo ano chegou o primeiro disco do Barão Vermelho e o primeiro LP da banda baiana Camisa de Vênus. Nada seria mais como antes.
Em 1982, o mundo se curvou ao talento da literatura latino-americana, concedendo o Prêmio Nobel de Literatura à Gabriel Garcia Marques. No Brasil, morria Sérgio Buarque de Holanda, historiador e crítico literário brasileiro.
Mas o ano foi mesmo de um jovem paulista, que resolveu, de forma humana e bem humorada, contar o que seria uma tragédia. Aos 20 anos, Marcelo Rubens Paiva tornou-se paraplégico. Escreveu “Feliz Ano Velho” e emocionou o país, abrindo as portas para a literatura pop no Brasil.
Vendeu 500 mil exemplares e transformou a editora Brasiliense a mais querida desse novo público leitor.
Assim foi 1982. O ano que viu surgir o DIÁRIO foi um ano de mudanças profundas no Pará, no Brasil e no mundo. E para a garotada da época, foi o ano em que todos começaram a experimentar o chocolatado Toddynho. Era a revolução sem volta.
(Diário do Pará)
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